Cotidiano

Mais um bebê tem grave lesão após parto induzido na Santa Casa de Birigui

Menina nasceu no dia 1º de maio com lesão no plexo braquial e pode perder movimento da mão e braço esquerdos se tratamento não for imediato

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
28/05/20 às 20h00

Um bebê teve uma grave lesão no plexo braquial após parto induzido realizado na Santa Casa de Birigui (SP). Assim como ocorreu no caso denunciado recentemente pela reportagem do Hojemais Araçatuba, os médicos não aceitaram o pedido de cesárea feito pela mãe, que estava com 41 semanas e seis dias de gestação sem nenhuma dilatação. A parturiente afirma que teve diversas hemorragias durante os trabalhos que duraram cerca de dez horas.

A mãe, que tem 30 anos e está desempregada, conta que fez o pré-natal na UBS1, na Vila Bandeirantes, onde mora. Mãe de outros dois filhos, de 9 e 10 anos, ela conta que teve uma gravidez tranquila e que o médico dizia que tinha tudo para que fosse um terceiro parto normal.

A última consulta na UBS foi no dia 16 de abril, pois o nascimento estava previsto para 19 de abril, quando completaria 39 semanas de gestação. Após a data, ela foi encaminhada para o Ambulatório de Saúde da Mulher, onde era acompanhada pelo exame de cardiotocografia, que verifica a frequência cardíaca fetal e contrações uterinas.

Ela foi encaminhada para internação na noite de 30 de abril, uma quinta-feira, quando já estava com 41 semanas e cinco dias de gestação. Sem nenhuma dilatação e sem contrações, o parto começou a ser induzido à 1h45 de sexta.

Dores

As dores das contrações começaram por volta das 4h e às 6h, a mulher foi encaminhada para a sala de pré-parto. Uma amiga dela ficou de acompanhante.

“Como eu comecei a fazer força para minha filha nascer, a bolsa estourou. As dores ficaram mais intensas e só aliviavam um pouco com banho quente, por isso eu fiquei muito tempo no banheiro. Mas teve uma hora que eu já não aguentava mais as dores, minhas vistas escureceram e eu comecei a ter hemorragia”, contou.  O processo era acompanhado por idas e vindas do médico plantonista.

“Minha amiga foi atrás do médico e quando ele entrou na sala, eu pedi para fazer cesárea, pois não aguentava mais. Eu estava fraca, mas ele disse que era normal e que eu aguentaria”, recorda. O trabalho não foi acompanhado por nenhuma enfermeira.

Ela teve mais sangramentos e só então foi levada para a sala de parto. No entanto, afirma que em vez de descer, a bebê subiu. “As contrações vinham a cada 40 segundos. Eu estava com oito dedos de dilatação e já não conseguia mais fazer força. A dor era insuportável e ela não nascia.”

O médico então passou a empurrar a barriga dela para acelerar a saída do bebê. “Nessa hora colocaram minha amiga para fora da sala. Ele subiu em cima de mim e enquanto ele empurrava, outra médica puxava minha filha, rosqueando, como se fosse um parafuso. As enfermeiras apareceram e me ajudaram a fazer força com os braços porque eu já não conseguia mais”, lembra.

A menina nasceu às 12h32, pesando 4,280 quilos e medindo 53 centímetros. A mãe ficou surpresa e afirma que em nenhum momento falaram para ela o tamanho da criança.

Após o nascimento, a parturiente teve nova hemorragia que, segundo ela, “lavou a cama”.

Exame mostra descolamento do braço com o ombro (Imagem: reprodução)

Lesões

Assim que a bebê nasceu, os médicos falaram que tinham notado um probleminha no braço da criança, que teria que passar pelo pediatra, mas que não era para a mãe se preocupar. Foi feito um raio X e o resultado foi uma lesão no plexo braquial do lado esquerdo. No exame é possível ver que o braço está descolado do ombro. (Imagem acima)

Além da lesão, a menina nasceu com dois coágulos de sangue dentro do olhinho que, segundo os médicos, foram resultado da força que ela fez para poder nascer.

