Cultura

Maracatu: um pedacinho de Recife em Araçatuba 

Grupo de maracatu Baque D´Orum traz a cultura e costumes do povo de matriz africana 

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba
24/03/19 às 14h00
Integrantes do maracatu Baque D´Orum (Foto: Manu Zambon)

Mais de dois mil quilômetros separam Recife, em Pernambuco, do município de Araçatuba (SP). Porém, há o que aproxime as duas localidades, tornando a distância geográfica um mero detalhe. Desde novembro do ano passado, o maracatu de baque virado, ou maracatu nação, tem feito parte da vida de um grupo formado por araçatubenses e biriguienses que busca disseminar esse tipo de manifestação cultural do povo de matriz africana. 

Em Araçatuba, o grupo recebe o nome de Baque D´Orum e já ensaia seus repertórios e danças há pelo menos três meses. O grupo de percussão tem aproximadamente 20 integrantes e se reúne duas vezes por semana na praça Getúlio Vargas. Na quarta-feira, os batuqueiros, como se autodenominam, se encontram às 20h e aos domingos, às 16h.

Em dias chuvosos, eles se reúnem na antiga estação ferroviária, ao lado do terminal de transporte urbano, no Centro. De acordo com a fundadora e líder do Baque D´Orum, a veterinária Aline do Nascimento Benitez, quem tiver interesse em participar dos encontros, é só comparecer no local, em uma das datas e horários. Não é preciso saber tocar nenhum instrumento e ter tido experiência prévia com música. 

O grupo criado no município é de maracatu de baque virado. Tem instrumentos específicos, danças e loas - como são chamadas as músicas tocadas no movimento - que fazem parte da cultura popular brasileira. O maracatu também é um ícone da africanidade em Pernambuco e comumente é reconhecido, mesmo que de maneira incorreta, como expressão do folclore.

O Baque D´Orum responde para a centenária nação do maracatu Porto Rico, de Recife, fundada em 1916, a qual possui como líderes atuais a Mãe Elda de Oxóssi e o Mestre Chacon Viana. Em Pernambuco, o maracatu nação Porto Rico tem sede na favela do Bode, que fica no Bairro do Pina, em Recife, onde, como ponto de cultura, desenvolve o ensino que vai além da percussão, com um trabalho social gratuito e ininterrupto por meio de aulas de inglês, capoeira, corte e costura e reforço escolar, entre outras atividades.

“E esse maracatu nação é uma manifestação de negros que foram escravizados em algumas regiões da África e foram deportados. No Brasil, eles usaram esse movimento, que tem vários elementos, para trabalhar sua religiosidade, seus costumes, de uma forma escondida do homem branco”, explica Aline.

Apesar de ter ligação com o maracatu nação, Aline explica que o movimento em Araçatuba não tem a característica de nação, por não estar fundamentado em um terreiro de candomblé, e sim de grupo de percussão. 

Ensaio acontece duas vezes por semana (Foto: Manu Zambon)

Surgimento

A veterinária conta que o grupo surgiu após ela ter retornado ao município, depois de ter morado por 15 anos em Londrina (PR), onde fazia parte, desde 2010, de um movimento de maracatu da cidade, o Semente de Angola. Quando chegou em Araçatuba, sentiu falta de um grupo por aqui para tocar, dançar e ter momentos de descontração. 

Ela entrou em contato com várias pessoas e decidiu criar o seu grupo. Conversou com o mestre da nação maracatu Porto Rico, que já teve contato pessoalmente, e o mesmo autorizou a criação do grupo em Araçatuba.

Aline reuniu algumas pessoas interessadas e parceiros, incluindo o Centro Cultural Obadará, e começou a divulgação. Após as primeiras reuniões, os integrantes, ou batuqueiros, foram para as ruas.

Os grupos de maracatu mais próximos de Araçatuba estão em Bauru e em São José do Rio Preto, afirma Aline. No município, a expressão é inédita.

