O mercado financeiro brasileiro iniciou a segunda-feira (26) sob forte turbulência após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. O resultado contrariou as expectativas predominantes entre investidores e desencadeou uma onda de desvalorização dos ativos brasileiros, com reflexos sobre o dólar, a Bolsa de Valores e as perspectivas para os juros.
Nos primeiros negócios da manhã, o Ibovespa Futuro registrava queda de 14,84%, aos 177.215 pontos, por volta das 9h04, no horário de Brasília. O dólar futuro avançava 9,16%, alcançando aproximadamente R$ 5,43. No mercado à vista, a moeda norte-americana também abriu em forte valorização, refletindo o aumento da procura por proteção cambial.
O movimento começou ainda na noite de domingo (25), quando ativos brasileiros negociados no exterior apresentaram perdas expressivas. O EWZ, principal fundo de índice de ações brasileiras negociado nos Estados Unidos, chegou a recuar mais de 26% no pré-mercado desta segunda-feira.
Investidores demonstram preocupação com as contas públicas
A reação negativa está relacionada principalmente às expectativas sobre a condução da política fiscal no próximo mandato. Parte do mercado apostava em uma mudança de governo acompanhada de medidas mais rígidas de controle das despesas públicas.
Com a reeleição de Lula, investidores passaram a revisar suas projeções para a dívida pública, a inflação e a trajetória dos juros.
Antes mesmo do resultado eleitoral, uma pesquisa do Citi apontava que 79,5% dos investidores consultados esperavam queda superior a 5% do Ibovespa caso Lula fosse reeleito. A preocupação central está na capacidade do governo de apresentar medidas que estabilizem a dívida pública e recuperem a confiança dos agentes econômicos.
Alta do dólar pode beneficiar exportadoras de celulose
Para a indústria brasileira de papel e celulose, a valorização da moeda norte-americana apresenta efeitos distintos. Empresas exportadoras, como Suzano e Klabin, podem registrar aumento das receitas convertidas em reais, uma vez que parcela significativa de suas vendas é realizada no mercado internacional.
A Suzano, que mantém importantes operações em Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo, está entre as companhias mais expostas às oscilações cambiais. Segundo análise do Bradesco BBI, aproximadamente 81% de sua receita consolidada está vinculada ao mercado externo. O banco estima que uma variação de R$ 0,10 no dólar pode representar impacto de aproximadamente 3% no EBITDA anual da empresa.
Entretanto, a alta cambial também pode elevar despesas com insumos importados e o valor, em reais, das dívidas contratadas em moeda estrangeira. Por isso, o efeito final sobre os resultados depende da estrutura financeira, das operações de proteção cambial e dos preços internacionais da celulose.
Suzano, Klabin e investimentos no Vale da Celulose
O cenário pós-eleitoral também merece atenção das empresas que mantêm projetos industriais e florestais em Mato Grosso do Sul, especialmente na região conhecida como Vale da Celulose.
A Suzano, a Arauco, que desenvolve o Projeto Sucuriú em Inocência, e a Bracell, com atividades florestais no Estado, atuam em um setor que exige investimentos elevados e planejamento financeiro de longo prazo.
A perspectiva de juros mais altos pode encarecer financiamentos e ampliar a cautela em novos projetos. Em contrapartida, um dólar valorizado pode favorecer a competitividade das exportações brasileiras, desde que a demanda internacional permaneça consistente.
No mercado acionário, o Bradesco BBI passou a privilegiar empresas exportadoras, incluindo a Suzano, em sua estratégia defensiva após a eleição. Já a XP Investimentos havia destacado Suzano e Klabin como alternativas de exposição a receitas dolarizadas em períodos de maior incerteza macroeconômica.
Mercado aguarda os primeiros sinais econômicos do novo mandato
A atenção dos investidores agora se concentra nas decisões econômicas que serão anunciadas para o próximo mandato presidencial, especialmente na política fiscal, na composição da equipe econômica e na relação do Executivo com o Congresso Nacional.
Para o setor de celulose, os próximos meses serão determinantes para avaliar os efeitos do câmbio, dos juros e do comportamento dos mercados consumidores, principalmente a China.
Embora a reação inicial tenha sido negativa para os ativos brasileiros, o desempenho futuro das empresas dependerá também de fatores como demanda global, custos de produção, eficiência logística e preços internacionais.
O desafio será conciliar estabilidade econômica, competitividade industrial e continuidade dos investimentos que transformaram Mato Grosso do Sul em um dos principais polos mundiais de produção de celulose.
Atualização: manhã de 26/10/2026. Os percentuais apresentados correspondem às negociações iniciais e aos contratos futuros, não ao fechamento do Ibovespa à vista.
