‘São’ vários os fatores que estimulam o desmame precoce e, ao contrário do que a maioria pensa, amamentação não é instintiva e precisa ser aprendida. Confira entrevista com a especialista em aleitamento materno e doula, a odontopediatra funcional e maternoinfantil Andréia Stankiewicz.
Qual o principal erro das mães?
O erro nunca é das mães, embora muitas vezes elas carreguem, sozinhas, essa culpa. Contudo, o aleitamento materno representa um complexo processo biopsicossocial, um híbrido entre natureza e cultura, de forma que toda a sociedade é responsável pelos resultados. As crenças e costumes da época, a indústria e o marketing de produtos para lactentes, as falhas na formação dos profissionais de saúde, as limitadas legislações trabalhistas de proteção à maternidade, a desigualdade de gênero, o estresse e imediatismo da vida contemporânea e o abandono à cultura de amamentação são alguns importantes fatores que determinam as altas taxas de desmame precoce; e tudo isso vai muito além do simples desejo ou empenho da mulher em amamentar. A amamentação não é instintiva, como muitas vezes se imagina. Ela precisa ser aprendida, e para tanto requer um contexto social favorável. Por isso, o tema da Semana Mundial da Amamentação deste ano é tão importante: “Empoderar as famílias para permitir a amamentação”. Leia mais em Araçatuba lança campanha Agosto Dourado nesta quinta-feira
Existem técnicas para uma pega correta?
A produção de leite materno depende do esvaziamento da mama. Por isso, é fundamental que o bebê esteja bem posicionado e faça uma pega adequada para conseguir extrair efetivamente o leite do peito, durante a sucção, em livre demanda. Assim como a mãe precisa aprender a amamentar, também o bebê, aos poucos, vai aprendendo a mamar. E para que esse processo aconteça de forma mais favorável, é muito importante o contato íntimo e precoce entre mãe e bebê, o quanto antes após o parto. Já foi comprovado que amamentar na primeira hora favorece o estabelecimento da amamentação e prolonga o tempo de duração total do aleitamento materno. A oferta de chupetas e mamadeiras, bem como a introdução de fórmula sem indicação médica ou outros líquidos, também atrapalham as mamadas e a produção de leite. Na pega correta, o bebê abre uma grande boca, encosta o queixo na mama, leva a língua pra fora, abocanha grande parte da aréola e faz uma boca de "peixinho", com os lábios bem virados para fora. A sucção não faz estalos e nem dói. Se o peito está machucado, é sinal que precisa corrigir a pega.
Usar a mamadeira porque o bebê não consegue mamar atrapalha?
A mamadeira atrapalha muito a amamentação e representa uma das principais causas de desmame precoce. Qualquer tipo de bico artificial, na verdade, provoca "confusão de bicos", ou seja, o bebê desaprende a mamar no peito porque os movimentos requeridos são diferentes da amamentação natural. No peito, por exemplo, a língua vai pra fora e traz o bico do peito pra dentro. Na mamadeira acontece o contrário, a língua joga o bico do peito pra fora e se mantém retroposturada, alterando seus movimentos ondulatórios, posicionando-se de forma invertida dentro da cavidade bucal, com o dorso elevado para tentar se proteger do fluxo aumentado e dos engasgos. Toda a mecânica motora oral se altera e o bebê passa a apresentar disfunções, que, ao longo do tempo, acabam modificando o desenvolvimento das estruturas moles e duras da boca e da face. Além disso, o leite artificial acaba ocupando um espaço no estômago do bebê, fazendo com que ele mame menos no peito, o que acaba por diminuir a produção de leite materno. Quando necessário, de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde, o complemento deve ser oferecido por meio de copinhos ou sondas, enquanto se realiza o manejo clínico da amamentação.
O que seria esse empoderamento familiar para a amamentação?
O leite materno é o alimento natural para os bebês, perfeitamente adaptado ao seu metabolismo e que provê um crescimento ótimo. A grande maioria das mães é perfeitamente capaz de nutrir seu filho por meio da amamentação. O leite materno é forte, suficiente e é tudo que o bebê precisa no início da vida para se desenvolver com saúde, em todo seu potencial. O aleitamento materno é indicado de forma exclusiva durante os primeiros seis meses e continuado até pelo menos os dois anos, sem limite para suspender, cabendo apenas à dupla mãe e bebê esta decisão. Tudo que as famílias precisam é aprender a confiar e fortalecer a prática da amamentação, com o apoio de toda a comunidade. É disso que se trata empoderar os pais e mães! É assim que construiremos um ambiente mais propício, mais favorável para a amamentação. E é assim que transformaremos a cultura para que cada vez mais as mães se sintam plenamente capazes de maternar e amamentar com prazer. Em caso de dificuldades, procure um banco de leite ou profissional amigo da amamentação.