Cotidiano

Captações de órgãos na Santa Casa de Araçatuba beneficiam mais de 600 pacientes em 11 anos

Evento alusivo ao Setembro Verde foi marcado por homenagens e entrega de certificado recebido da Central Estadual de Transplantes


- Agência Trio Notícias
20/09/26 às 13h10
Certificado foi entregue pela enfermeira Regiane Sampaio (Foto: Reprodução)

A Santa Casa de Araçatuba (SP) foi reconhecida como referência para a captação de órgãos na região, pela Secretaria de Estado da Saúde. A certificação simbólica entregue à direção do hospital celebra os 11 anos de credenciamento da Santa Casa junto ao Ministério da Saúde, como núcleo de referência do SUS (Sistema Único de Saúde) para a coleta de órgãos e córneas.

Nesses 11 anos de atividade, foram realizados 462 protocolos de morte encefálica, que resultaram em 162 captações efetivas, com 358 órgãos transplantados. Os rins vêm em primeiro lugar, com 238 órgãos do tipo captados. Na sequência vem fígados (90), corações (18), e pulmões (6).

Além desses órgãos, também foram captados ossos de nove doadores, que beneficiaram dezenas de pessoas em cirurgias ortopédicas complexas e tratamentos de tumores. Outros 31 pacientes tiveram válvulas cardíacas captadas, ajudando a corrigir disfunções graves e defeitos congênitos em crianças e adolescentes.

Segundo a Santa Casa, cada doação do tipo pode beneficiar até quatro pessoas. Por fim, no período também foram captadas as córneas de 204 doadores.

Campanha

O certificado oferecido ao hospital foi entregue na última terça-feira (15), durante o evento denominado “Órgãos que salvam, vidas que recomeçam” , alusivo ao Setembro Verde. A campanha busca conscientizar a população sobre a importância da doação de órgãos.

A ação está relacionada ao Dia Nacional da Doação de Órgãos, a ser comemorado no próximo domingo (27), e que tem como objetivo incentivar as pessoas a expressarem a vontade aos familiares, ainda em vida, de doar órgãos.

Certificado

A cerimônia teve a presença da coordenadora da OPO (Organização de Procura de Órgãos) do HB (Hospital de Base) de São José do Rio Preto, enfermeira Regiane Sampaio, que também é responsável técnica pelo Banco de Olhos do HB de Rio Preto.

Ela fez a entrega oficial do certificado e também ministrou palestra para o público presente, composto em grande parte por profissionais da Saúde e estudantes do curso de Medicina do Unisalesiano.

“Eu tenho o prazer de dizer que estou acompanhando toda essa trajetória da Santa Casa (de Araçatuba) desde as suas primeiras reuniões com as diretorias que eram na ocasião, então é só muito orgulho” , declarou.

Regiane explicou que o HB de Rio Preto é a referência para a Santa Casa de Araçatuba, que é reconhecida pelo Sistema Nacional de Transplantes, que promove um evento anual, no qual o hospital foi homenageado. “Não é a primeira vez e tenho certeza que não será a última” , afirmou.

Tecidos

Segundo o hospital, as doações de tecidos cresceram consideravelmente nos últimos anos. NO caso da captação de córneas, que contabilizou nove doadores em 2015, esse número saltou para 85 doadores de janeiro a agosto deste ano.

“O avanço se deve ao aumento de integrantes da equipe, fator que possibilita busca ativa diária em casos de óbito por parada cardíaca, permitindo a retirada do tecido ocular (enucleação) em até 6 horas após a morte” , informa nota divulgada à imprensa.

A Santa Casa informa que anualmente são registradas mais de 40 notificações sobre possíveis doadores, incluindo por morte encefálica e por parada cardiorrespiratória. Quando o óbito for por parada cardíaca, é possível captar ossos, válvulas cardíacas e córneas.

Equipe própria

No caso das córneas, os enfermeiros realizam o procedimento no próprio hospital, após autorização dos familiares, e entregues ao Banco de Olhos do HB de Rio Preto.

Para que esses órgãos cheguem ao destino no prazo necessário, o transporte é feito por veículos da Secretaria de Saúde de Araçatuba, que mantém compromisso com o hospital de oferecer a logística de transporte necessária.

