Cotidiano

“Vivam e aproveitem a companhia de suas mães”, diz pedagoga que perdeu mãe e irmã para a covid-19

Psicólogo explica como lidar com o luto pós pandemia

Daniela Galli - Hojemais Três Lagoas
30/07/21 às 19h00

“É como se tivessem arrancado um pedaço do meu coração. Uma dor que não tem explicação”. É desta forma que a pedagoga Fernanda Angélica Silva Santos que, este ano, vivenciou o lado mais triste da pandemia. 

Sua mãe, Edna da Silva Santos faleceu vítima da covid-19 no dia 24 de março de 2021. Gabriela Auxiliadora Silva Santos, irmã de Fernanda, morreu no dia 30 do mesmo mês. Ambas permaneceram quase 20 dias internadas, foram intubadas e não resistiram à doença. Gabriela ainda estava grávida de 20 semanas e deixou uma filha de cinco anos. 

Este processo de dor pelo qual passou e ainda passa Fernanda, é o que chamamos de luto. Com o avanço dos casos de covid desde o ano passado, a pedagoga engrossa uma estatística de acontecimentos que já envolvem mais de 550 mil famílias brasileiras. 

Segundo o psicólogo Genilson Souza, o luto é o rompimento de um vínculo e isso pode acontecer em qualquer área. “Sentimos luto por um emprego que não temos mais, uma ferramenta que nunca usamos, mas que se quebrou, enfim, sempre por algo que se vai e que ainda não estamos psicologicamente preparados para esta perca”.

Fernanda teve que fazer um exercício interno muito grande para entender que, naquele momento, sua vontade, de ter mãe e irmã por perto, não seria respeitada. A explicação veio da religião. “Eu me vi caindo em um buraco e não as tinha mais para me tirar de lá. Mas eu entendi que foi feita a vontade de Deus”.

Segundo Souza, o processo de luto pelo qual muitas famílias passaram foi agravado durante a pandemia, uma vez que tivemos que nos adaptar os rituais de despedida dos nossos entes queridos, como o velório, a caminhada até o cemitério e o enterro. “Nós não temos mais contato com o corpo, não o vemos ser enterrado. Isso fez com que o luto ficasse ainda mais ferino, visceral e muito mais melancólico”.

 

O LUTO PELOS FAMOSOS

Quando o humorista Paulo Gustavo morreu, também vítima da covid-19, aparentemente todo o Brasil entrou em luto. Souza explica que este é um processo legítimo pelo qual passamos, ainda que a pessoa que não tenha morrido não nos seja próxima.

“Uma celebridade é a voz que não temos, o corpo que não possuímos ou o ápice dos nossos sonhos. Perdê-las é faz com que percamos uma parte disto também, um amigo que não conhecíamos pessoalmente mas que nos inspiravam”.

A FORÇA PARA SEGUIR

Fernanda encontrou na sobrinha Maria Eliza, filha de Gabriela, a força necessária para continuar. “A parte mais difícil foi dar a notícia para ela. Hoje em dia quando conversamos parece que os papeis se invertem e que ela é mais velha que eu. É ela quem me diz que eu preciso entender que ‘papai do céu’ precisava delas lá no céu e que eu não posso ficar chorando por que elas estão bem”.


LUTO GENERALIZADO

O psicólogo acredita que passamos por um período de luto generalizado causado por todas as percas pela covid-19, porque, em algum momento, todos nós perdemos algo, por menor que tenha sido. “Muitos perderam parentes, amigos, empregos. Outros perderam os passeios, os abraços e as festas dos finais de semana. A pandemia roubou um pouco da alegria do dia. Acordamos com o pesar do dia que passou e com a amargura pelas tristezas que ainda podem vir”.

O TEMPO

Souza diz que o tempo é essencial para que possamos lidar com todas as nossas adversidades. No processo de luto ele também é importante. “Nós só suportamos as mazelas da vida porque elas estão espaçadas no tempo e no espaço. Se acumulássemos todo o sofrimento humano em um determinado tempo não suportaríamos”.
Depois de quatro meses, Fernanda tenta manter com a sobrinha a mesma rotina que era com a mãe dela. “Quando eu me sinto mais perdida, ela solta um: ‘tia, você sabe que eu te amo!’ e ai eu entendo que tudo é feito no tempo certo”.

CONSELHO

A Pedagoga aconselha a todos que passaram por essa situação que vivenciem toda a tristeza. “Chorar alivia muito e tem que ter muita oração. Porque Deus sabe de todas as coisas. No dia não entendemos, mas com o passar dos dias ele mostra que poderia ser pior se elas ficassem sofrendo”.
Outro conselho de Fernanda é: vivam e aproveitem a companhia de suas mães. “Só quando elas vão embora é que entendemos aquela frase de que ‘sua mãe é sua melhor amiga’. De verdade, não é clichê. A oração de uma mãe é mais poderosa que tudo”.



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