Cotidiano

Amamentação prolongada: decisão que cabe apenas a mães e filhos

Mulheres que fizeram essa escolha garantem que não se incomodam com comentários e palpites

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
03/08/19 às 10h01
Flávia com a filha Júlia (Foto: Arquivo pessoal)

“Nossa! Ele vai mamar até quantos anos?”. “Ela não cabe mais no seu colo”. “O seu leite é fraco, não está sustentando”. “Precisa dar fórmula, pois está passando fome”. “Está fazendo seu peito de chupeta”.

Essas são algumas das frases que as mães que optam pela amamentação prolongada escutam com frequência. No entanto, as mulheres que fazem essa escolha garantem que não se incomodam com os comentários e seguem firme na decisão. Amamentação até qual idade? “Até a hora que ele (a) quiser”, respondem para a reportagem sem titubear.

A engenheira ambiental Flávia Lenise Vendrame, de 28 anos, de Piacatu, conta que a amamentação era a parte que mais temia desde a gravidez, pois sempre escutou que era dolorido, que sangrava, etc.

“Eu tinha muito medo de passar por isso e, infelizmente, eu tive muitos problemas. Até os dois meses de idade eu acredito que minha filha passou um pouquinho de fome, porque a amamentação não é instintiva, é um aprendizado. A mãe tem que querer e tem que buscar ajuda com quem entende”, conta Flávia.

Nos primeiros dias de amamentação de Júlia, hoje com 2 anos e 2 meses de idade, Flávia diz que sofreu. Os seios sangravam e ela chorava para amamentar, enquanto a bebê chorava de fome. “Mesmo assim, no meu interior eu pensava que eu seria capaz”, lembra.

Houve resistência também dentro da família, com comparativos com outras mães que davam complemento para seus filhos.

Flávia relutou e procurou ajuda. Fez sessões com laser para cicatrização dos mamilos e uma especialista em amamentação a ajudou com a pega correta. “Foram dois meses muito difíceis.”

Passado esse período, a amamentação passou a fluir, com perfeita harmonia entre mãe e filha. “Quando eu consegui, decidi que iria continuar a amamentar o tempo que ela quisesse, até porque os benefícios são inúmeros”, conta Flávia.

No momento, Flávia não está trabalhando fora e a amamentação é em livre demanda, ou seja, a hora que a filha quer. “Percebo que o peito não é apenas pelo leite, acho que o peito dá mais segurança, é afeto. Às vezes ela me chama e pede: “mamãe, quero um chameguinho”. Então, ela quer é o aconchego entre eu e ela, e esse é um momento só nosso.” Júlia não aceita outro tipo de leite, só o materno.

Para Flávia, além da saúde proporcionada pelo leite materno, a amamentação prolongada pode fazer diferença no comportamento da criança. “Sinto minha filha mais esperta, mais ativa e mais segura. Ela é desenvolvida e desinibida quando comparada com outras crianças da mesma idade e que não foram amamentadas ou que mamaram por um curto período”, analisa.

Nada de fórmulas

Davi, com 3 anos de idade, também nunca provou qualquer tipo de fórmula infantil. No entanto, dificilmente dorme sem a tradicional mamada no peito.

“Foi tudo muito natural. Eu nunca sonhei em amamentar tanto tempo, pelo contrário, eu era bem tranquila em relação a isso. Quando eu estava grávida eu até pensava que se eu não conseguisse amamentar, não teria problema. Foi algo natural e abençoado. Sabe quando flui? Flui até hoje, inclusive”, conta a jornalista Mariana Valereto Nicoletti, 36 anos, de Araçatuba.

Quando nasceu, Davi precisou ficar na UTI neonatal e não foi amamentado no peito. No entanto, todos os dias Mariana tirava leite para que ele recebesse o alimento pela sonda.

Mariana tem apoio do marido Fabrício Otoboni na amamentação do Davi (Foto: Arquivo pessoal)

Ela acredita que isso fez sua produção de leite aumentar, o que permitiu a amamentação exclusiva até o sexto mês de Davi. “Quando acabou a licença maternidade e eu tive que voltar a trabalhar, eu tirava o leite e congelava para que ele tomasse o meu leite”, conta.

