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Brasil está perdendo seus jumentos: o país já perdeu 94% da população

A pele dos animais é utilizada na produção do ejiao, que promete — sem comprovação científica — tratar condições como anemia, insônia e impotência sexual.

Da Redação
02/07/25 às 10h19
Foto: GettyImages

A busca pelo colágeno extraído da pele de jumentos, usado na produção do ejiao — um produto da medicina tradicional chinesa — tem provocado uma redução drástica da população desses animais no Brasil. Dados da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos revelam que mais de 1 milhão foram abatidos entre 1996 e 2025, levando a uma queda de 94% na população nacional da espécie, que caiu de 1,37 milhão para cerca de 78 mil.

“Se o ritmo atual continuar, a espécie não chega a 2030 em território nacional”, alerta o professor Pierre Barnabé Escodro, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), um dos principais especialistas na causa. Ele participou do evento “Jumentos do Brasil”, realizado recentemente em Maceió, que reuniu cerca de 150 pesquisadores e ativistas para debater estratégias de conservação e pressionar pela aprovação do Projeto de Lei 1.973/2022, que visa proibir o abate desses animais em todo o país.

Mercado lucrativo e descontrole na cadeia produtiva

No Brasil, três frigoríficos, todos na Bahia, têm autorização para abater jumentos. Porém, segundo pesquisadores, a cadeia de produção carece de rastreabilidade, controle de origem e fiscalização sobre o bem-estar dos animais. Um estudo publicado na revista científica Animals revelou que jumentos destinados ao abate apresentavam sinais de inflamação sistêmica, reflexo de negligência.

A pele dos animais é utilizada na produção do ejiao, que promete — sem comprovação científica — tratar condições como anemia, insônia e impotência sexual. O comércio global da substância movimenta cerca de US$ 6,4 bilhões anuais, e a pele de um único jumento no Brasil pode custar até US$ 4 mil. Já o preço do animal vivo subiu de R$ 100 para até R$ 500, impulsionado pela escassez.

Disputa política e resistência no Congresso

Na Bahia, a tentativa de proibir o abate foi barrada por um parecer contrário do deputado estadual Paulo Câmara (PSDB), que alegou que a atividade é regulamentada e economicamente importante. A decisão gerou reação de entidades protetoras dos animais, que contestaram os dados e alegações do parlamentar.

Enquanto isso, o Projeto de Lei 1.973/2022 continua parado no Congresso Nacional. A proposta busca instituir a proibição do abate de jumentos em todo o território brasileiro.

Alternativas: santuários e reintegração

Diante do avanço do mercado de ejiao e da ausência de políticas eficazes de proteção, pesquisadores e ativistas propõem a criação de santuários para jumentos, especialmente em áreas onde ainda há concentração da espécie, como no Ceará. Em Jericoacoara, cerca de 700 animais vivem em uma zona isolada, fora do alcance dos abatedouros. Já em Santa Quitéria, o Detran abriga mais de 1.200 animais em uma fazenda pública.

Outra alternativa é a reinserção dos jumentos em atividades produtivas, como transporte agrícola, e em projetos terapêuticos. “Eles ainda podem ter um papel importante na sociedade, como ocorre em pequenas propriedades rurais na Europa”, afirma Escodro.

Impacto global e alerta humanitário

No cenário internacional, o problema se repete. Uma pesquisa recente da Universidade Maasai Mara, no Quênia, mostrou como o abate desenfreado afeta comunidades rurais, em especial mulheres que dependem dos jumentos para atividades econômicas. No Egito, a população da espécie praticamente desapareceu. A resposta veio com a aprovação de uma moratória de 15 anos pela União Africana, proibindo o abate de jumentos com fins comerciais.

 

O alerta está dado: se medidas urgentes não forem tomadas, o Brasil pode se somar à lista de países que perderam essa espécie, que por séculos esteve ligada à história, à economia e à cultura de populações rurais.

*Com informações do Globo

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