Talita Moraes, bióloga e empresária
29 de agosto é considerado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. A data foi estabelecida no Brasil pois marca o dia em que foi realizado o 1º Seminário Nacional de Lésbicas em 1996. O evento foi promovido por ativistas lésbicas brasileiras.
Aqui em Três Lagoas, enquanto algumas mulheres lésbicas ainda não se sentem à vontade para falar sobre a sua sexualidade, por vários motivos, outras já conseguem debater os principais desafios de ser homossexual em uma cidade relativamente pequena.
A bióloga e empresária Talita Moraes, de 31 anos, assumiu que gostava de meninas aos 19 anos. Ela conta que, de forma indireta, já sofreu com alguns olhares de desagrado e incômodo na cidade.
“O preconceito acontece em todo lugar, mas penso que em uma cidade grande a chance de agressão nas ruas seja bem maior. Na verdade a discriminação pode estar até dentro de casa, com nossos familiares. A diferença é que algumas pessoas tentam mascarar, assim parece que o preconceito é menor, mas isso não é verdade”.
"A discriminação pode estar dentro de casa. A diferença é que algumas pessoas tentam mascarar, assim parece que o preconceito é menor, mas isso não é verdade", Talita Moraes.
Fran Soares, cantora
A cantora Fran Soares, hoje com 36 anos mas assumida desde os 23, revela que ficou chocada com um dos episódios de preconceito que sofreu. Quando estava com algumas amigas em um bar, dois homens foram incisivos em convidá-las para juntarem-se a eles. “Eles tiveram a ideia de que, sem uma presença masculina na mesa, estaríamos sozinhas”.
Em seguida um deles se voltou a ela e perguntou se na mesa tinha alguma ‘sapatão’, termo pejorativo pelo qual as lésbicas são conhecidas. “Foi a primeira vez que a minha orientação sexual passo a ser motivo de discussão. Isto nem deveria estar em pauta. Foi muita falta de respeito”.
Fran ressalta que as mulheres homossexuais sofrem mais em cidades pequenas por que todos se conhecem. “Os ambientes sociais e de trabalho se cruzam mais. Por isso os pequenos preconceitos e as pequenas conversas chegam até nós de forma muito mais rápida. Isso afeta não só quem ainda não se assumiu, mas também quem já está ‘fora do armário’”.
"Fiquei em choque quando a minha orientação sexual foi motivo de discussão", Fran Soares.
Flávia Guedes Rocha, empresária
A empresária Flávia Guedes Rocha, de 35 anos, soube que era lésbica aos 16. Para ela a caminhada não foi permeada pela discriminação por que, segundo ela, sempre se impôs de alguma forma.
“Acho que esse meu jeito fez com que eu não tivesse sofrido nenhum preconceito. Às vezes alguma conversa fiada de macho escroto, olhos virados quando você pega na mão da sua parceira, mas isso tiramos de letra”.
Flávia acredita que este tipo de atitude está presente em todo lugar, independentemente do tamanho da cidade. “O preconceito está dentro das pessoas”.
"O preconceito está em todo lugar pois fica dentro das pessoas", Flávia Guedes Rocha.
A IMPORTÂNCIA DA VISIBILIDADE
Todas concordam que ter um dia dedicado à visibilidade lésbica é muito importante. “A data representa um momento de luta e resistência das mulheres por seus direitos civis em meio à nossa sociedade machista”, explica Talita, “ainda somos encaradas como fetiches e existe a objetificação. Quando a palavra ‘lésbica’ é pesquisada no Google, o resultado é sempre pornografia”.
Para Fran, falar sobre o assunto faz com que algumas pessoas possam ter contato com o tema pela primeira vez. “Ela vai ver em um jornal ou rede social e isso pode tirar ali algum tipo de preconceito que existia pela desinformação”.
Ela explica ainda que a orientação sexual de qualquer pessoa não precisa ser evidenciada por nenhuma razão. “Eu busco fazer todas as coisas pela Fran Soares e não pela minha sexualidade. A minha orientação é só uma parte de mim e que precisa ser respeitada”. “A luta da mulher já existe há muito tempo. O preconceito, a violência, a diminuição social. Discutir, escutar, falar, mostrar sempre é muito bom”, disse Flávia.
Ela ainda deixa um recado para as meninas mais novas e que estão lidando agora com o que ela, a Talita e a Fran já sofreram há muito tempo: “Não parem meninas!”