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Tratamento precisa ser feito até os três meses de vida

Braço da criança não mexe e precisa ficar preso por um alfinete na roupa como na foto (Foto: Arquivo pessoal)

A grande preocupação da mãe agora é com o tratamento da filha. Ela conseguiu consulta com um pediatra da rede municipal de saúde que encaminhou a menina com urgência para sessões de fisioterapia.

No entanto, a bebê precisa passar por um neurologista e um ortopedista, o que a família ainda não conseguiu.

“Eu não sabia o grau do problema dela, só fiquei sabendo quando passei por essa consulta. A pediatra me disse que eu tenho três meses para fazer o tratamento dela ou ela pode não ter os movimentos da mãozinha e do braço. Eu estou desesperada”, disse à reportagem.

Plexo braquial

O plexo braquial é o conjunto de nervos que faz a comunicação entre o braço e o cérebro. Os movimentos do braço, começando pelos ombros, passando por cotovelos, antebraços, punhos e mãos, dependem da integridade do plexo braquial.

Habilidades simples, como levantar o braço, até as mais complexas, como o movimento das mãos, dependem desse conjunto de nervos intacto.

Se a menina não responder ao tratamento com fisioterapias, pode ser necessário passar por cirurgia.

Polícia

Após tomar conhecimento da gravidade da situação da filha e ao ver reportagem semelhante do Hojemais Araçatuba (Bebê tem clavícula quebrada e pulmão perfurado em parto normal induzido), compartilhada pela página QAP Birigui, a mãe registrou boletim de ocorrência contra o hospital e diz que irá procurar seus direitos na Justiça se for preciso.

Município teria negado transporte para tratamento

Sem ter como continuar com as faxinas que fazia quando estava grávida, a mulher conta hoje com ajuda dos pais dela, com quem voltou a morar, para cuidar dos três filhos. Ela é separada e o pai da bebê não a assumiu. Na casa dos pais dela, a única renda é a aposentadoria da mãe, que é avó das crianças.

Por isso, além dos especialistas, ela diz que já procurou o município para conseguir locomoção durante o tratamento, pois sem transporte público por conta da pandemia, o custo com veículo particular tem sido muito elevado. Ela diz que não tem condições de arcar com tal despesa, mas não pode interromper o tratamento da menina.

No entanto, essa ajuda teria sido negada pela Prefeitura.

Prefeitura questiona Santa Casa, que ignora a reportagem

Questionada sobre o caso, o segundo do tipo em um período de dez dias na Santa Casa de Birigui, a Secretaria Municipal de Saúde informou que notificou o hospital a prestar esclarecimentos sobre as duas ocorrências envolvendo problemas em bebês após partos.

A nota encaminhada pela assessoria de imprensa à reportagem é assinada pelo diretor da Atenção Básica e Especialidades, Luiz Henrique do Carmo Martins.

No entanto, a Prefeitura não respondeu sobre as especialidades que a mãe precisa para a filha (neurologia e ortopedia), o tempo de espera para se passar por tais profissionais, os possíveis direitos da mãe em relação ao transporte e o tipo de apoio dado à família em circunstâncias como essas.

Já a Santa Casa de Birigui foi procurada, via assessoria de imprensa, e mais uma vez ignorou o pedido de esclarecimentos a respeito da conduta adotada pelas equipes de saúde durante os partos.

Violência obstétrica

A chamada manobra de Kristeller, procedimento que consiste em fazer pressão na barriga da grávida, no momento do parto, para acelerar a saída do bebê, é considerada violência obstétrica e contraindicada pelo Ministério da Saúde e OMS (Organização Mundial da Saúde) justamente pelos diversos riscos que pode trazer tanto para mãe quanto para o bebê.

Em 2017, o Ministério da Saúde lançou novas diretrizes para o parto normal contra técnicas agressivas e invasivas e reforçou a contraindicação.

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