Cotidiano

Dentistas em hospitais: projeto é um dos primeiros no interior de SP

Vereadores de Araçatuba (SP) aprovaram lei que torna obrigatória a presença de dentistas em hospitais

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
31/03/19 às 13h00
Principal foco da proposta é eliminar a situação de risco iminente de mortes (Foto: Angelo Cardoso/Câmara de Araçatuba)

Um serviço que já é uma realidade em cidades, como São Paulo e Brasília (SP), está em processo de implantação em Araçatuba (SP).

Antes mesmo da aprovação de lei federal sobre o assunto, Araçatuba tornou obrigatória, por meio de lei municipal, a prestação de assistência odontológica a pacientes internados em unidades hospitalares do município. Os cuidados com a saúde bucal e ações de prevenção, higiene e tratamento, quando necessário, também são estendidos a pacientes atendidos em regime domiciliar, na modalidade “home care”.

Conforme o projeto, aprovado em 11 de março pelos vereadores, as unidades hospitalares particulares deverão contar com cirurgião-dentista em seu quadro de pessoal, a fim de prestar os serviços de cuidado da saúde bucal dos pacientes.

“Nas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva), fica assegurada a presença de cirurgião-dentista como parte do corpo clínico, cabendo a ele, com exclusividade, o atendimento ao paciente ali internado”, diz o texto.

Essa determinação, segundo a justificativa do projeto, é realidade há muito tempo em vários países. No Brasil, projeto para tornar a presença do profissional obrigatória passou pela Câmara, porém está parado no Senado. Algumas cidades já se anteciparam, como Araçatuba e Santos, e legislaram a respeito do tema.

Mortes

O principal foco da proposta é eliminar a situação de risco iminente de mortes e aprimorar os cuidados prestados a quem está internado em hospitais. “A falta desse profissional em UTIs tem contribuído, e muito, para o aumento de mortes em todo o País”, diz o texto de justificativa do projeto.

De acordo com o delegado seccional do CRO-SP(Conselho Regional de Odontologia de São Paulo) em Araçatuba, o cirurgião-dentista Celso Antunes Machado, a presença do dentista em hospitais pode reduzir até o número de dias de internação de um paciente em leito de UTI.

"A boca tem a maior quantidade de flora bacteriana do corpo e quando o dentista faz o acompanhamento de um paciente, até para cirurgias eletivas, com atendimento pré e pós-cirúrgico, o risco de complicações reduz", afirma Machado, lembrando que vários problemas de saúde podem ter origem na boca, como as doenças cardíacas.

Pneumonia

No caso de pacientes que passam vários dias internados em UTI, o cuidado deve ser ainda maior. "Quando o paciente é entubado e não se analisa os problemas da boca, como higienização, cáries ou problemas periodontais, o próprio tubo leva bactérias para dentro do corpo. Por isso não é difícil ver casos de pacientes que vão para a UTI para uma cirurgia de fratura, por exemplo, e acabam morrendo de pneumonia", citou.

Essa pneumonia é chamada de nosocomial ou associada à ventilação mecânica. É uma das principais causas do aumento no tempo de internação do paciente, uso de medicamentos e até de óbito nas UTIs.

A cirurgiã-dentista Andréia Stankiewicz, que tem habilitação em odontologia hospitalar e participou da elaboração do projeto, reforça que os medicamentos utilizados no hospital alteram a salivação e a flora bucal, e isso torna as bactérias da boca mais nocivas e agressivas.

Segundo Andréia, hospitais que instituíram o tratamento preventivos com dentistas nas UTIs conseguiram até zerar os casos de pneumonia nosocomial. “Ou seja, é uma atuação relativamente simples, mas de alto impacto.”

O custo de materiais por paciente não chega a R$ 3,00, afirma a cirurgiã-dentista. O maior investimento é a mão de obra, pois é preciso que o profissional tenha capacitação específica (cirurgião-dentista-intensivista).

 

"É uma atuação

relativamente simples,

mas de alto impacto"

Por outro lado, além da redução do tempo de internação do paciente e uso de medicamentos, por exemplo, o hospital que tem o profissional na equipe, segundo Machado, eleva o padrão de classificação/selos de qualidade.

Hospitais

A Unimed Araçatuba afirma que, desde 2007, o hospital conta com três cirurgiões bucomaxilofacial (dentistas). Neste mês, teve início um projeto interdisciplinar para a inclusão do profissional de odontologia na UTI e o tratamento de mucosite nos pacientes da oncologia. “Para isso, o hospital está fechando uma parceria. Nesse momento, estamos desenvolvendo o escopo do projeto para a aprovação”, informou.

Para a unidade hospitalar, a medida aprovada pela Câmara assegura a satisfação do cliente a partir do atendimento humanizado e de excelência.

Embora não esteja incluída na lei aprovada, por ser entidade filantrópica, a Santa Casa de Araçatuba informa que possui estrutura que possibilita intervenção de um profissional de odontologia em intercorrências clínicas registradas em pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva e Semi-intensiva.

“Antecipando a obrigatoriedade, a direção da Santa Casa está em tratativas com a FOA (Faculdade de Odontologia), da Unesp de Araçatuba, para um formato de estágio, por meio do qual, pós-graduandos em odontologia realizem atendimento a pacientes internados”, adiantou em nota enviada pela assessoria de imprensa.

Discussão

Machado foi quem começou a discussão do projeto em Araçatuba, depois de receber informações de um colega que tomou a iniciativa em Santos. Ele, então, procurou a vereadora Beatriz Nogueira (Rede) e depois reuniu as entidades de classe e profissionais que trabalham na área.

Uma palestra sobre o assunto foi ministrada na Câmara, em fevereiro, para mostrar a importância do projeto para a comunidade. Logo depois, a propositura, que acabou assinada por todos os vereadores da Casa, foi para a votação. A lei foi sancionada pelo prefeito Dilador Borges (PSDB) neste sábado (30), com prazo de 180 dias para entrar em vigor.

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