Política

Câmara aprova repúdio a movimento do Psol em Araçatuba

Integrantes do partido foram à Casa Legislativa para pedir fim da leitura da Bíblia durante as sessões da Câmara por respeito a Estado laico; houve manifestação, muito bate-boca e sessão suspensa por duas vezes

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
05/10/21 às 19h08
Requerimento de repúdio foi assinado pela Frente Parlamentar Cristã (Foto: Angelo Cardoso/Câmara de Araçatuba)

A Câmara dos Vereadores de Araçatuba (SP) aprovou na noite de segunda-feira (4) um requerimento de repúdio ao movimento do Psol (Partido Socialismo e Liberdade) que pede o fim da leitura da Bíblia durante as sessões e do uso da frase “sob a proteção de Deus, iniciamos nossos trabalhos” por respeito a Estado laico.

Integrantes do partido foram à Casa Legislativa para uma manifestação contra o requerimento, que acabou em bate-boca e sessão suspensa por duas vezes, sendo na segunda, com pedido de retirada do grupo. Um dos manifestantes registrou boletim de ocorrência de ameaça.

Repúdio

O requerimento, assinado pela Frente Parlamentar Cristã, foi aprovado por 12 votos. O único contrário foi o vereador Wesley Monea dos Santos, o Wesley da Dialogue (Podemos).

A Frente Parlamentar Cristã é formada pelos vereadores Maurício Rufino Barbosa, o Maurício Bem Estar (PP), Manuel Alves Guimarães, o coronel Guimarães (PSL) e Arnaldo da Silva, o Arnaldinho (Cidadania).

Eles alegam que a leitura da Bíblia no início dos trabalhos legislativos está prevista no Regimento Interno da Câmara desde 1993 e não viola a laicidade do Estado. “O Estado laico não significa o Estado sem religião. Ao contrário, o Estado laico defende a liberdade religiosa”, explicou Maurício Bem Estar.

Movimento

Os manifestantes, dez no total, estavam vestidos com camisetas personalizadas e com cartazes. Todos eram filiados ao partido Psol e representavam diferentes crenças: um anglicano, um candomblecista, um espírita, um umbandista, dois evangélicos, um agnóstico e três católicos.

Assim que Maurício Bem Estar iniciou a leitura do requerimento, integrantes do grupo começaram a questionar os argumentos citados.

O presidente da Casa, Alceu Batista, o Dr. Alceu (PSDB), suspendeu a sessão e chegou a conceder um minuto de fala para uma das manifestantes, que é candomblecista. Ela explicou a importância da Câmara ser laica, prezando pela diversidade religiosa. Para isso, seria necessário que a Casa respeitasse as demais religiões e que ao privilegiar determinados crédulos, a Câmara estava ferindo a Constituição.

Manifestantes de diferentes crédulos durante a sessão (Foto: Angelo Cardoso/Câmara de Araçatuba)

Retomada

Após esse episódio a sessão foi retomada, sendo interrompida novamente após a discussão do vereador Lucas Zanatta (PV), que atacou o partido autor do manifesto.

“Quando a gente observa o autor é difícil acreditar que é uma questão puramente preocupada com a laicidade, até porque na questão dos valores do partido e da tradição cristã existe um antagonismo muito grande. Essa é a verdade sobre o partido. São antagônicos e contra o cristianismo”, disse Zanatta.

A fala do vereador foi interrompida por protestos dos manifestantes e Dr. Alceu suspendeu a sessão para a retirada deles da galeria.

Ameaça

O professor Matheus Lemes Martins de Assis, que é tesoureiro do Psol, foi um dos que permaneceu na galeria discutindo com Zanatta e foi interpelado por um homem, conhecido por ter ligações com vereadores. Segundo ele, esse homem tentou retirá-lo à força do auditório, com as palavras “vamos conversar lá fora mano”.

“Eu disse que não sairia sob ordem dele porque não era autoridade policial ali. Ele me deu um tapa no braço, forte inclusive, e gritou para eu me retirar”, contou. Após o episódio ele informou os guardas que só sairia após o homem sair, e assim o fez.

Nesta terça-feira (5), Assis foi à delegacia de polícia e registrou um boletim de ocorrência sobre o episódio.

Futuro

Questionado sobre o futuro do manifesto, Assis afirma que o partido seguirá firme e irá ampliar o diálogo com todos os crédulos e movimentos que se sintam representados.

 “Ressalto que entendo o anseio da população em pautar temáticas importantíssimas, como saúde, segurança e mobilidade urbana, por exemplo, são pautas devemos tratar com prioridade, porém é preciso que os vereadores deixem de buscar a religião para oportunismos visando crescerem suas bases eleitorais”, disse.

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