Polícia

Motorista por aplicativo foi morto com golpes de pá

Ele teve as mãos e pés presos com fita adesiva e se fingiu de morto após ter o pescoço preso com fio elétrico; tentou fugir ao perceber que seria enterrado vivo, mas caiu e foi atacado por irmão do acusado de atraí-lo para roubo do carro

Lázaro Jr. - Hojemais Araçatuba
30/03/23 às 18h34

Exames preliminares realizados pelo IML (Instituto de Criminalística) apontam que a causa da morte do motorista por aplicativo Glauber Humberto Florentino, 35 anos, foi um golpe sofrido com uma pá na região abdominal.

A informação foi divulgada durante entrevista coletiva concedida nesta quinta-feira (30) pelos delegados da DH/Deic (Delegacia de Homicídios da Divisão Especializada de Investigações Criminais), após a prisão de um segundo acusado de participação no crime.

Ele é irmão do outro acusado, que havia sido preso no dia 12 deste mês, quando indicou que o corpo da vítima estava enterrado em um canavial no município de Bento de Abreu. Ainda de acordo com a polícia, essa informação do IML descarta a possibilidade de que Florentino pudesse ter sido enterrado ainda com vida.

Irmão

A reportagem do Hojemais Araçatuba tinha conhecimento de indícios da participação do irmão do primeiro acusado havia vários dias, mas não divulgou a pedido da polícia, para não atrapalhar as investigações.

Ele havia sido ouvido na semana seguinte à prisão do irmão e confirmado participação apenas na ocultação do cadáver, o que não convenceu a equipe de investigação.

O inquérito prosseguiu e a polícia conseguiu contato com a pessoa que havia adquirido o carro da vítima, uma Ford Ecosport, que foi restituído.

Também ficou comprovado, por meio de cópias de mensagens de celular, que o objetivo do primeiro investigado sempre foi roubar o carro de Florentino. Inclusive, de acordo com a polícia, ele já vinha negociando o veículo desde fevereiro.

Encontro

Durante a entrevista coletiva, o delegado Paulo Natal confirmou que o que atraiu a vítima para a morte no dia 1º de março foi mesmo a possibilidade do encontro amoroso com o primeiro preso. Eles se conhecerem por meio de um aplicativo de relacionamento, já teriam se encontrado outras vezes e esta seria a primeira vez que teriam relação sexual, na versão do acusado.

O motorista por aplicativo o pegou no condomínio de apartamentos onde ele residia, em Araçatuba, e os dois seguiram com o carro dele para Bento de Abreu, cidade onde o investigado já residiu.

Diferentemente da primeira versão, na qual o acusado disse que eles discutiram por causa do carro e por isso agrediu vítima com um soco, desta vez, o investigado alega que usou um fio elétrico para enforcá-la e ameaçá-la de morte.

Ele contou ainda que em seguida colocou Florentino no porta-malas com as mãos e pés presos com fita adesiva e depois colocou quatro comprimidos na boca dele, na intenção de confirmar a morte.

“O próprio autor fala (em depoimento) que depois que ele matou a vítima, ele achou os quatro comprimidos debaixo do carpete do porta-malas. Então a vítima fez que ingeriu o comprimido, mas não ingeriu”, contou o delegado.

Irmão

A participação do irmão dele teria início a partir do momento em que o acusado de planejar o roubo o procurou, no sítio onde reside, em Bento de Abreu, pedindo ajuda, dizendo que “teria feito uma coisa errada”. O irmão dele pegou a pá e os dois juntos seguiram para o canavial, com a vítima ainda dentro do porta-malas, pois eles imaginavam que o motoristo teria morrido.

Chegando no canavial eles mantiveram a vítima no porta-malas, abriram a cova para enterrá-la. Em seguida, os dois retiraram Florentino do porta-malas, colocaram no buraco feito na terra e voltaram para o veículo, onde pegaram um frasco com álcool. “Segundo eles, seria para limpar o corpo da vítima e limpar as mãos deles, pois achavam que com isso, fossem tirar a impressão digital da vítima. A gente acha também, que possivelmente eles poderiam atear fogo na vítima”, acrescentou Natal.

Correu

Quando retornaram para onde o motorista por aplicativo estava, já de posse do frasco com álcool, ele teria implorado para não ser morto. “Aí eles viram que (a vítima) não estava inconsciente, a vítima tentou correr, correu pelo canavial, o irmão, preso ontem, correu atrás da vítima, o outro cercou e eles pegaram a vítima, que no intuito de correr acabou caindo”, contou.

Ainda na versão dos investigados, o acusado que atraiu Florentino para o suposto encontro amoroso passou a chutá-lo, enquanto o irmão dele, utilizando a pá que havia sido usada para fazer a cova, passou a agredi-lo, tanto na cabeça como no abdômen, vindo inclusive a quebrar o cabo da ferramenta.

