Economia

Profissionais com mais de 50 anos são os que mais perderam seus empregos

Segundo Caged, até setembro de 2020, mais de 400 mil profissionais nessa faixa etária foram demitidos; a cada 10 vagas eliminadas, oito eram ocupadas por profissionais com mais de 50 anos

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba
01/05/21 às 13h30
(Foto: Governo do Ceará/Divulgação)

No Dia do Trabalho, celebrado neste sábado (1º), os números não são muito otimistas; a taxa de desemprego no Brasil atingiu 14,3 milhões de pessoas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

No entanto, a situação pode ficar ainda mais delicada para os trabalhadores acima de 50 anos. O Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) divulgou que até setembro de 2020, 438,1 mil profissionais nessa faixa etária foram demitidos, o que significa que a cada 10 vagas eliminadas, oito eram ocupadas por profissionais com mais de 50 anos.

Embora tenha perdido o emprego após o período delimitado pelo Caged, a araçatubense Rosângela Pereira, de 51 anos, faz parte do grupo de pessoas nessa faixa etária com dificuldades no mercado de trabalho. 

Rosângela ficou desempregada em novembro do ano passado, após trabalhar por 11 meses com serviços gerais em uma universidade do município. A justificativa para sua demissão foi o processo de mudanças internas da empresa. Junto com ela, também foram dispensados cerca de 30 funcionários. 

Dificuldades

A araçatubense conta que sempre trabalhou no comércio, mas que não estava mais encontrando vagas, antes mesmo do período da pandemia, e acabou aceitando a vaga na faculdade. 

“Nunca fiquei desempregada por um período tão grande, isso antes da pandemia. Com a chegada da pandemia, as coisas se complicaram ainda mais. Passei a ter problema por conta da idade e falta de qualificação". Ela ainda lembra que desde quando ficou desempregada, se candidatou a várias outras vagas, passou por entrevistas, porém, sem êxito. 

Por estar desocupada (termo técnico utilizado pelo próprio IBGE), sua grande preocupação é com a renda familiar, que foi comprometida. Rosângela conta que precisa tomar medicamentos contínuos e que são caros e não tem em postos de saúde. Como não conseguiu recolocação até o momento, está plantando e vendendo verduras e fazendo salgados. 

“Eu sou aquela parcela que, de tanto procurar emprego, não tem mais psicológico para continuar procurando, de tanto ouvir tantos "nãos". Então, ficamos assim, nem trabalhando e nem procurando”. 

professor Mario Henrique Sellis Porteira (Foto: Divulgação)

Para o professor de ciências contábeis e administração do UniToledo, Mario Henrique Sellis Porteira, a qualificação, a falta do curso universitário e questões culturais podem ser um dos entraves na contratação de pessoas mais velhas. 

“As empresas geralmente esperam dos mais velhos a experiência, o conhecimento, tanto que surgem hoje cargos novos nos processos de governança corporativa, a exemplo de membros de um Conselho de Administração, assim como em atividades internas para treinamento dos mais jovens. Existe demanda, mas a maior parte desta população não se especializou ou deu continuidade em seus estudos.” explica a especialista em gestão empresarial.

Transição 

A história de Liliana Ribeiro de Carvalho, também de 51 anos, de Araçatuba, é diferente da Rosângela. Ela esteve à frente de um estabelecimento que vendia pastéis em um shopping da cidade, por 19 anos. Decidiu vender a loja em julho de 2019 para fazer uma transição profissional para a área de terapia integrativa. 

No entanto, como no início de uma nova atividade a rentabilidade pode ser baixa, entregou alguns currículos para ajudar no orçamento familiar, porém sem nenhuma efetivação. O ponto em comum entre Liliana e Rosângela é o comprometimento da renda, já que usou sua reserva financeira e não contava com a pandemia quando se organizou para a transição profissional. 

“A busca está mais difícil, porque agora o forte é o meio digital e eu tenho outras habilidades. Minhas habilidades eram para trabalhos presenciais. Agora, estou me capacitando e melhorando essas outras habilidades”, explica Liliana

Liliana Ribeiro de Carvalho (Foto: Arquivo pessoal)

A araçatubense decidiu fazer um curso para aprender a fazer um projeto social; segundo ela, é uma maneira de se capacitar para o mercado de trabalho e também está muito próximo da sua atual atividade de terapia integrativa. Quando finalizar, irá adequar o seu currículo para a área de humanas e encaminhá-lo para entidades do terceiro setor e também elaborar projetos para que possa oferecer seu trabalho como terapeuta integrativa. 

Aberto ao novo

O professor universitário Marcos César Bottaro, do Unisalesiano, atua nas áreas de contabilidade, administração, empreendedorismo, direito e legislação, e comenta algumas situações ligadas ao tema. Sobre as demissões dos mais velhor sem maioria, ele destaca que esse grupo etário é a maioria nos postos de trabalho, o que acaba refletindo nos números de desemprego.

Além disso, ele cita a questão salarial. “Muitas vezes, os mais experientes, estão com salários justos, mas para o empresário, é um custo que pode ser substituído por uma pessoa que está em início de carreira com salário menor”. 