Durante o evento no início da semana, a direção da Santa Casa também fez questão de homenagear a Guarda Municipal, responsável pela escolta das equipes que realizam a captação de órgãos no trajeto do aeroporto até o hospital.

Certificação reconhece o bom desempenho do hospital

Foto: Lázaro Jr.

Para a Santa Casa de Araçatuba, a certificação recebida no início da semana reconhece o bom desempenho do hospital na busca de doadores e captação de órgãos. Por ser referência em alta complexidade para 40 cidades, a instituição se destaca nas áreas de neurologia clínica e neurocirurgia, especialidades fundamentais para o diagnóstico de possíveis doadores.

A primeira comissão interna para a captação de órgãos da Santa Casa foi implantada em 2015 e, em dezembro de 2025, esse serviço foi elevado ao status de e-DOT (Equipe Hospitalar), após uma reestruturação do Ministério da Saúde.

Essa equipe atua diretamente na busca ativa de potenciais doadores, que são pacientes em ventilação mecânica e sem resposta neurológica. Os profissionais apoiam o diagnóstico de morte encefálica, que segue um protocolo rígido.

A avaliação é feita por dois médicos diferentes e um exame complementar que comprova a ausência total de atividade cerebral. Na Santa Casa, a e-DOT conta com o suporte de diversos médicos do corpo clínico.

Convencimento

Além do diagnóstico, a equipe realiza o acolhimento e a entrevista com os familiares, para esclarecer o quadro do paciente e apresentar a opção da doação. Confirmada a autorização, os profissionais cuidam da manutenção do doador, por meio de aparelhos, até a chegada das equipes cirúrgicas de captação.

O coordenador da e-DOT da Santa Casa de Araçatuba, médico Rafael Saad, explica que nem todo protocolo se transforma em doação. Isso ocorre quando um fluxo mínimo de sangue intracraniano não confirma a morte encefálica, por exemplo. “Também há contraindicações médicas, como parada cardíaca durante o protocolo, doenças oncológicas ou sepse” , informa.

Outra causa é a recusa familiar, apesar de a Santa Casa de Araçatuba registrar índice de recusa familiar de 23%, contra 45%, que é a média nacional de 45%, segundo a ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos).

Pacientes transplantados também são homenageados em evento

Pacientes transplantados foram homenageados (Foto: Lázaro Jr.)

Dois pacientes que receberam órgãos transplantados foram homenageados durante o evento alusivo ao Setembro Verde, promovido pela Santa Casa de Araçatuba no início da semana passada, representando as centenas de pessoas que ganharam a chance de recomeçar graças à doação de órgãos.

Um deles é integrante do corpo de colaboradores do próprio hospital. O enfermeiro Robson Abdias de Macedo, 51 anos, passou por um transplante de córnea no olho esquerdo em 1997, devido a uma doença degenerativa.

Como a doença avançou para o olho direito, ele precisou de um segundo transplante, que foi realizado com sucesso em 2018. Atualmente o enfermeiro integra a equipe de enfermagem clínica da Santa Casa de Araçatuba.

De filho para mãe

A outra homenageada na cerimônia Graziele Furquim do Amaral de Farias, que recebeu um rim doado pelo próprio filho, vítima de um acidente de trânsito quando com moto. A Santa Casa informa que em 2018, quando ela tinha 32 anos, teve uma crise severa de hipertensão, que paralisou os rins e, posteriormente, ela também perdeu a visão.

O filho dela, Kauan, com 16 anos na época, acompanhava o tratamento da mãe e queria doar um rim a ela. Por ter menos de 18 anos, ele prometeu que faria a doação ao completar 23 anos, a idade mínima exigida por lei.

Porém, quase cinco anos depois, no primeiro dia de 2023, o rapaz sofreu um acidente de moto, com traumatismo craniano, e a morte encefálica foi confirmada dois dias depois. Mesmo sob o impacto da perda, Graziele autorizou a doação de órgãos.

Lei

Como a legislação brasileira determina que parentes de até quarto grau que aguardam na fila de transplantes têm prioridade para receber órgãos de um familiar doador, no dia 5 de janeiro de 2023, Graziele recebeu o rim do próprio filho.

Com o transplante, a paciente se libertou das exaustivas sessões de hemodiálise e segue em acompanhamento semestral com a equipe do Hospital do Rim, carregando no próprio corpo o maior legado de amor do filho.

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