Cultura

Artistas da região comentam legado deixado por Paulo Gustavo

Profissionais das artes cênicas de Araçatuba, Birigui, Penápolis e Guararapes destacam características do humorista, recordam personagens e falam do papel da comédia nas críticas sociais

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
05/05/21 às 18h49

O ator Paulo Gustavo, de 42 anos, pode ter perdido a batalha para a covid-19, mas sua missão na arte foi cumprida por meio de um humor inteligente e seu legado artístico permanecerá por gerações. 

O Hojemais Araçatuba conversou com artistas que atuam nas artes cênicas de Araçatuba (SP) e região, que falaram sobre a importância dos trabalhos do ator e do humor inteligente nos dias de hoje.

O ator Heitor Gomes, que atualmente reside em Araçatuba e leciona nos cursos de comunicação e artes do Senac de Araçatuba, lembra que o primeiro filme que viu de Paulo Gustavo foi “Minha Mãe é uma Peça”. Segundo ele, já era hábito ir ao cinema, com a mãe, para assistir Dona Hermínia, personagem que Paulo interpretava, baseada na própria genitora.

Heitor Gomes (Foto: João Francisco T. Kawasaki/Divulgação)

“Ele conseguia reunir a família brasileira em torno dele, um homem vestido de mulher, e isso é muito potente e acaba, claro, dividindo a opinião de muitas pessoas. Acho isso muito potente. Fazia com que as pessoas mais conservadoras admirassem esse homem gay, que faz as pessoas rirem, que traz de maneira sutil críticas e olhares para a sociedade que a gente vive”.

Porém, o primeiro trabalho que ele acompanhou do ator foi na sitcom transmitida pelo canal Multishow, “Vai que cola”. “Para mim era algo muito bom, porque resgata a tradição da comédia brasileira de costume, que tem toda essa inspiração em programas anteriores, como ‘Sai de Baixo’, por exemplo, que é gravado num teatro. No ‘Vai que Cola’, você vê essas personagens do subúrbio carioca, pessoas comuns”.

Gomes destaca um dos episódios, onde ele fala: “Estamos aqui como ‘veado’, estamos contratados para ser ‘veados’”. “Isso é um ato político muito grande numa sociedade conservadora como a nossa. Você colocar personagens gays sem nenhum tipo de pudor, vitimismo, sendo simplesmente quem são e mantendo a ‘viadagem’ como ato de resistência. Conseguia colocar pautas políticas, identitárias de orientação sexual de uma maneira muito sutil. O Paulo Gustavo é um fenômeno. A Fernanda Montenegro falou sobre isso, porque ele conseguia lotar estádios (...) Encontrava maneiras de dialogar sem afastar o público. Dialogar sem afastar o público”.

 

Caique Teruel (Foto: João Francisco T. Kawasaki/Divulgação)

O presidente da Associata (Associação dos Artistas Teatrais da Região de Araçatuba) e ator, Caique Teruel, costumava acompanhar os trabalhos de Paulo Gustavo pela internet e destaca também a inteligência com que ele realizava o trabalho.

“Era uma grande figura para a nossa cultura; a sua piada sempre muito bem colocada, inteligente, ácida, questionadora, de uma maneira muito sagaz. Isso é muito admirável num artista, porque faz dele completamente único, irreverente, isso era muito marcante e vai continuar sendo, porque o legado vai permanecer”, conta Teruel.

Paula Liberati (Foto: Vitorino Coragem/Divulgação)

Comunicador

A atriz araçatubense Paula Liberati Paula, que atua há 20 anos no cinema, tv e teatro nacional e internacional, acredita que ele fica para a história dos comediantes brasileiros. “Lembro-me de Mazzaropi, que também criava, produzia suas histórias e levava milhares ao cinema. Assim foi Paulo Gustavo. A TV já está no cotidiano dos brasileiros. Acredito que sua falta no teatro e no cinema será muito sentida, pois ele fazia as pessoas irem, consumirem cultura. Ele levava milhares ao teatro. Fazia os brasileiros assistirem filmes nacionais; foi a maior bilheteria recente do cinema nacional”.  

Sobre a construção de seus personagens, ela frisa seu talento e capacidade de construir e seguir seu próprio caminho. “Acho isso muito importante de ser ressaltado. Criava personagens e uma em especial, a Dona Hermínia, baseado na figura de sua mãe, que lhe deu o estrelato. Acho que saber suas habilidades, respeitar seus impulsos, ter coragem de ser fiel a si, criando assim o seu caminho, o fez genial, para além do talento de um contador de histórias que chega no público. Um comunicador”.


Charles Ferlete (Foto: João Maker/Divulgação)

Leve e divertido

O professor de teatro e ator, Charles Ferlete, de Araçatuba, vê no ator um marco na história do teatro e cinema brasileiros. “Seus personagens, sempre muito caricatos, conseguiram ‘teatralizar’ o cinema, transmitindo de uma forma leve e divertida importantes reflexões cotidianas. Acredito que essa maneira de tratar assuntos sociais, muitas vezes delicados, abriu espaços para reflexão, onde muitas vezes não seriam acessados se fossem apresentados em outros contextos”.

Ferlete afirma que a sua forma mais popular de desenvolver seus trabalhos cria acessos e possibilita que o entretenimento inteligente chegue ao público e seja absorvido por um número maior de espectadores. “Embora tenhamos aprendido muito com Paulo Gustavo, ainda reverbera uma sensação de que ele tinha muito mais a oferecer para as pessoas e para a arte”.

