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Três Lagoas se despede de Divaldo Franco através do coração de um filho adotivo

O três-lagoense Fernando Garcia, compartilhava profunda ligação de amizade e filiação espiritual com o médium

Hojemais Três Lagoas - Guta Rufino
14/05/25 às 14h09
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Divaldo Franco acompanhado de Fernando Garcia na Mansão do Caminho em Salvador. Foto: Arquivo Pessoal

A notícia da desencarnação de Divaldo Franco na última terça-feira, 13 de maio, aos 98 anos, ecoou com um misto de tristeza e gratidão nos corações espíritas de todo o Brasil, e em especial no de Fernando Garcia de Brito, um três-lagoense de 43 anos. Assistente social, mas atualmente coordenador de uma unidade de saúde, Fernando não era apenas um admirador do renomado médium e líder espírita, apontado como um dos maiores continuadores da obra de Chico Xavier. Ele era um filho do coração, acolhido pelo amor incondicional de Divaldo.

A jornada de Fernando com o espiritismo começou na infância, aos seis anos, quando seus pais o introduziram à doutrina. As palavras e os exemplos de grandes médiuns como Divaldo, Chico e Raul Teixeira sempre foram faróis em sua busca por compreensão. No entanto, foi em 2012 que a admiração se transformou em um laço pessoal profundo. "Quando tive condições financeiras, comecei a buscar acompanhar o Divaldo nas palestras", relembra Fernando com a voz embargada pela saudade. "Sempre que sabia que ele estava em alguma cidade do interior paulista, geralmente fazia cinco ou seis, eu pegava férias e ia acompanhá-lo. Também o acompanhei em Campo Grande, em congressos espíritas em Goiânia, no Rio de Janeiro, em várias cidades de São Paulo e no Paraná."

O medium Divaldo Franco e o três-lagoense Fernando Garcia. Foto: Arquivo Pessoal

Essa proximidade permitiu que Fernando conhecesse pessoas próximas a Divaldo, que o apresentaram ao médium. A partir daí, o relacionamento floresceu naturalmente. "Um dia, nos convidou para ir à Mansão do Caminho, em Salvador.

Dentro da Mansão do Caminho, está localizado o Centro Espírita Caminho da Redenção (CECR), que foi o primeiro centro espírita fundado por Divaldo Franco, juntamente com Nilson Pereira de Souza. Portanto, ambos os nomes se referem ao local onde Divaldo Franco desenvolveu sua vasta obra social e espiritual em Salvador. "Fui para lá e a amizade se estreitou", conta Fernando. Trocas de e-mails e mensagens no WhatsApp solidificaram o vínculo. "Ele sempre me tratava como um filho, assim como tantos outros que ele adotou por aí. Ele adotou mais um e começou a me tratar muito bem, sempre me orientando, me incentivando, tirando minhas dúvidas com relação a interpretações evangélicas. É um pai espiritual que eu posso falar que eu tenho, eu e tantas milhares de pessoas também, porque ele somou e modificou através da doutrina do Cristo vários corações."

A Mansão do Caminho se tornou um segundo lar para Fernando. "O Divaldo morava dentro da Mansão, numa casa grande, e sempre recebia visitas. Tanto eu quanto outros amigos, quando íamos para Salvador, ele nos recebia. Eu já me hospedei algumas vezes lá na casa dele, passando final de ano. Natal, então, eu passava com ele. Foram alguns anos assim, graças a Deus."

Em meio às lembranças, Fernando compartilha um episódio marcante que demonstra a profunda conexão espiritual entre Divaldo e sua vida. "Depois de 2021, na pandemia, meu pai desencarnou. Teve uma coisa muito engraçada que aconteceu quando meu pai estava ruim aqui em casa. Eu não sabia o que era e liguei para ele. O Divaldo chamava meu pai de 'Didi'. Ele orou no andar superior para ajudar meu pai. Isso era num sábado, e ele na hora falou para mim: 'Meu filho, chegou a hora da desencarnação do paizinho'. Eu assustei com aquilo. Como assim? Chegou a hora da desencarnação? Isso no sábado. Na segunda-feira, levei meu pai para o hospital para fazer hemodiálise, pois ele era paciente renal há 16 anos. Chegamos lá, ele fez exames, internou e descobrimos que estava com pedra na vesícula. Naquele momento, eu pensei: 'Não, ele falou que vai desencarnar, não vai morrer agora, é só uma pedra na vesícula'. Mas tudo bem. O médico pediu mais exames e descobriu que meu pai tinha câncer em estágio avançado, com metástase. Um dos pulmões estava colado, o outro com imagem de vidro fosco, uma possível pneumonia. E com os exames que saíram, meu pai estava com Covid. Meu pai desencarnou na sexta-feira. No sábado, Divaldo me falou, e na sexta, meu pai desencarnou. Ele me deu toda a assistência, orientação e amor nesse momento difícil."

