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Cotidiano

Especial: quando o tempo muda os papéis, mas não o amor

Confira o Especial de Dia das Mães do Hojemais Três Lagoas.

Danielle Brito - Hojemais Três Lagoas
10/05/26 às 09h08

Filhos que viraram abrigo: uma história de entrega, fé e união

(Foto: Arquivo Pessoal)

Aos 87 anos, Adalgisa Rita da Silva partiu deixando mais do que lembranças: um legado de amor, fé e união que marcou profundamente a vida de seus quatro filhos: Rozires Rodrigues da Silva Alves, Roseneide Rodrigues da Silva Machado, Ronaldo Rodrigues da Silva e Regina Rodrigues da Silva Antunes.

A história da família ganhou um novo rumo após um AVC, quando Adalgisa passou a depender integralmente dos filhos para as atividades mais simples do dia a dia. Foi nesse momento que a vida de cada um precisou ser reescrita. Sonhos profissionais foram adiados, rotinas transformadas e prioridades redefinidas em nome de um cuidado que exigia presença constante e dedicação integral.

O impacto emocional foi profundo. “A ficha caiu quando ela passou a nos chamar de mãe”, relembra Rozires. A inversão de papéis trouxe dor, saudade da mulher que um dia foi o alicerce da família, mas também revelou a força do amor que os unia.

Para dar conta da nova realidade, os irmãos criaram uma rede de apoio sólida e organizada. Em forma de escala, garantiam que Adalgisa nunca estivesse sozinha. “A gente só saía quando o outro chegava”, contam. Entre adaptações na casa, na rotina familiar, no trabalho e até nos compromissos religiosos, encontraram uma forma de seguir juntos.

O período da pandemia foi um dos mais desafiadores. O medo da Covid-19 trouxe ainda mais tensão a uma rotina já exaustiva. Mesmo assim, a família resistiu. “Era muita tensão e medo, mas, graças a Deus, sobrevivemos”, recordam.

A caminhada de quase 17 anos, sendo os últimos quatro mais delicados, foi sustentada não apenas pelos irmãos, mas também pelos companheiros de vida. “Só temos que agradecer aos nossos maridos, que nunca colocaram empecilho. Eles cuidaram de nós enquanto cuidávamos da nossa mãe”, destaca Rozires.

O apoio também veio de amigos, familiares e profissionais de saúde. A equipe do Posto de Saúde Nova Três Lagoas, especialmente a agente Ângela, esteve presente em momentos decisivos, oferecendo cuidado e acolhimento. A fé, por sua vez, foi um pilar essencial. Na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, junto à Renovação Carismática, encontraram força para continuar, amparados por irmãos de caminhada e padres que estiveram ao lado da família até o fim.

Mesmo diante das dificuldades, a certeza permanece: valeu a pena. “Não desista. Vale a pena cuidar de quem sempre cuidou de nós. Faríamos tudo de novo”, afirmam.

Inspirados pelas palavras de Madre Teresa de Calcutá. “Não é o quanto você faz, mas quanto amor você coloca no que faz que realmente importa”, os filhos de Adalgisa encontraram sentido em cada gesto de cuidado.

Hoje, o que permanece é a união construída ao longo dos anos. Entre genros, netos e o irmão que, mesmo distante por conta dos estudos em filosofia e teologia, nunca deixou de estar presente, a família segue firme, conectada pelo amor que aprendeu a transformar dor em propósito.

Quando os papéis se invertem: o amor que acolhe e transforma

(Foto: Arquivo Pessoal)

A história de Maria de Lourdes Brito de Moraes, que partiu em 14 de janeiro de 2018, aos 78 anos, é, acima de tudo, uma história de amor que atravessa o tempo. Mais do que recordar sua ausência, esta é uma homenagem à sua presença viva na memória e no coração de seus filhos Sandra, Kátia, Marcos e Cássia, a filha caçula, laços que nem o tempo é capaz de romper.

Ao longo dos anos, o que antes era cuidado recebido transformou-se, silenciosamente, em cuidado oferecido. A inversão de papéis entre mãe e filhos não aconteceu de forma brusca, mas foi se desenhando nos detalhes do cotidiano: nos primeiros pedidos de ajuda, nas consultas médicas acompanhadas, nas conversas mais atentas, no olhar mais vigilante.

