Cotidiano

Budismo em Araçatuba mantém tradição há mais de 60 anos

Segundo Censo do IBGE, município ocupava a 19ª colocação no ranking estadual no número de budistas

Manu Zambon  - Hojemais Aeraçatuba 
19/10/19 às 09h00
Em Araçatuba, os templos Honpa Hongwanji da Noroeste e Nambei Honganji são frequentados por famílias mais tradicionais (Foto: Manu Zambon)

O budismo chegou ao Brasil junto com os primeiros imigrantes japoneses, há 111 anos. No mesmo ano, com diferença de poucos meses, o município de Araçatuba era fundado. Na cidade, os primeiros japoneses chegaram em 1917, trazendo, além da cultura e força de trabalho, o budismo, também difundido por imigrantes estabelecidos em Promissão e Bilac.

Coincidências à parte, segundo o último Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgado em 2010, Araçatuba ocupava a 19ª colocação no ranking estadual no número de budistas. Naquela época, a pesquisa computou 1.046 pessoas adeptas à religião da Ásia.

Está à frente, por exemplo, de São José do Rio Preto, Bauru e Presidente Prudente, que são cidades maiores que Araçatuba.

Mas não para por aí. No mesmo estudo, o município ficou em 33º lugar no número de budistas em todo País. Neste final de semana, a região ainda ganha destaca com a vinda da monja Coen Rôshi, da tradição zen-budista, em evento pela 6ª edição do Flibi (Festival de Literatura de Birigui). O encontro será neste sábado (19), às 19h30, no Sesc Birigui, e é aberto ao público.

Em Araçatuba, os dois templos são da ordem Shin, ou Budismo da Terra Pura, em japonês, pertencente à vertente Mahayana (Grande Veículo). O templo Honpa Hongwanji da Noroeste, fica na rua Fernando Costa, no bairro Higienópolis (cuja a frente está posicionada estrategicamente para o nascer do sol), e o Nambei Honganji, na Santo Dumont, também no mesmo bairro (no entanto, disposto para o poente do sol).

Mesmo os dois sendo da escola Shin, suas matrizes são diferentes no Japão e também possuem características particulares em seus ritos.

Interesse

De acordo com o presidente da diretoria executiva do Honpa Hongwanji no biênio 2019/2020, Carlos Kasuo Mada, de Araçatuba, os brasileiros têm apresentado bastante interesse pelo budismo, no entanto a comunicação é uma barreira. Mada é membro do templo desde 1997, após se casar com uma mulher, que vem de uma família tradicional budista.

“Sempre recebemos mensagens de pessoas querendo saber sobre o budismo. Tem tido procura, mas o problema é a língua japonesa, porque as leituras são em japonês”, conta.
Nesse contexto, as leituras são dos sutras, ensinamentos que vieram de Buda (Xaquiamuni Buda) e foram transmitidos por mestres do budismo. Esses sutras são recitados, ou entoados, durantes as celebrações, e alguns são musicados. Segundo Mada, alguns desses textos já começaram a ser traduzidos para o português, no entanto, nos ritos, o idioma japonês é mantido.

Madeiramento utilizado no templo Honpa Hongwanji foi doado por um adepto morador de Bilac (Foto: Manu Zambon)

Madeira

O Honpa Hongwanji é o mais antigo, sendo o primeiro da região. Sua fundação é de 1951. Atualmente, são 250 famílias cadastradas no templo. Mada ainda destaca um detalhe interessante: o templo foi construído num terreno próprio pelos adeptos budistas de Bilac. Em vez de construírem o templo no município, escolheram uma cidade maior.

Todo o projeto foi desenvolvido no Japão e a madeira usada no templo foi doada por um praticante, morador de Bilac, que tinha uma propriedade rural.

Monjas

Atualmente, a responsável pelo templo é a monja Koun Kubo, de 50 anos, que veio do Japão há quatro anos. Morou em São Paulo e há cerca de 7 meses é reverenda em Araçatuba. Apesar da dificuldade com a língua portuguesa, tem gostado de morar na cidade, mesmo com o calor, brinca Koun.

Já a missionária Emilia Emy Urabe Kajimoto nasceu no Brasil e mora em Araçatuba. Seu pai foi monge e sua mãe a primeira mulher no Brasil a ser ordenada, em 1966. Emilia é monja da tradição Shin e atua no Templo Higashi Honganji Brasil Betsuin, de São Paulo, matriz do Nambei Honganji.


O templo Nambei Honganji recebe praticantes em um dia de cerimônia (Foto: Shu Izuhara/Arquivo Pessoal)

Tradição

De acordo com ela, o budismo no município é praticado pelas famílias tradicionais. Segundo a religiosa, tanto Araçatuba como toda região noroeste, junto com a região mogiana do Estado, foram os primeiros a receberem imigrantes japoneses.

“Talvez, seja por isso que tenha um número grande de fiéis, interessados. De qualquer forma, os frequentadores do templo são por tradição familiar”, detalha Emilia, que é a primeira mulher nissei (filha de imigrantes japoneses) a ter mestrado na escola Shin no País. No templo, o monge residente, Tohru Shimizu, de 49 anos, explica que são cerca de 150 famílias cadastradas.

Emilia e o monge também contam que houve um afastamento dos japoneses da quarta e quinta geração e que os mesmos estão optando por outras religiões, como o cristianismo.

“Em busca do ensinamento do budismo, houve um afastamento dos nikkeis (imigrantes japoneses) e uma procura dos brasileiros. Estamos passando por um momento de transição. Do budismo de tradição para um budismo de conhecimento, talvez”, diz Emilia.

O templo Nambei Honganji foi inaugurado em 1954 e atende praticantes de outras cidades, como Birigui, Guaraçaí, Pereira Barreto e Jales. O monge Shimizu também é responsável por Campo Grande (MS).

Portas abertas

Ambos os templos, o Honpa Hongwanji e Nambei Honganji, estão de portas abertas a todos os interessados em assistir e participar dos ritos.

No primeiro, as celebrações são realizadas todas as manhãs, às 7h30, e uma vez por mês tem os ritos maiores, além das “missas” fúnebres”. Já no Nambei Honganji, os ritos matinais têm início às 7h. Os dois também realizam eventos com venda de yakisoba e outros quitutes, para angariar verba para a manutenção dos templos.


Arquitetura do templo Nambei Honganji traz referências hindus e japonesas (Foto: Manu Zambon)
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