Cotidiano

Após polêmica, mural com imagem de Marielle Franco em escola pode ser apagado

Trabalho foi concluído recentemente por artistas locais no muro da escola estadual Vitor Antônio Trindade, o Industrial, em Araçatuba

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
20/08/21 às 17h50
(Foto: Divulgação)

Matéria editada às 18h24*

Um trabalho feito por artistas locais no muro da escola estadual Vitor Antônio Trindade, o Industrial, em Araçatuba (SP), está gerando polêmica. A arte, conhecida como muralismo, traz as imagens da ex-vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em 2018, e do educador e filósofo brasileiro Paulo Freire. 

Além das ilustrações, o mural traz frases como “Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante” e “Se a educação sozinha transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”, atribuídas a Paulo Freire, e “Quiseram nos enterrar não sabiam que éramos sementes”. 

Pelas redes sociais, e também pelo e-mail da redação do Hojemais Araçatuba , houve manifestações de pessoas, inclusive grupos ligados a partidos de extrema-direita, contrários ao mural, afirmando que se trata de doutrinação e mensagens ideológicas, promovendo manifestos de cunho político entre os estudantes. 

A reportagem apurou que também houve reclamação na Diretoria de Ensino sobre a direção da escola e que a maior parte dos reclamantes é da comunidade fora do âmbito escolar. Devido à polêmica, a informação extra-oficial é de que houve reunião entre os membros do conselho da escola, que haviam autorizado o trabalho antes dele ser feito, e que os mesmos optaram em retirar Marielle do mural, o que deve acontecer na próxima semana. 

Autonomia

A reportagem enviou questionamentos sobre o assunto para a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, que se manifestou por meio de nota, afirmando que a pintura partiu da própria comunidade escolar e que a escola tem autonomia para realizar esse tipo de atividade artística. 

“A Secretaria da Educação de São Paulo (SEDUC-SP) esclarece que a decisão pela pintura dos murais na Escola Estadual Vítor Antônio Trindade partiu da própria Comunidade Escolar e foi discutida em reunião de conselho. A Pasta dá autonomia às unidades escolares para que realizem esse tipo de atividade artística nos muros das escolas”, disse em nota. 

Diversidade

A ideia do mural foi conselho e a execução foi da artista R13, que fez as ilustrações em conjunto com o artista MauroSoh. Procurada pela reportagem, ela afirmou que está sendo doloroso ver os ataques que o mural vem recebendo e que irá ressignificar a obra, retirando a imagem da ex-vereadora, porém mantendo o seu nome. 

A artista também expressou sua vontade de ver a população interferir de alguma maneira para que não precise fazer tal alteração. 

“Gostaria de reiterar que a imagem da Marielle não tem cunho partidário nenhum, até porque ela foi assassinada, está morta, infelizmente. Não faz parte de nenhum partido mais. O que a gente quis representar é a diversidade, que as lutas que ela travava também dizem respeito a muitos dos alunos da escola pública: meninas negras, pobres, periféricas, lésbicas, gays. Aquela imagem é representativa para as crianças, que elas se sintam acolhidas. Em nenhum momento pensei em cunho partidário”. 

(Foto: Divulgação)

Repúdio

A reportagem também procurou o Psol (Partido Socialismo e Liberdade) de Araçatuba, partido de Marielle na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. 

Em nota, o Psol de Araçatuba afirma que não participou da construção do mural e que tomaram ciência da homenagem feita à ex-vereadora por meio das redes sociais. No texto, também manifestou perplexidade diante dos ataques que o trabalho está sofrendo. 

“Nosso repúdio se faz necessário após diversos ataques vindos de grupos reacionários que insistem em atacar a imagem de Marielle e associam a homenagem há uma suposta politização da escola, defendendo inclusive a censura, através da remoção por meio de uma nova pintura no muro. (...) entendemos que o ataque ao mural é uma ação de cunho machista, racista e extremamente desconexa da realidade de Araçatuba, pois temos várias ruas da nossa cidade homenageando ditadores, escravocratas, matadores de indígenas e outros diversos opressores que nunca na história de nossa cidade houve qualquer reação a tais homenagens por parte desses grupos.”

*Matéria editada para alterar informação sobre a data da mudança no mural e sobre de quem foi a ideia do mural. 

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