Com o passar do tempo, vieram os desafios maiores. A fragilidade que antes parecia distante tornou-se realidade. Foi preciso aprender a cuidar da alimentação, do banho, da medicação, dos movimentos — e, muitas vezes, até mesmo daquilo que não se vê, como a memória e a atenção. Cada gesto, por mais simples que parecesse, carregava um significado profundo: era o amor sendo devolvido em forma de presença.

Mas esse caminho também trouxe sentimentos difíceis de nomear. Amar intensamente e, ao mesmo tempo, sentir cansaço. Querer ser forte, mas, por dentro, sentir-se frágil. Lidar com a tristeza e com o medo da finitude. A chamada ambiguidade emocional tornou-se parte da rotina, um turbilhão silencioso que só quem vive entende.

Ainda assim, houve força. Houve fé. Houve apoio vindo de diferentes formas: de profissionais, de amigos, de familiares — até mesmo de longe, em uma ligação, em uma palavra, em um gesto de compreensão. Porque cuidar não é apenas estar presente fisicamente, mas acolher sem julgar, estender a mão mesmo nos momentos mais difíceis.

Para Sandra, Katia, Marcos e Cássia, cuidar da mãe foi mais do que uma responsabilidade: foi um ato de entrega, de retribuição e de amor incondicional. Em cada momento vivido, em cada dificuldade enfrentada, ficou a certeza de que o vínculo construído jamais se perderá.

Esta homenagem é também um lembrete sensível: cuidar de quem cuidou de você é um dos maiores atos de amor que existem e, ao mesmo tempo, um dos mais desafiadores. É preciso paciência, compreensão e, sobretudo, acolhimento consigo mesmo.

Para a filha Sandra, o amor permanece. “O amor se transforma, se reinventa, mas nunca se desfaz. E é nesse amor que nossa mãe, Maria de Lourdes continua presente — viva nas lembranças, nos ensinamentos e em tudo aquilo que deixou em cada um de seus filhos”, disse.

Cuidar de quem um dia cuidou: uma história de amor que atravessa gerações

(Foto: Dalva Fotos e Vídeos)

Aos 88 anos, Nedina Carneiro de Barros é o coração de uma história marcada por amor, entrega e recomeços. Mãe de oito filhos — Reginaldo, Iolanda, Sueli, Luiz, Ronaldo, Rozely, Nedir e Aparecido — ela construiu uma vida dedicada à família. Hoje, é envolvida pelo mesmo cuidado que um dia ofereceu, em um ciclo silencioso e profundo de afeto.

O tempo, inevitável, trouxe fragilidades. Um acidente, ainda em 1991, deixou marcas que, ao longo dos anos, foram se intensificando, comprometendo sua autonomia física e mental. Aos poucos, atividades simples passaram a exigir apoio constante — caminhar, se alimentar e tomar banho. E foi nesse momento que o amor ganhou uma nova forma.

Filha, professora, mãe e avó, Rozely assumiu a missão de cuidar. No início, vieram as dúvidas, o medo de não saber fazer o suficiente, a tentativa de equilibrar o trabalho, a casa e as novas responsabilidades. Mas o amor, paciente, ensina. Com o passar do tempo, o que antes era incerteza se transformou em cuidado seguro, quase intuitivo.

Uma cirurgia de catarata trouxe uma mudança que começaria como provisória, mas se tornaria definitiva. Nedina deixou sua casa para viver com a filha — e, ali, encontrou um novo lar. A adaptação foi coletiva: rotinas foram ajustadas, espaços reorganizados, vidas entrelaçadas ainda mais profundamente. Tudo para acolher, com dignidade, quem mais precisava.

E, mesmo diante das limitações, Nedina segue sendo leve. Não reclama, aceita bem os cuidados, alimenta-se com prazer e preserva um traço doce de alegria — especialmente nos momentos simples, quando está tranquila, com a “barriguinha cheia”. Pequenos gestos que aquecem o coração de quem cuida.

Para a filha, esse cuidado é mais do que uma responsabilidade — é um privilégio. Uma forma de retribuir cada gesto recebido ao longo da vida. “É poder devolver o amor que um dia me sustentou”, traduz em sentimento. É garantir que sua mãe viva com calor humano, segurança e respeito.

Mesmo sendo provedora do lar e responsável pelo neto, ela não hesita: faz tudo com amor. Um cuidado que se assemelha ao de uma mãe com um bebê — alimentar, dar banho, ninar, vigiar noites e dias. Um amor atento, presente, que não mede esforço.

