Cultura

Grupo de maracatu completa dois anos em Araçatuba

Baque D´Orum, coletivo formado por pessoas de Araçatuba e região, foi premiado neste ano e vislumbra planos para o futuro

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
27/09/20 às 19h00
Grupo em apresentou que marcou encerramento de projeto, no ano passado (Foto: Divulgação)

O grupo de maracatu Baque D´Orum traz fundamentos ideológicos, percussivos, culturais e religiosos do maracatu nação, típico do Estado de Pernambuco, para Araçatuba (SP). Em novembro, o grupo, formado por pessoas do município e região, completa dois anos, com expectativas para novos projetos.

Na 17ª edição no prêmio Troféu Odette Costa, o coletivo, por meio da sua fundadora, a veterinária e batuqueira, Aline do Nascimento Benitez,  venceu na categoria “cultura popular”. O Hojemais Araçatuba aborda a história dos projetos vencedores da premiação, com uma série de reportagens (no final da matéria, confira as reportagens publicadas).

O Baque D´Orum responde para a centenária nação do maracatu Porto Rico, de Recife, fundada em 1916. Com isso, o coletivo conta com o apoio e apadrinhamento do batuqueiro da nação, Luiz Gomes da Silva, o “Água”.

Atualmente, de acordo com Aline, o coletivo vivencia uma fase de expectativas, projetando as próximas ações, já que algumas atividades não puderam sair do papel neste ano devido à pandemia do novo coronavírus.

Sede

Uma dessas expectativas está relacionada ao pedido enviado pelo grupo para a Prefeitura, no ano passado, solicitando um espaço para que possam montar a sede oficial. Segundo Aline, o coletivo indicou um espaço que não estava sendo utilizado e aguarda a resposta do prefeito.

“Neste mês, recebemos a resposta de que o pedido está no gabinete do prefeito. A esperança é de que abracem a causa e apoiem a gente. O maracatu não é só a oficina percussiva. Tem muita coisa”, destaca.

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Projeto por meio do ProAC foi realizado na Estação Cidadania (Foto: Divulgação)

A partir disso, a fundadora do Baque D´Orum conta que o plano é colocar em prática no município as atividades que já são desenvolvidas na nação Porto Rico. “Pretendemos desenvolver tudo aqui. O maracatu tem o cunho social e educativo muito importante, além do percussivo. O ritmo do maractu traz as pessoas. Quando vamos aos bairros, a gente percebe a aproximação mas ainda causa um estranhamento. Então, primeiro, precisamos desse cantinho”, detalha.

Antigamente, o local de encontro dos batuqueiros era a praça Getúlio Vargas. O grupo também estava se encontrando todos os domingos no bairro Águas Claras, a partir das 16h30, mas devido a uma ameaça recebida, os ensaos abertos foram suspensos temporariamente. O coletivo também tem uma sala cedida pela Secretaria Municipal de Cultura, que está aberta para ensaios, às quartas feiras à noite, mas ainda não foi utilizada por conta da pandemia.

Projetos

O grupo comemora algumas conquistas, como a seleção no edital de apoio a projetos de formação, preservação e fomento cultural, pelo ProAC Municípios, Programa de Ação Cultural do Estado. Com isso, durante os meses de setembro, agosto e outubro do ano passado, aos domingos, o coletivo realizou o projeto “Maracatubá: a vinda dos saberes do maracatu nação para Araçatuba”, com diversas oficinas de instrumentos musicais utilizados no maracatu, turbante, dança e canto, entre outros.

A iniciativa foi realizada na Estação Cidadania, no bairro Atlântico, e contou com a participação de batuqueiros nativos de Recife (PE). O encerramento do projeto contou com um encontro de culturas populares e urbanas atuantes na cidade, na praça João Pessoa.

O grupo ainda esteve em Lins, protagonizando um dia de vivências no município, no evento “Com elas: Baque D`Orum, tradição e axé da Nação do Maracatu Porto Rico”. O coletivo também participou de três dias de vivências em Sorocaba, no evento “5º Xirê Mukumby” , onde, segundo Aline, foi possível receber pela oralidade os ensinamentos direto do encontro com o mestre Chacon Viana da Nação Porto Rico e a mestra Joana Cavalcante, da Nação Encanto do Pina, além de batuqueiros de diversos grupos que atuam nos estados de São Paulo, Santa Catarina e Paraná.

Aline, fundado do grupo, recebendo o prêmio no teatro Castro Alves (Foto: Alex Tristante/Prefeitura)

Depoimento

"O troféu Odette Costa, para o grupo de Maracatu Baque D´Orum, veio ao encontro de um dos objetivos do nosso trabalho, que é de dar visibilidade ao maracatu de baque virado, além da territorialidade pernambucana.

O reconhecimento formal da existência das culturas de matrizes africanas no município auxilia no combate ao racismo e à intolerância religiosa, apresentando para a sociedade civil, a beleza, a riqueza cultural e o respeito associados a essas manifestações.

Desde a colonização, os povos de matriz africana foram severamente oprimidos e com muita sabedoria, conseguiram manter a sua cultura, transmitindo os conhecimentos dos mais velhos aos mais novos pela oralidade. Os registros que temos sobre esses povos nos jornais e livros de história trazem a sua cultura como algo feio e desorganizado, mas quando temos acesso a essa informações, e mais ainda quando conseguimos apresentá-las à sociedade com respeito e comprometimento ao seu fundamento, significa que colaboramos para que ela seja registrada sem distorções de interpretação.

Como mulher branca, do interior de São Paulo, infelizmente só fui ter contato com o maracatu aos meus 29 anos e me sinto privilegiada de ter sido acolhida e autorizada por um mestre de uma das mais importantes nações de maracatu de Recife, a centenária Nação Porto Rico, a desenvolver esse trabalho em Araçatuba, minha cidade Natal.

O meu compromisso com o maracatu é além da cultura, é social, porque o maracatu melhora a vida da gente, o maracatu traz força pra luta diária. Eu quero mesmo é que mais e mais pessoas não precisem esperar 29 anos, como eu, pra terem o prazer e a alegria de vivenciar esse baque tão especial, que nos renova naqueles dias tristes, que ocupa a cabeça com coisas boas pra ajudar as dificuldades da vida.

Para toda comunidade de Araçatuba, fica o convite para estar conosco nas tardes de domingo, especialmente ao povo de matriz africana, porque o maracatu é deles". ( Aline do Nascimento Benitez). 

Série Troféu Odette Costa
Maracatu
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