A expressão “vou colocar seu nome no meu caderninho” fará muito sentido após você conhecer a obra Death Note. Publicado pela primeira vez em 2003 em uma das principais revistas do Japão, a Shõnen Jump, o mangá criado por Tsugumi Ohba, com ilustrações de Takeshi Obata, apresenta uma história de muito suspense com leves toques de horror.
Ryuk é um Shinigami (Deus da Morte da cultura oriental), e está entediado demais em seu próprio mundo. O demônio, assim como outros de sua espécie, é portador de uma relíquia, uma arma mortífera: um caderno que quem tiver o nome escrito morrerá de um ataque cardíaco após 40 segundos. Este é o Death Note e é com ele que Ryuk vem para o mundo humano transformar a realidade de todo planeta.
O objeto é encontrado por Light Yamagi, um estudante que vive em Tóquio e que, assim como Ryuk, está cansado de sua vida simples e monótona. O Death Note possui uma série de regras para o uso do portador, uma delas garante que o dono do caderno também pode descrever a maneira como deseja “assassinar” as suas vítimas.
Prestes a entrar neste jogo de ceifador, Lighty testa as habilidades do Death Note após acompanhar uma notícia de um sequestro em uma creche. Ao escrever e visualizar o rosto do criminoso, outra característica para que a morte seja concluída, o mesmo morre após uma parada cardíaca.
Incrédulo com a coincidência, Light testará uma segunda vez o caderno. Após presenciar uma tentativa de estupro a uma garota por um grupo de três homens, o protagonista descreve, brutalmente, como será a morte de um deles, o que se confirma.
Com um grande “poder” nas mãos, Light resolve limpar o mundo de toda a maldade. Na premissa “bandido bom é bandido morto”, ele começará a executar os criminosos que estão presos e que a polícia está à procura em todo mundo.
Embora desenvolva o verdadeiro papel de “Deus da Morte”, o objetivo de Light é purificar o mundo para que possamos viver em uma sociedade sem crimes.
Gato X Rato
A “limpeza” secreta por Light se torna uma verdadeira caça de gato e rato quando o principal detetive do mundo decide aparecer e desafiar quem quer que esteja matando todas essas pessoas. Afinal, se este assassino tem ceifado criminosos, qual a chance dele também matar pessoas que jamais realizaram qualquer tipo de maldade?
O detetive L (se lê “ele”) desafia Light, agora com a alcunha de Kira (do inglês Killer/Assassino), a sair das sombras e se entregar.
O roteiro proporcionaria sacadas inteligentes nessa disputa, já que agora o alvo de Kira passa a ser o principal opositor no seu sonho de transformar o mundo. De quebra, ambos se aproximarão, já que o pai do personagem – em uma escolha do criador para avançar com a trama – é chefe da polícia local.
O embate entre a justiça dos homens e a justiça de Light/Kira é tão grandioso, que até o FBI é envolvido na trama, assim como a imprensa de todo planeta.
A história ainda apresentará outros cativantes personagens, como interesses amorosos para o protagonista (que infelizmente serão inferiorizadas pelo charme e manipulação de Light), assim como a presença de demais Shinigamis que, apesar da aparência, são o alívio cômica da tensa história.
Adaptações
Todo bom mangá publicado na Terra do Sol Nascente ganha sua adaptação em animação. O anime de Death Note não seria uma exceção. Com início de exibição pouco após o término da obra escrita, a história televisionada de Light, L e Ryuk se espalhou e se popularizou no mundo todo. Com apenas 37 episódios, os fãs dividiram a trama em duas partes (sendo a primeira altamente elogiada e a segunda contrariando todas as opiniões).
A Madhouse Studio foi a responsável por animar a série, garantido uma qualidade extrema nos traços, colorização e criando uma trilha sonora icônica. O estúdio também é famoso por outros sucessos, como Hunter X Hunter, adaptações em anime dos heróis da Marvel, como Wolverine e Homem de Ferro, além da clássica série Beyblade, que foi febre durante o início dos anos 2000 no Brasil.
Com a migração para animação, o mangá também ganharia vida em outras adaptações, como um musical no Japão, um dorama e cinco filmes live-actions, sendo quatro deles japoneses (dois dando continuidade aos eventos do anime e outros dois sendo spin-offs), e uma adaptação estadunidense para a Netflix um tanto quanto fora de toda a seriedade e importância que a obra trouxe para a cultura pop no início dos anos 2000. Salvo a escalação de Williem Dafoe para a voz de Ryuk, embora a personalidade do Shinigami tenha sido totalmente alterada.
Após 18 anos, obra continua atual
Misa e Light: ela é tão apaixonada por ele que não se dá conta da relação tóxica que vive (Foto: Madhouse Studio)
Provavelmente quando Tsugumi Ohba começou a escrever a história, ele não imaginava que seu principal personagem teria zilhões de apoiadores no mundo atual, o que também acontecerá na publicação, mas de forma muito mais contida e sigilosa.
Nos últimos tempos, os discursos de ódio ganharam cada vez mais adeptos. As pessoas não possuem mais pudor e respeito pelo próximo, expondo suas opiniões, principalmente no meio digital. Com isso, é certo afirmar que Ligth/Kira teria seguidores aos montes, assim como hoje vivenciamos o extremismo político, racial, preconceituoso e religioso de todo mundo.
As mulheres que há anos vem lutando por direitos igualitários são colocadas como meras servas dos personagens, embora aqui haja muito do estereótipo e persona da mulher japonesa, Ohba parecia prever como falaríamos de relações tóxicas, colocando diversos e excelentes exemplos na trama.
É nítido que ao acompanhar a trama, você estabeleça uma torcida entre Kira ou L. Mas, vai por mim, o único que merece a sua feição é o próprio causador de toda essa trama, o personagem que representa toda o anseio e emoção do público, Ryuk, o não tão Deus da Morte.
Foto: Arquivo pessoal
Marlon Ferri é jornalista em São José do Rio Preto (SP), músico, escritor e apaixonado pela cultura pop/nerd desde a infância.