Divaldo e Fernando em mais um encontro da doutrina espirita. Foto: Arquivo Pessoal

Mesmo distante fisicamente, o legado de Divaldo continua vivo na vida de Fernando, que participa ativamente do Centro Espírita José Xavier em Três Lagoas, auxiliando com palestras públicas e estudos do Evangelho no lar. Ele também integra um grupo de amigos de diversas partes do Brasil e do exterior, com quem Divaldo mantinha contato através de reuniões online, compartilhando orientações e temas para serem abordados nas casas espíritas.

A notícia do agravamento da saúde de Divaldo e seu estado de coma já preparava o coração de Fernando para a inevitável despedida. "Domingo ficamos sabendo que Divaldo tinha entrado em coma. Ontem, um pouco mais cedo, os amigos comentaram que o médico já estava preparando para a desencarnação. E depois soubemos que tinha concluído mesmo a sua existência. Foi um momento de muita emoção, um misto de dor pela perda da presença física e uma alegria muito grande, porque Divaldo sempre nos ensinou a questão da vida continua, que a morte não ceifa a presença espiritual. A desencarnação, segundo Allan Kardec, é um fenômeno biológico como morte, mas também um fenômeno espiritual, quando o espírito sai da carne e permanece vivo, preservando todas as suas lembranças, só que num plano espiritual."

Para Fernando, a desencarnação de Divaldo não é um fim, mas sim o "grande dia", a conclusão de uma missão terrena cumprida com êxito, amor e dedicação. "Quando você entra na Terra reencarnado, não tem noção de como será sua vida, se vai conseguir ter êxito ou falir na sua encarnação. E o Divaldo, quando veio para a Terra, começou como orador, teve a amizade com Chico Xavier, orientando e ajudando em sua mediunidade ostensiva na psicografia. Ele montou uma instituição de caridade que na época tinha muitas crianças adotadas, colocando algumas naquelas casinhas com tias para cuidar delas. Acredito que tenha mais de 600 filhos adotados e quase 300 obras escritas. É uma pessoa diferenciada que mostrou ao longo da vida uma conduta ilibada. E agora, ao concluir sua encarnação, ele chega pleno, com o sentimento de dever cumprido. O mundo espiritual está em festa porque o grande dia dele chegou, ele completou sua missão. Ele ajudou milhares de pessoas em Salvador e milhões no mundo inteiro através de suas palestras e livros. O movimento espírita deve muito ao Divaldo."

Fernando acompanhando Divaldo Franco em um evento da doutrina espirita. Foto: Arquivo Pessoal

Apesar da tristeza da perda física, Fernando e tantos outros se agarram à certeza da continuidade da vida, ensinada com tanta eloquência por Divaldo. "Nós somos muito gratos a ele por toda a sua vida dedicada ao bem, ao Cristo e à doutrina espírita. Divaldo nos ensinou isso, mostrou que, como sua mãe espiritual lhe disse em uma palestra, a vida continua. Nós também estamos nessa mesma situação, ajudando a divulgar a ideia da imortalidade da alma. Por mais que a morte seja assustadora, temos a certeza da continuação e de que vamos nos reencontrar no mundo espiritual. É um momento que, ao mesmo tempo em que nos entristece de um modo, reconhecemos e somos gratos a Deus e a Jesus por termos tido a grata honra de estar perto de uma pessoa tão maravilhosa, tão importante, tão iluminada como foi o Di", finaliza Fernando, com carinho e reverência, lembrando o apelido afetuoso que usava para se referir ao seu pai espiritual. Em Três Lagoas, assim como em tantos outros lugares, a saudade de Divaldo Franco floresce em gratidão e na certeza de que sua luz continua a brilhar nos corações daqueles que o amaram e foram transformados por sua obra.

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