A imagem representando a ativista política e ex-vereadora carioca Marielle Franco, no muro da escola estadual Vítor Antônio Trindade, o Industrial, foi totalmente coberta, nesta quinta-feira (27), por uma tinta verde.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, questionando se o fato ocorreu com ou sem autorização da direção escolar. Por meio de nota, a pasta se manifestou, porém, sem dar detalhes.
"A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) informa que foi decidido em Conselho a ressignificação da obra, que foi iniciada nesta noite (quinta-feira), por ser o horário disponível por conta da demanda de trabalho".
Nesta quinta, o Estado havia se manifestado, destacando que a decisão da pintura dos murais da escola partiu da própria comunidade escolar e discutida em reunião do conselho da escola. De acordo com a secretaria, a escola tem autonomia para realizar esse tipo de trabalho.
Além de cobrir a imagem de Marielle, também apagaram a frase “Quiseram nos enterrar não sabiam que éramos sementes”, o nome Marielle Franco e elemento artístico que fazia parte do mural.
Na última reunião entre membros do conselho da escola, realizada na quarta-feira (26), foi definido que o mural passaria por uma ressignificação. Ou seja, seria alterado. O conselho é formado por 18 pessoas, entre pais, alunos e professores, sendo que 15 votaram a favor da ressignificação e três votaram para a cobertura total da imagem de Marielle Franco, assassinada em 2018, no Rio de Janeiro.
Sendo assim, o conselho teria cinco dias para definir a imagem que ressignificaria o mural, mas as ilustrações foram cobertas já no dia seguinte da votação.
A artista e professora Roberta Baroni, que assina o mural como R13, também foi procurada pela reportagem, mas até as 11h25, não havia se manifestado sobre o ocorrido.
Caso
O muralismo realizado pelos artista, com a participação de MauroSoh, foi finalizado há cerca de 12 dias e traz também ilustração do educador e filósofo Paulo Freire, além de frases atribuídas a ele.
Com a repercussão do mural pela cidade, as imagenns viraram alvo de polêmica na semana passada. Pessoas e grupos ligados a partidos de direita e extrema-direita se manifestaram contrários ao trabalho, usando as redes sociais para se posicionarem, procurando a imprensa e fazendo reclamações na Diretoria de Ensino da região de Araçatuba.
Na justificativa, acusam a escola de promover doutrinação política e ideológica entre os alunos.
Solidariedade
A Rede Emancipa Araçatuba, que promovia abaixo-assinado para a permanência da imagem no mural, emitiu nota manifestando solidariedade para com a comunidade escolar, em especial aos discentes e funcionários da instituição de ensino.
" A discussão acerca do mural, deixa uma lição a ser refletida e discutida: entendemos que os estudantes precisam participar de forma efetiva nas decisões das comunidades escolares, neste sentido, não vimos em nenhum momento manifestações da rede estadual que visasse tal caminho, é preciso emancipar nossos estudantes para que eles sejam os verdadeiros protagonistas na tomada de decisões, afinal a escola é feita para eles.
Novamente, saímos em defesa do legado de Marielle e reafirmamos que homenagear uma mulher negra, militante de democratização do acesso à educação, dos diretos da mulher periférica e pela justiça social está muito distante de se tratar de politização da instituição de ensino. A verdade é que na atualidade a inquisição se faz presente por outros métodos, o apagamento da história do nosso país, sobretudo de personalidades negras e periféricas, é um projeto constante.
Por fim, agradecemos as quase setecentas pessoas, de diversas cidades do país, que assinaram o abaixo assinado em defesa da permanência do mural, tendo em vista a liberdade artística, mas também pela importância histórica que Marielle possui em nosso país, vocês são esperança e sementes em tempos sombrios, e por falar em semente, saibam que as sementes dessa luta brotarão por toda Araçatuba. Marielle presente, hoje e sempre! "