André de Phra (Foto: Arquivo pessoal)

Simplicidade

O ator e diretor André de Phra, da companhia "Atendendo a Pedidos Até o Ovo!", de Araçatuba, opina que Paulo Gustavo ganhou o público pela sua simplicidade em representar a população, como a Senhora dos Absurdos e Dona Hermínia, que de certa forma representa todas as mães, ou o Rique, na série “A Vila”, com o famoso "jeitinho brasileiro". 

“Como artista, avalio que desde o princípio, seus trabalhos foram fixados na comédia limpa, simples, o que é muito difícil em tempos de comédia politicamente correta. Mas quando se há verdade, sem dúvida o sucesso vem. Tanto que o humor de Paulo Gustavo nunca recebeu críticas de nenhum seguimento, seja religioso ou LGBTQI+, ou qualquer grupo, assim como Grande Otelo, Zacarias, Oscarito, Mazzaropi”.

Construção

A personagem Dona Hermínia, interpretada na peça “O Surto”, é destacada pelo ator e cenotécnico, Valtemir Jurca, de Guararapes (SP). “Por mais que o grande público reconheceu Paulo Gustavo do filme "Minha mãe é uma peça", gostaria de frisar a personagem Dona Hermínia da peça ‘O Surto’. Ali, no teatro, estava já instalado o diferencial de um ator. Paulo levava o público ao teatro por causa da construção de sua personagem, isto é a glória para um ator, ver a sua obra que construiu que é a personagem ter o aval do público”.

“Vejo no Paulo Gustavo o humano. Julgamos tanto que deixemos de viver. Por todas as adversidades que Paulo passou, e que não foram poucas, e sem merecimento, ele jamais deixou de viver. Uma pessoa que teve uma passagem rápida por aqui, mas frutífera”, completa.

Atriz, diretora e produtora do grupo de teatro “Os Hedonistas”, de Birigui, e do grupo “Lugar de Ser Qualquer”, de Araçatuba, Renata Carvalho, não acompanhava com tanta profundida a carreira de Paulo Gustavo, mas destaca o seu humor necessário, que inclusive ria de si mesmo e que, por outro lado, trazia assuntos existenciais, sociais e políticas.

“Penso que todo ator deva priorizar o seu trabalho em detrimento do seu próprio ego. Pelo que conheço dele, essa era uma de suas características mais importantes, ele não gostava de estar em programas de TV, por exemplo, em partes por ser tímido, mas também por entender que o seu trabalho falava por si só. A dedicação, o compromisso, o profissionalismo e generosidade com os colegas de profissão também são características importantes para essa profissão”.

Fernanda Marques (Foto: Arquivo pessoal)

Bons sentimentos e emoções

A atriz Fernanda Marques, da cia Los Catotas – grupo de teatro de clown de Birigui -, que já atuou por seis anos no grupo Doutores do Riso, é muito fã da Dona Hermínia, que de acordo com ela, reflete a realidade de muitas mães e, inclusive, algumas atitudes da minha mãe.

“O humor dele era inteligente, com toque de acidez que provocava o riso e ao mesmo tempo reflexão. Sua autenticidade era levada em cada personagem, a atuação dele nos filmes com a Mônica Martelli ganhou espaço e roubou a cena em momentos de atuação com a protagonista; ele conseguia criar conexão com o público, sempre passava a impressão que seu humor era algo nato e autêntico”.

Para ela, a arte e a comédia são extremante importantes, já que nos ajudam a ver o mundo por meio da beleza e leveza. “Nos ajuda a desconectar um pouco da realidade, que nem sempre traz dias felizes e alegres; essa desconexão e condução à alegria nos leva a ter esperança, a entrar em contato com bons sentimentos e emoções”.


Thaísa Fernanda (Foto: Arquivo pessoal)

Gargalhar

De Penápolis, a atriz Thaísa Fernanda, da Cia Alternativa de Teatro, ressalta a morte precoce de Paulo Gustavo. “O Brasil perde mais um artista incrível, talentoso, amoroso e é como se nós, brasileiros, perdêssemos uma das poucas coisas boas que (ainda) nos permitem fazer: gargalhar. Sua forma de fazer humor era peculiar, carregada de afeto, e talvez por isso, agradava a tantas pessoas de diferentes idades. A arte está mais pobre e os dias perderam a graça”.

Thaísa associa o fato de ser um bom artista estar ligado ao caráter da pessoa. “Paulo Gustavo só confirma isso. O que mais me encantava nele era sua honestidade. Um artista e um ser humano honesto com sua arte, com seus princípios. Ele sempre estava inteiro, íntegro, nos palcos e nas telas”.


Monika Norte (Foto: Arquivo pessoal)

A mãe de todos

Também de Penápolis, a atriz Monika Norte, destaca Paulo Gustavo como símbolo da resistência, que ganhou vários mundos e trouxe algumas verdades de forma precisa. A artista lembra que mesmo tendo chorado com a morte, riu um pouco assistindo “200volts” e seus personagens.

“A arte do riso orienta, transforma e educa e ele fez isso com maestria. Os números de bilheteria estão aí pra provar. O amor e a consideração que as pessoas têm por esse cara, estão aí pra provar. Inspira a gente. Eu estou doída, parece que foi um parente meu que se uniu às estrelinhas e mesmo sem o conhecer, eu chorei com dor no peito. É um susto. A gente não quer admitir isso. Mas ele descansou. Foi pra outro foco de luz agora. Paulo Gustavo fica em nós, na memória do riso, a mãe de todos”.

Imagem: Hojemais Araçatuba
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