Em março li um texto que dizia que, com a quarentena, as vibrações da Terra estavam começando a diminuir. A possível calmaria que desfrutamos segundo os geocientistas e sismólogos vem ao encontro com as conversas (virtuais, importante destacar) que venho tendo com alguns amigos. Em tempos de recolhimento e calmaria, alguns de nós com uma xícara em uma mão e um livro em outra, desfruta muito bem desse silêncio.
Alguns me escrevem dizendo que já leram até as bulas dos ansiolíticos e rótulos do álcool gel, outros inconformados reclamam que não conseguem ler nem as mensagens daquele aplicativo que não vivemos sem.
Gostaria eu que houvesse uma frase que acalentasse esses meus amigos leitores, mas não há. Não há, porque somos diferentes, porque enquanto eu leio poesia, meu vizinho lê contos, e o importante é continuar, é sentir que o mundo está se colocando em silêncio, enquanto nós leitores já buscávamos por um lugar tranquilo. E olha, esse lugar é dentro de nós.
Nesse momento, pode ser que um livro lhe entregue paz e esperança, pode ser que haja ansiedade e preocupação, por isso não há método científico comprovado. Se você está lendo tudo que encontra, tem meu respeito; se você está lendo as notícias e ainda vendo pela tv, também tem meu respeito.
São tempos que alguns se descobrem sombrios e outros descobrem como um dia nublado que de repente se transformar em ensolarado.
Eu, particularmente, assoprei velinhas há poucas semanas atrás, desejando saúde, aquela que te permite gargalhar com os amigos, brindar aos berros para o universo te ouvir e conceder o simples pedido de ter mais um ano com as pessoas que guardamos no coração. Selecionei as memórias que me causam hiperventilação.
Esses dias são feitos da incerteza que o caos proporciona, mas historicamente grandes civilizações se ergueram em cima de destroços e não de pessoas. Ao apagar velinhas, soube que somos feitos de pó de estrelas e histórias. E o que contaremos quando a velinha se apagar?
Porque realmente não estamos contando os livros que lemos, mas as emoções e saudades que provamos.
Então leiam sim, leiam o sorriso dos amigos pela chamada de vídeo, leiam as entrelinhas daquele tuíte meio esquisito, leiam o coração daquela mensagem de voz entrecortada, leiam a saudade que espaça toda vez que dissemos até logo e não saberemos quando será a próxima vez. Sei lá, deixe um bilhete, uma dedicatória, uns mil milhões de te amo, é isso que a leitura nos proporciona, sermos mais humanos enquanto a humanidade esqueceu de si mesma.
E olhem as estantes, as pilhas de livros, as listas de desejos, elas contam a história de pessoas que planejam uma vida, que planejam conhecer, podemos estar em silêncio agora e propositalmente ouvindo claramente a voz que vem dentro, aquela que depois de um suspiro e sorriso nos permite um sono profundo.
Esses dias são feitos da incerteza que o caos proporciona, mas historicamente grandes civilizações se ergueram em cima de destroços e não de pessoas. Ao apagar velinhas, soube que somos feitos de pó de estrelas e histórias. E o que contaremos quando a velinha se apagar?
Porque realmente não estamos contando os livros que lemos, mas as emoções e saudades que provamos.
Então leiam sim, leiam o sorriso dos amigos pela chamada de vídeo, leiam as entrelinhas daquele tuíte meio esquisito, leiam o coração daquela mensagem de voz entrecortada, leiam a saudade que espaça toda vez que dissemos até logo e não saberemos quando será a próxima vez. Sei lá, deixe um bilhete, uma dedicatória, uns mil milhões de te amo, é isso que a leitura nos proporciona, sermos mais humanos enquanto a humanidade esqueceu de si mesma.
E olhem as estantes, as pilhas de livros, as listas de desejos, elas contam a história de pessoas que planejam uma vida, que planejam conhecer, podemos estar em silêncio agora e propositalmente ouvindo claramente a voz que vem dentro, aquela que depois de um suspiro e sorriso nos permite um sono profundo.
*Janaína Nascimento é professora de história e uma das fundadoras do clube do livro “Entre Nós; Extremos”, de Araçatuba.