Apesar da pandemia, que agravou grande parte da economia, as oportunidades também surgiram, principalmente no que se refere a ferramentas inovadoras de tecnologia. Dessa forma, ele acredita que é preciso aprender sempre, participar de brainstorming , estar aberto a novas ideias, novos momentos.

“Podemos dizer que, a falta de inovação e continuidade nos estudos dos profissionais com os mais velhos, muitas vezes traz a sensação de comodismo. O profissional, independentemente da idade, nesse mundo globalizado, para continuar no mercado de trabalho, tem que se atualizar e aprender sempre. Utilizar ferramentas de tecnologia para seu trabalho”, afirma Bottaro.

Professor Marcos César Bottaro (Foto: Divulgação)

Experiência 

Por outro lado, as empresas têm muitos benefícios com colaboradores mais experientes, pois já sabem como resolver problemas ou novas soluções. Uma grande missão dos gestores, segundo Bottaro, é fazer a fusão de novos colaboradores com colaboradores experientes. 

“Tenho muitos colegas de trabalho com muito mais de 50 anos, todos estão ativos, trabalhando em mais de uma empresa como, professores universitários, contadores, advogados, administradores, engenheiros. Todos muito comprometidos com o trabalho e empreendendo nos estudos contínuos. Na minha opinião, não existe idade para o trabalho, todo profissional independente da idade, deve sempre estar comprometido com o que faz, trabalhar com ética, caráter, princípios, honestidade e principalmente com muita humildade, ensinado os mais jovens e aprendendo com eles”. 

Atuação

Ainda sobre os benefícios de um profissional com mais de 50 anos, o professor Porteira destaca que muitos aproveitam sua sólida formação para atuar como consultores e se manter no mercado. Por mais que iniciativas de mudança do quadro sejam tímidas, ele diz que algumas empresas contam com programas específicos para esse público, mas que não se pode perder o “time” da graduação. 

“Temos uma linha do tempo natural, dos mais jovens a energia e inovação, mas estes jovens precisam estar estudando, buscando conhecimento, aproveitando a sua idade e graduando e pós-graduando no tempo certo, para quando mais velhos, terem o produto que poderão entregar, a experiência, expertise, a ser transmitida para a nova geração. Fico muito triste quando um aluno diz que vai parar seus estudos, pois ele possivelmente estará nesta terrível estatística apresentada pelo IBGE”, pontua Porteira. 


Aumente suas chances de recolocação no mercado de trabalho

Cursos são essenciais para quem busca requalificação profissional; a imagem mostra sala de aula antes da pandemia (Foto: Divulgação)

A docente da área de gestão e negócios do Senac de Araçatuba, Priscila Buli, comenta que, em função da pandemia, o fator idade tem pesado contra os profissionais acima de 50 anos, especialmente aqueles que fazem parte do grupo de risco e estão em busca de recolocação.

Entretanto, a docente destaca uma pesquisa da consultoria Robert Half, realizada em 2019, que concluiu que, mesmo antes do cenário pandêmico, 69% das empresas pesquisadas já não contratavam trabalhadores com mais de 50 anos. Entre os receios dos recrutadores com relação a esse perfil estão salário alto (31%), pouca flexibilidade (18%), desatualização (12%) e o risco de ampliar conflitos entre gerações (7%).

A mesma pesquisa mostra também os benefícios em contratar alguém depois dos 50, como experiência (86%), conhecimento (66%), resiliência e inteligência emocional (43%) e contribuir para a diversidade da organização (30%). 

Diante desse cenário, Priscila afirma que os primeiros passos para quem se encontra nessa realidade, é realizar ou revisitar seu planejamento de carreira e realinhar a rota.

“É importante estabelecer objetivos, como cargo pretendido ou mesmo uma mudança completa da ocupação profissional, e, por meio de um mapeamento de competências individuais, muitas desenvolvidas somente ao longo da vida profissional, traçar metas das habilidades que precisam ser desenvolvidas ou aprimoradas a partir das exigências do cargo pretendido”. Essa ação aumenta muito as chances de recolocação, destaca. 

Priscila também recomenda que explorar as soft skills (habilidades interpessoais) desenvolvidas durante a trajetória profissional pode ser um ponto positivo para se destacar em processos seletivos. Investir no networking sempre é uma dica importante na busca pela recolocação.

Estudos 

A docente também comenta a questão da qualificação, sendo necessária em qualquer estágio da carreira profissional. Para atender às constantes mudanças e exigências do mercado de trabalho é preciso estar sempre em busca de novos conhecimentos. 

“Contudo, em especial para profissionais maduros, posso destacar alguns pontos importantes: atualize seus conhecimentos em tecnologia, seja qual for sua área de atuação, ela possivelmente estará presente, não há mais como fugir. Cursos de curta duração também podem ser uma excelente opção, pois têm objetivos bastante específicos e costumam ser práticos. É importante destacar que a escolha dos títulos dos cursos deve ir ao encontro das exigências do mercado”. 

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