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Aos 35 anos, jornalista Rodrigo Carvalho fala sobre suas vivências como correspondente internacional pela GloboNews em Londres

Durante a entrevista, o jornalista e escritor contou um pouco sobre sua trajetória dentro da comunicação, suas experiências como correspondente internacional e alguns momentos que marcaram sua trajetória no jornalismo.

Julia Rafaela  - Hojemais Três Lagoas 
31/03/22 às 18h00

Aos 35 anos, o jornalista e escritor Rodrigo Carvalho Gomes já se deparou com muitos desafios na reportagem, entre eles o trágico deslizamento em Angra dos Reis no Rio de Janeiro em 2010 e o acidente na mina San José no Chile, onde 33 trabalhadores ficaram soterrados em uma mina a 688 metros de profundidade no deserto do Atacama. Ao todo, foram 69 dias presos até a data do resgate, que ocorreu em 13 de outubro de 2010, quando os olhos do mundo se voltaram para o pequeno buraco de 66 cm de largura.

Durante a entrevista, o jornalista e hoje correspondente internacional em Londres pela GloboNews contou um pouco sobre sua trajetória dentro da comunicação, suas experiências como correspondente internacional e alguns momentos que marcaram sua trajetória no jornalismo.

Como aconteceu sua trajetória no jornalismo?

Quando começamos a entrevista, a primeira pergunta que fiz para Rodrigo foi sobre o início da sua carreira e a resposta surgiu em um tom de boas lembranças, que fez com que o jornalista voltasse a sua infância quando morava com os pais na cidade onde nasceu, em Niterói no Rio de Janeiro.

Para Rodrigo, o interesse pelo jornalismo surgiu em decorrência do amor pelo futebol e pelo time do coração, o Botafogo.

“Eu era um moleque magrelo, dentuço e viciado em futebol, especificamente no Botafogo e em determinado momento eu passei a consumir muito jornalismo esportivo. Eu acompanhava tudo, lia muito e ouvia muito rádio com meu pai e isso é uma memória afetiva muito grande que eu tenho” – afirmou.

Com o passar do tempo, o interesse pela área se expandiu e Rodrigo se viu acompanhando não apenas os cadernos esportivos, mas outras editorias como cultura, política, economia e etc. Nessa mesma época o jovem já começava a criar uma sensibilidade a mais com o jornalismo, onde passou a observar a escolha das fotos, título e o tamanho das matérias, surgindo então um envolvimento que iria muito além de um simples leitor ou telespectador.

“Quando eu fui colocado diante da decisão de escolher a minha área de formação, a comunicação me veio muito fácil, porque lá atrás eu passei a me imaginar cobrindo eventos esportivos, por exemplo... Mas posso dizer que me apaixonei pelo jornalismo mesmo quando tive contato com as primeiras matérias do curso, que era introdução ao jornalismo, telejornalismo e outros conteúdos que eu adorava” - acrescentou.

Logo no começo da graduação o jornalista lembra que se viu aflito por um estágio, foi quando conseguiu a primeira oportunidade em um jornal local, que durante 8 meses lhe rendeu inúmeros aprendizados na prática da profissão.

O repórter contou que nessa mesma época chegou a passar pela TV PUC (Pontifícia Universidade Católica), lugar onde teve contato com a linguagem da TV e foi apresentado às diversas possibilidades desse meio de comunicação.

“Quando eu saí da PUC eu fui para o SBT, que foi onde eu tive meu primeiro contato com uma emissora grande, eu fiquei 1 ano no grupo até que decidi realizar o processo da GloboNews. Eu passei e para minha surpresa 1 ano depois eu fui contratado na reportagem. Foi incrível, porque eu tinha uma única certeza, que era a de querer trabalhar na rua e foi o que aconteceu.... Em 6 meses eu já estava na minha primeira grande cobertura em um deslizamento em Angra dos Reis, em seguida no Chile em minha primeira cobertura internacional, fui para Venezuela como enviado especial, onde pude cobrir protestos, eleição, fui para o Líbano, Estados Unidos e tudo aconteceu de forma muito rápida, de um jeito que eu nem imaginava” – contou.

Arquivo Pessoal: jornalista Rodrigo Carvalho em sua primeira reportagem pela TV PUC.
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A oportunidade no jornalismo internacional

Questionado, o repórter contou que a oportunidade de tornar-se um correspondente veio por meio de uma conversa informal com a até então presidente da GloboNews, Eugênia Moreira. Na época, Carvalho passava por um momento de inquietação, onde sentiu a necessidade de fazer mais apesar do crescimento constante na emissora.

Não demorou muito, e alguns meses após a conversa surgia a vaga como correspondente em Londres, cargo que Rodrigo ocupa desde 2016.

O que um jornalista precisa ter para se tornar um correspondente internacional?

“Para ser correspondente, a primeira coisa é estar sempre ligado aos debates públicos brasileiro, isso é fundamental, porque é sempre bem-vindo que um correspondente crie nas suas pautas e reportagens relação com o que ocorre no Brasil, é claro que isso nem sempre vai ser tão evidente, mas é o ideal, porque estamos falando para um público brasileiro. Além disso, tem que ter o interesse pelo noticiário internacional, pela cultura e falar outras línguas que é muito importante também. E claro, tem o básico da profissão, que é leitura e principalmente o texto, que é tudo em nossa vida” – afirmou.

