Cotidiano

“Fui vítima de um erro da saúde pública (...) sei o que ela necessita”

É o que garante o presidente eleito do Conselho Municipal da Saúde de Araçatuba, Thiago Henrique Braz Mendes

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
08/02/19 às 15h15
Thiago Henrique Braz Mendes, 35 anos (Foto: Manu Zambon)

Vítima de um erro da saúde pública, em 2009, Thiago Henrique Braz Mendes, 35 anos, foi eleito presidente do Comus (Conselho Municipal de Saúde) para o triênio 2019-2021. A experiência pessoal fez com que ele mudasse alguns pensamentos, principalmente valores. “Passei a ver o mundo de outra forma”, conta.

Após ficar mais de 80 dias em UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), vítima da H1N1, deu novo rumo à sua carreira de advogado, dedicando-se à área de gestão pública, onde é especialista. Atualmente é assessor executivo da Secretaria Municipal de Governo, porém garante que não deixará de ouvir a população e cobrar ações do poder público.

Também planeja modificar a legislação do conselho, para deixar mais acessível aos usuários, aumentar a participação da sociedade, e aproximar a população da gestão pública. Confira abaixo alguns trechos da entrevista concedida ao Hojemais Araçatuba nesta semana.

Candidatura

Eu já participava do conselho da saúde e era presidente do Conselho da Assistência Social. No dia da posse dos conselheiros é feita eleição da mesa diretora. Eu me candidatei e fui eleito, porque eu entendo que poderei fazer na saúde o trabalho que eu fiz na assistência, que foi de unificação, de aproximar as pessoas da administração pública e tentar, em vez de só ficar analisando papel, ir no local e verificar o que a entidade está precisando.

Atendimento

Conversando com os conselheiros, de modo geral, entendi que temos um problema muito grave na saúde, que é na atenção básica, nas consultas em UBSs (Unidades Básicas de Saúde), e isso reflete justamente no pronto-socorro. Demora o atendimento na UBS e a população vai para o PS. Uma das minhas propostas é justamente organizar a parte da estrutura do conselho, com as comissões, e depois ir a fundo no problema, ir nas UBSs e fazer um relatório, conversar com funcionários, com a OS (Organização Social) que presta o serviço, e tentar entender porque está demorando mais de 30 dias para se marcar uma consulta, um ano para passar por um oftalmologista.

Espera

Quando alguém está com um problema, ele não chega feliz numa unidade de saúde, porque ninguém gosta de sentir dor. Aí ele é mal recepcionado pelo profissional e a coisa aumenta. Temos dados da Secretaria de Saúde que mostram que 80% dos casos do pronto-socorro não de urgência, seriam casos de UBS, mas ninguém vai ficar um mês esperando para passar por um clínico. Falta informação ao paciente, porque no PS há uma classificação de risco. Então, se não é caso de pronto-atendimento, a pessoa vai esperar; quem tem mais risco é atendido primeiro.

Crianças

Hoje estamos com um problema grave na rede pública que é falta de pediatra. Como no PS há um pediatra 24 horas, as mães vão todas pra lá. Hoje não temos pediatra nem na rede particular direito.

UPAs

Duas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) foram construídas, mas para manter uma UPA aberta é preciso R$ 1,3 milhão por mês, fora os equipamentos. O município está tentando transformá-las em UBSs e oferecer o atendimento espontâneo, ou seja, reservar 20% para UBS e o restante deixar para atendimento espontâneo, onde a pessoa é atendida na hora que chega e estender o horário. Só que isso demanda recursos e hoje o município não tem. Do orçamento de R$ 500 milhões, 90% é para manutenção, sobra muito pouco pra investir. Mesmo assim eu vou propor para o pleno fazermos um relatório e tentarmos colocar essas UPAs em operação.