Atualmente Davi come todo tipo de alimento durante o dia e as mamadas ocorrem no período noturno, na hora de dormir. “Ele vai para a escola e eu trabalho. Quando eu chego em casa, eu percebo que há aquele momento da saudade, da procura, mas é para dormir que ele mama de verdade. Ele esvazia os dois peitos e eu ainda tenho muito leite”.

Vacina

Além do apoio do marido, Mariana é incentivada pelo pediatra de Davi. “O médico fala que é uma vacina natural. E eu tenho certeza que isso fez toda a diferença no processo de imunidade dele.”

A preocupação com a hora de parar não existe. “Tem muito preconceito, até dentro da família. Já ouvi de tudo, mas eu nem ligo, levo na esportiva e digo que quem decide é ele. E eu percebo que cada vez reduz mais (as mamadas). Às vezes ele mesmo fala que já está grandão. Então, acho que o desmame será natural”, acredita.

'Alimento mais completo do mundo'

“O leite materno é o alimento mais completo do mundo. Diminui a mortalidade infantil, evita infecções respiratórias, diarreias, diminui o risco de alergias, doenças crônicas e obesidade”, destaca Aline Cardoso Longo Cazerta, de 28 anos, de Araçatuba, que é formada em nutrição e estudante de pedagogia.

De acordo Aline, o leite materno é tudo o que o bebê precisa até os 6 meses de idade, continua sendo o principal alimento até os 12 meses e, mesmo após, continua rico em nutrientes, energia e vitaminas, além dos anticorpos e a conexão e carinho do colo de mãe.

No segundo ano de vida, o leite permanece fornecendo 30% da necessidade calórica, 40% da necessidade de proteínas e 95% da necessidade de vitamina C. “Ele nunca deixa de ser perfeito e rico, nunca vira água, além de trazer benefícios para saúde em longo prazo, como a prevenção de doenças na vida adulta. Também traz benefícios para a mãe, como diminuir o risco de desenvolver câncer de mama em 4,3% para cada ano que a mãe amamenta.”

Além da formação na área da saúde, Aline é mãe de João Henrique que, aos 2 anos de idade, mama “quando quer e quanto quer”.

"Um bebê maior comendo fast-food, industrializados, refrigerantes e doces incomoda menos que um bebê que mama no seio da mãe", diz Aline Cazerta (Foto: Michelle Marin)

Hematomas

O início não foi fácil. Desde a primeira mamada, João Henrique sugava com vigor, o que acabou causando hematomas nos seios de Aline. A correção da pega foi feita com ajuda de doulas e consultoras em amamentação, e a cicatrização dos mamilos teve ajuda da laserterapia.

“Foram seis meses de aleitamento materno exclusivo e em livre demanda. Não posso negar que é exaustivo e que ouvimos de tudo de outras pessoas (leite fraco, não está sustentando, dá uma chupeta, está fazendo seu seio de chupeta, está ficando mimado, está te manipulando pra ficar no colo), porém permaneci firme, pois mesmo antes de pensar em ter filhos o aleitamento exclusivo em livre demanda era meu objetivo”.

Aline rechaça o preconceito em relação à amamentação prolongada. “As pessoas se incomodam, acham um absurdo uma criança grande mamando. Tanto dentro como fora da família existem olhares e comentários de julgamento quando amamentamos. Já ouvi muitos. Um bebê maior comendo fast-food, industrializados, refrigerantes e doces incomoda menos que um bebê que mama no seio da mãe”, compara.

Sem remédios

João Henrique é uma criança extremamente ativa, saudável e inteligente, segundo a mãe. As raras vezes em que ficou doente, nunca tomou remédios, e mesmo não aceitando comida, continuava mamando bem, o que ajudava na recuperação rápida.

Assim como Flávia e Mariana, Aline não pensa em desmame. “E ele menos ainda”, ressalta. “Nunca estipulei um prazo para o aleitamento, sei que o leite materno é o alimento mais rico e completo do mundo e que peito não é só alimento, é conexão, amor, carinho”, finaliza.

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