Concordo com os modernistas que diziam que vida e arte caminham juntas. Não há separação. A vida imita a arte. A arte imita a vida. A arte reflete a vida. E como todo bom espelho, algumas vezes nos mostra o que não gostaríamos de ver.
Um aparte para uma fábula que gosto muito: Era uma vez num tempo passado, um cachorrinho abandonado, que caminhava perdido, com raiva do mundo, até entrar num parque de diversões e, desesperado, achou uma porta para se esconder. Era a mágica sala dos mil espelhos e, sem saber, deparou-se com mil cachorros olhando pra ele com raiva. Então, latiu recebendo de volta mil latidos raivosos. Assustado, saiu da sala achando o mundo um lugar realmente cruel.
Dias depois, outro cachorro se perdeu por ali e também escolheu aquela porta para fugir. Mas este cachorro era feliz. Ele, então, entra na sala e vê mil cachorros sorrindo pra ele. Encantado, abanou o rabo, recebeu muito amor e deixou a sala com a certeza de que o mundo é um lugar bom.
Poderia encerrar meu texto aqui com esta reflexão. Mas é preciso falar. É importante frisarmos que quando se trata de arte, não devemos usar “eu gosto” ou “eu não gosto”. Porque a arte existe para revelar. E assim como na fábula acima, cada um viverá tal peça de arte de uma maneira muito particular de acordo com suas vivências, suas leituras do mundo.
Quando aconteceu a polêmica da exposição Queer, no Museu do Santander Cultural, de Porto Alegre, em 2017, muita gente virou crítico de arte. Vi muitas postagens de Facebook a favor da censura de tal evento.
Por isso, temos que falar de arte. Porque o que você vê ali pode não ser o que eu vejo. Uma obra de arte, volto a dizer, reflete. E muitos não entenderam que a arte também denuncia as atrocidades humanas - como por exemplo, a pedofilia -, com o intuito de chamar a atenção para a conscientização que nossa sociedade está doente. Não é uma ode à tal ato.
Mas dói ver, eu entendo. Também fico mal. Quantas vezes não saí do cinema e caminhei chorando até em casa? Não pulei músicas da playlist porque escancaravam a maldade humana e eu não queria saber disso naquele momento?
Estaria o brasileiro tão machucado assim que não aguenta mais se deparar com o espelho e procura apenas distração? Eu amo me distrair, não me entendam mal.
Mais do que acreditar em “diga-me com quem andas e te direi quem és”, eu falo: “diga-me o que lês, o que escutas, o que assistes, e saberás quem és”.
Então, vamos trocar?