“A divergência que existe é que o que foi preso ontem fala que os dois bateram e o irmão, diz que apenas deu chutes”, explicou o delegado.

Corpo de Glauber foi encontrado enterrado em canavial em Bento de Abreu (Foto: Reprodução/Arquivo)

Carro da vítima era negociado com vendedor desde o início de fevereiro

Troca de mensagens confirmam negociação do carro roubado (Foto: Reprodução)

Outro motivo alegado pela polícia para não divulgar detalhes da investigação, é que se buscava informações sobre como se deu a negociação do carro da vítima. Segundo a polícia, a pessoa que comprou a Ecoesport roubada mora em outro Estado e foi ouvida também na quarta-feira, quando foi feito o pedido de prisão do segundo investigado.

“Essa pessoa mandou prints de tela, do contato que ela teve via WhatsApp, com o primeiro detido”, informou o delegado Paulo Natal, explicando que os dois se conheciam por terem negociado outro veículo no ano passado.

Ainda de acordo com ele, trata-se de um comerciante que adquire veículos com pendências de financiamento e regulariza com as financeiras para depois revendê-los. Foi constatado então que as partes faziam contato desde 8 de fevereiro, inclusive com envio de fotos da parte interna e externa da Ecosport.

Vendido

Entretanto, de acordo com o delegado, a vítima já havia negociado o veículo com um comércio em Araçatuba, por R$ 39 mil, dos quais seriam abatidos R$ 4 mil, que seria o valor da dívida com o financiamento.

“Nesse período em que o autor não conseguiu roubar o carro, nesse meio tempo até o dia 1º, o adquirente de outro Estado tentava de várias maneiras, tentou 3 ou 4 vezes vir buscar o carro e o primeiro autor sempre negando, inventando uma desculpa”, revela.

Para a polícia, esses são indícios de que o investigado já tinha a intenção de matar para roubar. Além disso, de acordo com a polícia, quando a vítima ainda estava no porta-malas do carro, o acusado enviou fotos do veículo para o comprador. “Isso mostra a rapidez com que queria de desfazer do carro, pois sabia que o carro possivelmente, posteriormente ia constar queixa”, explicou.

Devolveu

Ainda de acordo com a polícia, o comprador só soube que o veículo era produto de crime quando começou a cobrar o documento e a procuração para fazer a transferência.

O delegado Rodolfo Carlos de Oliveira, que também participou da coletiva, explicou que o boletim de ocorrência comunicando o desaparecimento da vítima e da Ecosport só foi registrado na noite do dia 2, ou seja, um dia depois de ele ter sido morto.

O acusado do crime recebeu os R$ 9 mil cobrados pelo veículo por meio de Pix, às 15h daquele dia, quando não havia a queixa ainda. “Realmente ele não tinha condições de saber que o carro estava com problema”, esclareceu.

Investigação

A polícia ainda investiga a possibilidade de o irmão do vendedor ter direito a parte do valor recebido do pagamento pelo carro roubado. Segundo o que foi informado, após o crime, o primeiro acusado liga para o irmão dizendo que não havia dado certo a venda do veículo por ter sido constatado que ele seria produto de crime.

“Ou seja, mentiu para o irmão, porque ele recebeu. Então isso nos leva a crer que ele deu satisfação para o irmão porque prometeu algo para o irmão, senão não falaria”, comentou Paulo Natal.

Entretanto, o delegado Rodolfo argumentou que tudo indica que inicialmente o irmão teria apenas tentando ajudar o primeiro acusado, que o procurou dizendo que havia feito uma “coisa ruim”. “Ele ficou sabendo que teria algum benefício depois. Na hora do fato, ele falou isso pra gente várias vezes. Ele foi ajudar o irmão, que teria feito uma coisa ruim, mas provavelmente depois ele teria um benefício”, comentou.

Latrocínio

Para concluir o inquérito a polícia aguarda a emissão dos laudos do IML no corpo da vítima e do Instituto de Criminalística com relação às perícias. Previamente já foi confirmado que havia sangue no porta-malas do carro, que pode ser da enxada usada para matar a vítima.

Um pedaço do cabo da enxada que quebrou também foi apreendido. Os dois irmãos devem ser indiciados por latrocínio e ocultação de cadáver. Eles permanecem presos temporariamente na cadeia de Penápolis.

Veja imagens da reconstituição do crime, realizada pela Polícia Civil na tarde de quarta-feira em canavial de Bento de Abreu. Trabalho foi acompanhado pela advogada Marylin Daiana Alves, que representa um dos investigados

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