Quem me vir correndo pela cidade, saiba que carrego no peito a vitória de provar a mim mesmo que posso praticar um esporte. Sim, durante muito tempo e principalmente na infância, me senti um “estranho” nas aulas de educação física. Isso porque, sendo menino, não jogava futebol (clássica e, geralmente, única modalidade
masculina oferecida na escola onde estudei).
As poucas experiências esportivas, já adulto, têm sido ricas não só pelos efeitos físicos, mas principalmente psicológicos. A corrida na rua, por exemplo, me ensina uma lição a cada dia. Sobre o quanto devo respeitar a minha história. Ter noção de meus limites. Manter a serenidade em momentos difíceis. Dar valor às pequenas conquistas.
Às vezes temos um caminho planejado, mas a vida exige pequenas mudanças de rumo. É um carro que surge na esquina e você precisa seguir um pouco mais adiante, esperar ele passar, para só depois voltar ao trajeto inicialmente traçado. De repente, surge uma subida e parece que você não vai conseguir completá-la. Nesta hora, procuro não pensar em todo o caminho que ainda preciso percorrer. Foco em cada passo dado e não olho lá adiante. Centro forças naquele momento a ser superado e sigo. Só quando percebo que a dificuldade passou, volto a pensar no quanto ainda falta para a reta final.
Em outros momentos, passa alguém correndo muito mais rápido que eu. Não adianta querer forçar. Tentar acompanhar ou superar. Há de se ter a humildade de reconhecer até onde podemos ir. Exceder pode trazer consequências ruins. E é bom demais tomar consciência de si mesmo.
Que pena eu não ter sido respeitado em minha diferença e podido aprender tais lições quando criança. Mas que ótimo eu estar vivendo isso justamente agora.
Começo hoje neste espaço, com a proposta de discutir assuntos ligados à diversidade. Não de modo fechado, que se restrinja a determinados temas a ela geralmente relacionados, mas da maneira mais ampla possível vivenciada nos vários aspectos da psiquê humana.
Entendo que para respeitar a diversidade e lutar contra a intolerância, precisamos nos conhecer melhor. Somente assim haverá condições de sairmos de nós mesmos ao encontro dos outros. Contra a intolerância frente ao “estranho”, podemos nos perguntar: O que temos em comum?