"Precisaríamos de pelo menos mais duas UBSs para atendimento, uma no Água Branca e outra no Concórdia"

"Atuação do conselho é de três anos, mas vou apresentar um projeto de lei para modificar essa estrutura"

UBSs

Hoje temos 20 UBSs no município, para 200 mil habitantes. A principal demanda é na zona leste do município, no bairro Hilda Mandarino. A UBS do Umuarama, que fica ao lado da UPA, atende um grande número de habitantes - bairros Concórdia, Hilda Mandarino, Umuarama, Vicente Grosso, Pinheiros, João Batista Botelho, Água Branca 1 e 2, Vista Verde - que são bairros populosos e com uma população de baixa renda, que precisa de atendimento. Precisaríamos de pelo menos mais duas UBSs para atendimento, uma no Água Branca e outra no Concórdia, porque faria a divisão melhor. Transformando a UPA, trazendo mais equipes já conseguimos aliviar a situação. O conselho vai cobrar.

Transparência

Vou tentar criar ferramentas no conselho para transformar o acesso a informações mais fácil. Estamos avançando neste sentido. Araçatuba já tem dois projetos de lei aprovados neste sentido. No ano passado foi criada a obrigatoriedade de ter lista de medicamentos disponíveis no município no site da Prefeitura; outro projeto obriga a colocar a lista de espera por exames para a pessoa poder acompanhar. Então, está se criando mais formas de transparência.

OSs

Acredito que precisamos de uma atenção especial na atenção básica. Há informações até de casos de assédio moral, então temos que ficar atentos. Não estou aqui para defender o ex-prefeito, porque foi ele que iniciou o processo de terceirização, mas ele fez porque a lei de responsabilidade fiscal impedia de trazer novos servidores. O município não consegue contratar médico, porque nenhum está disposto a trabalhar por R$ 4 ou R$ 5 mil, aí tem que terceirizar. Hoje temos três OSs (Organizações Sociais) na saúde e uma na assistência social, mas há alguns serviços que eu vou tentar trazer de volta para o município. No futuro acho que será possível reavaliar isso.

Estrutura do conselho

Atuação do conselho é de três anos, mas vou apresentar um projeto de lei para modificar essa estrutura. Penso em reduzir o mandato para dois anos e tentar transformar o conselho em algo mais participativo. Também quero conscientizar as pessoas a participarem das políticas públicas, pois, às vezes, não é preciso ser membro, mas é importante participar saber o que está sendo discutido, propor ideias.

Doenças do verão

O conselho vai tentar propor situações de conscientização da população. A população precisa entender que não se pode jogar lixo na rua, uma coisa básica. Escorpião vai ter, porque ocupamos espaço que não deveríamos ocupar. Mas são questões de conscientização. Falando do lado do município agora, estamos fazendo um levantamento de todos os bens da Prefeitura para fazermos a limpeza dos imóveis para depois cobrar a população. Isso está em fase de inventário. O conselho terá papel dos dois lados: conscientização da população e de fiscalização com o poder público.

Comissionado

Não é porque eu ocupo cargo comissionado que eu não vou atuar, pois quem decide é o conselho, eu nem direito a voto tenho. Se o conselho falar que tem que cobrar o prefeito, eu vou cobrar. São 40 pessoas e eu só tenho que executar.

Experiência

Eu sou indignado. Eu posso dizer que fui vítima de um erro da saúde pública. Eu fui o segundo caso de gripe suína em Araçatuba, em 2009, durante o surto da doença, e eu demorei para ser diagnosticado. Quando deram o diagnóstico eu estava quase em óbito, pois estava sendo tratado como pneumonia e eu tinha gripe H1N1. Entrei na Santa Casa no dia 15 de julho, de lá fui transferido para São José do Rio Preto e só sai em 6 de outubro. Eu tive três infecções hospitalares fiquei 20 dias em coma e 82 dias na UTI. Isso, um mês depois deu passar na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Sai do hospital com sequelas, perdi movimentos, uma parte do pulmão, mas, ao mesmo tempo, passei a enxergar a vida de outra forma. Hoje eu posso afirmar que sei do que a política pública de saúde necessita e eu posso bater na porta do prefeito a hora que eu quiser.

Serviço

As reuniões do conselho ocorrem todas as segundas quartas-feiras do mês, às 18h, na Câmara de Araçatuba.

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