Nessa caminhada, o apoio também se faz essencial. O atendimento médico do Dr. Paulo Veron, que vai até a residência, na presença da sobrinha, a médica Dra. Gabriela Carneiro de Barros Gomes, e o amparo constante das irmãs Iolanda, Sueli e Nedir fortalecem essa rede de cuidado.

Essa não é apenas uma história sobre envelhecer. É sobre amor que permanece. Sobre mãos que um dia cuidaram e hoje são cuidadas. Sobre a beleza de retribuir, com ternura, aquilo que não tem preço.

Porque, no fim, o que fica é simples e profundo: quem ama, cuida. E cuida com entrega, com doçura e com um amor que atravessa o tempo.

Onde o amor permanece, mesmo quando a memória se vai

(Foto: Arquivo Pessoal)

Lindinalva Ferreira de Melo tinha 75 anos e uma trajetória marcada por desafios profundos. Mãe de três filhos, todos acometidos por uma doença degenerativa, ela também era tia da minha mãe Doracy de Araujo Oliveira e esposa do irmão da minha avó. A vida nunca lhe foi leve — e, ainda assim, seguiu com dignidade até onde foi possível.

Sempre estivemos presentes, mas foi após a perda dos filhos e com o avanço da idade que a fragilidade do casal se tornou mais evidente. As visitas se intensificaram, e nelas percebemos que meu tio José já não conseguia, sozinho, dar conta de todas as demandas.

Tentamos ajudar como podíamos. Chegamos a contratar alguém para auxiliar nos cuidados, mas o apoio não foi suficiente. Em 2011, eu, Laura Araujo ainda construía meus primeiros passos na carreira, recém-formada em Serviço Social e vivendo em outra cidade. Foi em uma dessas visitas que minha mãe Doracy, ao se despedir, não conteve o choro.

Naquele momento, entendeu que eles já não podiam mais viver sozinhos. Meu pai, José Carlos de Oliveira com serenidade, decidiu: no dia seguinte, eles viriam morar conosco.

Meu tio resistiu no início, como quem teme deixar para trás sua própria história. Mas aceitou, acreditando que seria algo temporário. Cinco meses depois, ele partiu. Antes disso, deixou uma frase que ecoa até hoje: “Agora posso descansar, pois há quem cuide da minha velha”.

Lindinalva chegou debilitada, mas, com cuidado e dedicação, voltou a andar após cerca de um mês — uma conquista que nos encheu de esperança. Porém, a fragilidade persistia. Uma queda resultou na fratura do fêmur e, devido à idade, a cirurgia não era uma opção.

Foi quando compreendi que minha mãe precisava de mais apoio. Voltei para Três Lagoas para uma cirurgia no joelho — e acabei ficando. Quando me recuperei, assumi, ao lado dela, os cuidados diários.

No início, houve medo e insegurança. Cuidar exige entrega, especialmente quando envolve intimidade e vulnerabilidade. Mas, aos poucos, algo maior tomou conta: o amor. Um amor paciente, silencioso, que se fortalece nos pequenos gestos.

Entrávamos no mundo dela. Havia dias difíceis, marcados pelas sombras do Alzheimer, mas também havia ternura. Todas as noites, rezávamos e cantávamos juntas. Em uma delas, ela me pediu bênção e me chamou de mãe. E assim passou a ser, noite após noite.

Minha mãe sempre foi exemplo. Cuidou da própria mãe e da sogra com a mesma dedicação. Ainda assim, ouvimos críticas — sugestões de que um lar de idosos seria o melhor caminho. Nunca foi. Para nós, cuidar sempre foi um ato de amor, não um fardo.

Costumo dizer que existe uma versão de mim antes e depois de Lindinalva. Ela me transformou profundamente. Foi a experiência mais intensa e verdadeira que já vivi.

Durante cinco anos, dividimos cuidados, desafios e afetos. Sem apoio de muitos, mas com a união da nossa família — minhas irmãs ajudando como podiam, meu pai sendo essencial nos momentos mais difíceis, carregando-a no colo quando já não podia mais andar.

O Alzheimer pode apagar memórias, mas não apaga sentimentos. Os olhos revelam aquilo que a mente esquece. E o que oferecemos a ela, em todos aqueles anos, foi amor. Um amor puro, que permanece — inteiro — dentro de nós.

Capa do Especial de Dia das Mães da Edição 2.714.
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