Mesmo sendo um grupo novo, o maracatu Baque D´Orum já se movimenta para ganhar destaque. Recentemente recebeu batuqueiros de um grupo irmão vindo de Foz do Iguaçú (PR), o Alvorada Nova, que estiveram com os integrantes daqui para passar suas experiências e instruções.  A viagem foi patrocinada pela Afroec (Associação Afro de Cultura e Empreendedorismo), de Araçatuba.

Outra ação que já está sendo articulada pelo movimento é a promoção de uma oficina de construção de instrumentos tradicionais e de percussão no Sesc de Birigui, com a participação de batuqueiros da nação Porto Rico. 

Aline, líder do grupo, é a criadora do maracatu Baque D´Orum (Foto: Manu Zambon)

Instrumentos  

Os instrumentos utilizados nos ensaios do maracatu são específicos. Caixa, tarol, ganzá (ou mineiro), gonguê, tambores/alfaias e agbês, feitos artesanalmente com madeira, cordas, cabaças e miçangas, integram o movimento. E o apito, que é o instrumento que rege todo o “baque”. 

Os tambores já eram da Aline, herança da nação Porto Rico. Outros integrantes levaram seus instrumentos e o grupo de Foz do Iguaçú presenteou o Baque D´Orum com um agbê, miçangas e uma caixa.

Os ensaios são flexíveis e atendem a demanda do grupo. No repertório, loas que são tradicionais em todo Brasil e que contam a história dos negros que foram escravizados no País. “Na nação Porto Rico, os negros vieram da região de Nagô e o maracatu foi uma das formas que essas pessoas encontraram para se manifestar cultura, história e sua religiosidade”.

As loas têm em comum a africanidade. Algumas falam dos orixás, outras retratam o sofrimento dos escravos, que pediam ajuda e louvavam por meio do canto, e outras contam a história da própria nação, destaca a líder. Estima-se que o maracatu de baque virado provavelmente tenha surgido nos séculos XVII e XVIII.

Experiência

A maioria dos integrantes não tinha tido a experiência de participar de um grupo de maracatu. A advogada Flávia Nascimento dos Santos, de 22 anos, de Araçatuba, tinha visto uma apresentação em Ilha do Cardoso (SP). “Eu sempre achei o maracatu algo lindo e cheio de energia, olhava e me identificava, eu me reconhecia ali. Quando a Aline veio para Araçatuba e trouxe o maracatu, logo fui fazer parte do grupo. Desde de então vem sendo uma das melhores experiências da minha vida”, diz Flávia.

De acordo com ela, fazer parte do maracatu aproximou-a da sua ancestralidade e da religião. “Todas as energias em que acredito e tenho fé. O maracatu te vibra por dentro. Quando estou tocando, meu corpo e meu coração pulsam no mesmo ritmo do baque (...). Fico feliz demais de podermos ter em nossa cidade. Maracatu é patrimônio do Brasil”.

Arte oficial do grupo

Para a professora Maria Fernanda da Mata, de 28 anos, o contato com o maracatu tem provocado um sentimento bom em todos os batuqueiros. “Falando por mim, fico muito contente, porque fazia tempo que eu não me sentia tão engajada em algo que não fosse relacionado à trabalho. É uma coisa que eu estou gostando e quero fazer, e quero que dê muito certo”.

Maria Fernanda conta que por meio do maracatu está conseguindo aprender mais sobre a cultura dos seus ancestrais. “Tudo é muito rico, tem muita história, e a gente começa a entender o valor que tem. É muito legal que a gente esteja conseguindo trazer um pouquinho dessa cultura para cá”, finaliza.

Futuro

"O Baque D’Orum pretende alcançar todos aqueles que, assim como os integrantes atuais, procuram algo para se divertir e para apreender e que por meio disso possa manter uma relação saudável e respeitosa com a cultura pernambucana e com a história dos povos tradicionais de matriz africana, aqui na região de Araçatuba. O sonho estará completo, de fato, quando a gente conseguir replicar aqui, o trabalho social que a nação realiza lá em Recife e nos deixa de exemplo", finaliza Aline. 

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