Quando perguntei sobre os desafios na reportagem, Rodrigo falou sobre a sensibilidade durante uma cobertura, pois sempre se denominou como uma pessoa não muito adepta às tragédias e dentro da profissão ele viu que era necessário estar a um passo à frente, era preciso ver o acontecimento e perguntar.

“Você precisa se envolver, e isso muitas vezes significa ter que perguntar a alguém que está chorando a morte de um parente ou amigo em um acidente, por exemplo, até hoje isso é muito delicado, mas no começo foi ainda mais difícil para mim” - revelou.

Quais foram as coberturas mais marcantes para você?

“Toda cobertura tem sua importância, mas marcante e que me vem fácil a cabeça é a primeira, que foi a do deslizamento em Angra dos Reis e Ilha Grande, porque eu era recém-formado e foi algo intenso, ao vivo e com muitas frentes de trabalho diferentes. A segunda foi minha primeira cobertura internacional sem dúvidas, que foi o resgate dos 33 mineiros no Chile, pois eu estava fora do meu ninho, era outra língua, outra cultura, mas tudo foi muito especial, porque era uma cobertura rara e era uma oportunidade incrível, com uma história surreal, em um lugar cinematográfico e que teve um final feliz. E depois veio a dos meninos na caverna da Tailândia, que teve um desfecho muito bonito também, com os olhos do mundo voltado para aquilo, em meio a uma copa do mundo e em um lugar com uma cultura totalmente diferente. Ou seja, ter participado daquilo foi muito incrível”

Em meio a esse contexto aproveitei para fazer uma pergunta curiosa, cujo a resposta iniciou- se com uma gargalhada do jornalista, isso porque questionei sobre os “perrengues” já vivenciados por ele durante algumas coberturas, e lá estava a resposta, na “ponta da língua” de Rodrigo.

“No Chile! Na cobertura dos mineiros com certeza. Eu lembro que quando finalmente anunciaram que o resgate iria acontecer as autoridades fecharam as estradas, nós estávamos hospedados em uma cidade a 40 minutos, então tivemos que dormir lá em um acampamento improvisado. Quem tinha barraca, dormia na barraca e quem não, dormia no carro que foi o nosso caso. Tivemos que dar o nosso jeito, agora imagina, a gente no meio do deserto do Atacama, com equipamentos e tendo que dormir em um carro, foi bem tenso” –recordou.

Segundo o jornalista, esse acontecimento veio para constatar que "perrengue" não acontece apenas com novatos, isso porque quando hospedado no acampamento e tendo que dormir no carro, se deparou com Caco Barcellos na mesma situação.

“Eu estava falando no telefone e quando olhei dentro de um veículo eu vi ele deitado, todo torto na tentativa de se acomodar....  Bom, é claro que essa não é uma tentativa de romantizar a situação, mas é a constatação de que em grandes coberturas todo profissional está sujeito a isso, você trabalha muito, dorme pouco e não consegue comer direito e isso faz parte do ofício da reportagem” - acrescentou.

Quais países que mais te chamaram a atenção durante uma cobertura?

De acordo com o jornalista, trabalhar como correspondente lhe rendeu muitos destinos, entre eles Itália, Sérvia, Rússia, Espanha, Tailândia, Suécia, Holanda, França e Irlanda.

“Eu viajei muito e esses foram alguns dos destinos que consegui me recordar enquanto converso com você, mas os que me chamaram a atenção mesmo foram Rússia e Tailândia, por conta da cultura que é muito diferente e isso te deixa com os olhos brilhando, e quando você vai a trabalho é muita história para contar e são países muito visuais porque tudo é muito bonito”.

Segundo Rodrigo, a viagem para Tailândia era algo que já estava em seu roteiro de férias há muito tempo, entretanto, sua ida foi marcada pelo incidente dos meninos da caverna, uma cobertura que lhe rendeu um livro. Isso porque as 12 crianças ficaram desaparecidas por 9 dias e o resgate ocorreu 15 dias após o desaparecimento das vítimas.

“Foi uma cobertura muito grande e muito cansativa, mas a sensação de ter feito parte daquele momento foi muito especial, porque no Brasil as pessoas estavam muito conectadas àquilo e estava rolando uma copa do mundo.  Tinha só dois repórteres ali, eu e o Rodrigo Alvarez e as pessoas sabiam das informações através de nós. Ser esse meio campo entre o interesse imenso das pessoas e o fato em si é muito especial, porque tinha muita coisa para falar e as pessoas queriam saber absolutamente tudo. É nessa hora que você sente a essência da profissão” - contou extasiado.

Para finalizar a entrevista perguntei para Rodrigo se dentro do jornalismo existia alguma experiência ou desafio que ele ainda desejava vivenciar e mais uma vez a risada veio antes da resposta.

“Essa pergunta é ótima e eu não tenho uma resposta para ela (risos). Por sorte, eu me sinto privilegiado em poder te responder que hoje não tem nada que eu queira muito fazer. Ao longo desse tempo, muitas coisas legais aconteceram, ou seja, não é que eu não queira viver mais nada, mas é como se não faltasse algo, eu só quero continuar fazendo isso, crescendo e amadurecendo na profissão, e essa pergunta foi muito boa porque eu pude constatar isso aqui agora com você” - finalizou. 

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