O consumo de alimentos ultraprocessados no Brasil mais que dobrou nas últimas quatro décadas, passando de cerca de 10% nos anos 1980 para 23% da alimentação atual, segundo série de artigos publicada na revista científica The Lancet . Segundo pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), o Brasil acompanha uma tendência mundial: um levantamento realizado em 93 países mostra que o consumo desses produtos aumentou em 91 deles, revelando uma expansão global impulsionada pela industrialização da alimentação e pela atuação de grandes corporações do setor.
Em nações como Reino Unido e Estados Unidos, os ultraprocessados já correspondem a mais de metade das calorias consumidas no dia a dia. Outros países, como China, Coreia do Sul e Argentina, também registraram crescimento acelerado nas últimas décadas, partindo de índices baixos para patamares semelhantes aos brasileiros. Inicialmente, o aumento costuma começar entre consumidores de maior renda e, em seguida, se espalha para outras parcelas da sociedade, favorecido por estratégias de marketing, preços competitivos e maior presença industrial nos sistemas alimentares nacionais.
O crescimento acompanha a alta global de doenças crônicas relacionadas à nutrição, como obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e enfermidades cardiovasculares. Uma meta-análise realizada pelos pesquisadores, envolvendo mais de 100 estudos de longo prazo, apontou que dietas ricas em ultraprocessados tendem a reunir ingestão excessiva de calorias, baixa qualidade nutricional e exposição constante a aditivos químicos utilizados para intensificar sabor, textura, cor e durabilidade.
A classificação NOVA, criada por pesquisadores brasileiros, divide os alimentos pelo grau de processamento e define os ultraprocessados como formulações industriais extensas, como refrigerantes, macarrão instantâneo, salgadinhos, biscoitos recheados e sobremesas artificiais. A classificação foi incorporada pelo Guia Alimentar para a População Brasileira e ajudou a explicar como a transformação industrial dos alimentos afeta diretamente a saúde pública.
Com base nos resultados, os pesquisadores defendem políticas que reduzam a presença desses produtos no cotidiano dos consumidores, entre elas rotulagem mais clara para indicar excesso de açúcar, gorduras, sal e aditivos, restrição de publicidade dirigida a crianças, proibição da venda de ultraprocessados em espaços públicos como escolas e hospitais e medidas tributárias que aumentem sua taxação para financiar a oferta de alimentos frescos à população de baixa renda.
O Brasil aparece como referência em algumas estratégias, principalmente no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que desde 2025 ampliou a exigência de que 90% dos alimentos oferecidos nas escolas sejam in natura ou minimamente processados. Para os pesquisadores, a mudança alimentar em curso não é fruto apenas de escolhas individuais, mas resultado direto da atuação de grandes empresas multinacionais do setor, que movimentam mais de 1,9 trilhão de dólares por ano e influenciam hábitos alimentares em escala global.
Com informações de Agência Brasil.
