Caique é um dos personagens da série produzida pelo
Hojemais Araçatuba
, que revela a história de cada um dos vencedores da 17ª edição do Odette Costa (confira no final do texto todas as matérias da série).
Atualmente, ele é professor de dança contemporânea na Escola Municipal de Dança de Araçatuba (antigo Balé Municipal) e desde 2017 está como diretor-geral do Festara (Festival de Teatro de Araçatuba).
O profissional, que foi um dos responsáveis pela vinda da cantora Elza Soares no encerramento da edição de 2018 do Festara, conta como se interessou pela arte e relata alguns pontos de sua trajetória.
Apoio
Nunca tive uma família artista, mas uma avó por parte de pai tinha esse lado artístico aflorado e de incentivo à cultura. Ela trabalhava com carnaval, moda; sempre quando ia pra casa dela, ia ao teatro ou em alguma coisa que fosse cultural. Desde pequeno acompanhei isso; minha vontade era ser ator. Conforme fui crescendo, tive o apoio dos meus pais também.
Então, resolvi fazer teatro. Iniciei em Araçatuba num curso oferecido pela Secretaria Municipal de Cultura durante alguns meses, semanalmente. O curso acontecia no teatro Paulo Alcides Jorge. Araçatuba ainda não tinha curso de teatro para a minha idade, pois o Senac tinha acabado de abrir o curso técnico aqui, em 2010.
Dança
A dança surgiu em paralelo na mesma época. Antes de abrir esse curso do Senac, fui fazer dança, porque achei que seria importante, que ia me ajudar muito nos meus trabalhos e melhorar meu corpo. A dança entrou na minha vida para agregar, para somar no teatro. Na época, achava que o teatro era o único trabalho que eu ia exercer. Mas essas duas artes andaram sempre juntas. Colocava a dança nas expressões do teatro e fazia a mesma coisa na dança.
Sempre soube que iria trabalhar com arte, mas nunca pensei que poderia trabalhar com a dança. Veio como um bônus. Hoje, trabalho nessa área faz cinco anos na Escola Municipal de Dança, dando aula de contemporâneo.
A dança me trouxe algo importante para qualquer artista e pessoa que está dentro da área. Claro que, muitas dessas coisas que eu fortaleci dentro da dança, aprendi em casa. Dançar me ensinou sobre responsabilidades, comprometimento, respeito (...). O aluno de dança tem que ser pontual, respeitar hierarquia; todas essas questões são muito importantes no movimento artístico.
Para os meus alunos, tento mostrar que não estou apenas na sala de aula para ensinar técnica, ritmos, estou para ensinar a vida. Se eles passam muitos momentos comigo, dividem muita coisa e crescem comigo, eles têm que aprender algo além da dança. Então, tento ser um espelho. Formar artistas pensantes, que querem uma sociedade melhor.
Caminhos
Acredito que os caminhos me levaram à gestão e produção cultural, porque sempre fui muito jovem quando essas aconteceram. Tudo iniciou na Associata (Associação dos Artistas Teatrais da Região de Araçatuba), quando o Alexandre Melinsky (até então diretor da associação) disse que ia sair e pediu para eu continuar. Logo depois (2015) veio o Festara, projeto que me envolveu também. Os caminhos me levaram a isso.
O Festara é um projeto pra cidade toda, movimenta de diversas maneiras e traz muitas responsabilidades. É algo grande.
(Foto: João F. Tavares Kawasaki/Arquivo pessoal)
Logo em seguida veio o Conselho Municipal de Políticas Culturais (onde ocupou a posição de presidente entre 2018 e 2020). A gente tem que pensar política pública, gestão cultural. Eu nunca tinha pensando em ser presidente, mas penso que a força de vontade, a garra, fazem parte de mim. Não tenho pensamento de que as coisas vão dar errado.
Então, aceitei sempre os desafios e eles aconteceram naturalmente. Com medo e dúvidas em alguns momentos, mas nunca pensei em desistir.
Prêmios
O primeiro troféu que recebi foi em 2016, na categoria teatro com a peça Senhora D, um solo da Hilda Hilst. Na época, eu e mais alguns amigos formamos a companhia Obscenos e fizemos esse espetáculo que circulou na região e Araçatuba. Depois, as premiações ocorreram com o Festara, nas categorias teatro e prêmio especial.
Agora vieram mais dois prêmios, como produtor autônomo, pelos últimos anos de trabalho na produção cultural e por todos esses anos atuando na área, e em mídias livres, com a idealização do projeto Solos em Quarentena, que foi a primeira mostra totalmente on-line de múltiplas linguagens da nossa cidade. Foi uma ação muito interessante nessa pandemia e conseguimos envolver pessoas da cidade e de outros lugares.
Elza Soares
O meu trabalho na produção cultural me deu a possibilidade de estar onde estou. É uma trajetória de crescimento. Estou aprendendo, porque não sei tudo. O Festara é o divisor de águas nesse sentido. É onde consigo mostrar meu trabalho, essa produção que exerço, sendo uma grande vitrine pra mim e me dando a oportunidade de mostrar que Araçatuba tem profissionais muito competentes na área do teatro.
Todos que acompanharam o Festara nos últimos anos, sabe que em 2018 foi a edição mais desafiadora. Além do recorte específico do tema (Descolonize sua Mente), a gente trouxe Elza Soares. Não pela grandiosidade do evento, mas toda a dificuldade que nós, eu e a Giulia Sorpilli, Secretaria de Cultura e Sesc, tivemos para conseguir finalizar toda essa contratação.
Foi desgastante, cansativo, mobilizou muita gente. Desde um carro particular para ir buscá-la fora daqui até uma equipe que se desdobra para atender as necessidades de uma artista cadeirante, de 90 anos. (...) E na hora que aquela artista (Elza) coloca o pé na nossa cidade e posta nas suas redes sociais “Cheguei, Araçatuba”, a gente se transborda de alegrias e amor, e pensa que estamos fazendo a coisa certa.
Então, quando aquela potência sobe ao palco, o público, que era o maior que vi no Festara, vai ao chão, cantando, é aí que a gente entende todo o nosso trabalho. Ele se concretiza no contato do artista com o público. Mas além dessa emoção, temos um grande problema nas mãos: a a produção de todo aquele momento. O artista só deixa de ser nossa responsabilidade quando termina e vai embora para a sua cidade.
No caso da Elza, ela termina o show e foi para o camarim. O público foi lá para trás da caixa d´água (o show foi realizado na praça João Pessoa), onde fica a entrada do camarim. A gente se perguntou: como tirar ela de lá? Então ela fala que queria sair do camarim andando e ela sai em pé. Ficamos sem entender tudo aquilo.
Ela entra dentro do carro, abre a janela do carro e ainda conversou com o público. Foi um dos momentos mais emocionantes de toda essa trajetória. Tivemos muitas mãos que se juntaram. Fico feliz e muito grato por tudo isso, por essas possibilidades, que eu e toda a equipe com quem trabalho, e ela se renova a cada festival, junto com a secretaria de cultura e Sesc, conseguimos fazer. É importante não só pra mim, mas para todos, porque nosso trabalho é para toda cidade, para os artistas.