No Brasil, a pena máxima para todo e qualquer delito é de 30 anos de reclusão, segundo a legislação, não havendo permissão para implantação da pena de morte, em única exceção nos períodos de guerras. Mas em Três Lagoas, a exceção virou uma realidade. Decidir quem merece viver ou não, é uma prática que está instituída em tribunais paralelos comandados pelo crime organizado e facções criminosas.
Em janeiro deste ano, sem chance de defesa um funcionário público, foi capturado e julgado pelo “tribunal do crime” pela prática de um estupro de vulnerável, diante da não confirmação do suposto estupro, ele foi liberado horas depois pelos bandidos.
Burlar a lei do silêncio, traição, roubo, estupro e até mesmo a desobediência a uma determinação imposta por membros ligados a grupos criminosos podem levar a pessoa a julgamento. A pena de morte aplicada pelo grupo identificado pela Polícia Civil de Três Lagoas era o pior possível. Os ‘justiceiros’ atacavam a vítima com golpes de faca caso fossem condenadas pelo “tribunal do crime”, atingindo-se principalmente o pescoço e a cabeça, para que não houvesse possibilidade de sobrevivência.
Para desarticular o grupo criminoso, a Polícia Civil deflagrou na manhã da última terça-feira, 2 de junho, em Três Lagoas e Campo Grande uma operação para prender os envolvidos no ‘tribunal do crime’.
A Operação Helieia se originou a partir do sequestro de um três-lagoense, ocorrido no final de janeiro. Policiais da 1ª DP (Delegacia de Polícia Civil), do Setor de Investigações Gerais – SIG, e do GARRAS (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros), cumpriram oito mandados de prisão preventiva, além de dez mandados judiciais de busca e apreensão.
Em nota, a Polícia Civil informou que a partir da verticalização de dados foi possível identificar todos os responsáveis pelo crime, e confirmou ainda a hipótese de que se tratava de um “tribunal do crime” organizado por uma facção criminosa.
Segundo a polícia, todos os presos são responsáveis por setores da criminalidade organizada em Três Lagoas e em Campo Grande, e possuem passagens e condenações que vão desde o crime de roubo, até tráfico de drogas.
Conforme o texto divulgado para a imprensa, informações contidas no inquérito, conduzido pelo Delegado de Polícia Civil, Gabriel Salles, aponta que os criminosos tomavam conhecimento de um suposto crime, capturavam o “acusado” e decidiam, depois de apurar a suspeita, se ele merecia a morte.
As investigações seguem para identificar outros membros da facção criminosa envolvidos com homicídios e tráfico de drogas na região de Três Lagoas.
A operação também contou com o apoio de equipe do GARRAS em Campo Grande, que efetuou buscas e inquiriu investigados, no Estabelecimento Penal Jair Ferreira de Carvalho. Os envolvidos serão indiciados pela prática, de integrar organização criminosa, dentre outras infrações, e permanecem presos até o final das investigações.
O nome da Operação Helieia faz referência ao antigo tribunal supremo da cidade de Atenas, na Grécia, para onde recorriam os cidadãos julgados injustamente por tribunais menores.