Opinião

Aposentadoria dos agentes de saúde: o que muda com a PEC 14/2021 e o que ainda falta para valer

"A esses trabalhadores a proposta promete uma aposentadoria em idade inferior à da regra geral"

Heloísa Helena Silva Pancotti
16/07/26 às 16h51

Em 14 de julho de 2026, poucos dias antes do recesso, o Senado aprovou em dois turnos a PEC 14/2021 e encerrou a tramitação de uma proposta que vinha em discussão desde o começo da década. As galerias do Congresso estavam ocupadas por agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias, a categoria que o relator da matéria no Senado, senador Irajá, descreveu como o SUS de carne e osso.

A imagem não é retórica gratuita. São mais de trezentos e setenta mil profissionais que sustentam a atenção básica no território, muitas vezes nas periferias e nas zonas rurais onde o Estado só chega pela porta de quem bate de casa em casa. A esses trabalhadores a proposta promete uma aposentadoria em idade inferior à da regra geral.

O texto agora segue para a promulgação, mas existe uma distância relevante entre aprovar uma emenda e vê-la produzir efeitos, e é justamente essa distância que interessa a quem vai depender da norma.

O que a PEC 14/2021 estabelece

A regra permanente fixada pela proposta prevê aposentadoria com idade mínima de 57 anos para mulheres e 60 anos para homens, desde que comprovados 25 anos de contribuição e de efetivo exercício na atividade. É um patamar sensivelmente mais baixo do que o da regra geral vigente desde a última reforma da Previdência, que exige, no mínimo, 62 anos para mulheres e 65 para homens.

Até que a idade permanente se consolide, o texto instituiu um calendário de transição que sobe de forma escalonada. A idade mínima começa em 50 anos para mulheres e 52 para homens até o fim de 2030; passa para 52 e 54 anos até o fim de 2035; sobe para 54 e 56 anos até o fim de 2040; e chega a 57 anos para mulheres e 60 para homens a partir de 2041. Em todos os degraus, permanece a exigência de 25 anos de contribuição e de exercício na função.

Há ainda dois mecanismos que suavizam o requisito etário. O primeiro permite reduzir a idade mínima em um ano para cada ano de contribuição e de efetivo exercício que ultrapasse os 25 exigidos, até o limite de cinco anos. O segundo é uma regra de transição alternativa, por pontuação, que abre a aposentadoria ao agente que reunir, de forma cumulativa, idade mínima de 60 anos para mulheres e 63 para homens, 15 anos de contribuição, 10 anos de efetivo exercício na atividade e um somatório de idade com tempo de contribuição de 83 pontos para mulheres e 86 para homens.

A proposta também trata de períodos que costumam ser esquecidos na contagem de tempo. Assegura o cômputo do afastamento para o desempenho de mandato classista e permite computar o tempo trabalhado em condição de readaptação funcional, quando a mudança de função tiver decorrido de acidente de trabalho, doença profissional ou doença do trabalho. São situações em que o trabalhador não deixou de servir; apenas serviu de outro modo, quase sempre por um desgaste imposto pela própria atividade.

No plano do valor do benefício, o texto distingue os dois regimes. Para os agentes vinculados ao Regime Próprio de Previdência Social, aplicável aos servidores públicos, garante integralidade e paridade, o que significa proventos calculados pela remuneração do cargo efetivo e reajustados na mesma proporção e data dos servidores em atividade.

Para os vinculados ao Regime Geral, administrado pelo INSS, cujos benefícios ficam limitados ao teto, prevê que a União pague um benefício extraordinário correspondente à diferença entre o valor do INSS e a totalidade da remuneração da categoria.

Uma leitura previdenciária da proposta

Vale registrar por que uma categoria recebe tratamento distinto do universo geral de segurados. O agente comunitário de saúde e o agente de combate às endemias exercem uma função de campo, contínua e exposta, que carrega no corpo o desgaste do trabalho territorial.

Reconhecer isso com um critério etário mais brando não é privilégio; é a tradução, na norma previdenciária, de uma realidade concreta de adoecimento e de precarização que acompanha historicamente esses profissionais, muitos deles contratados em vínculos temporários ou precários e sem a estabilidade dos servidores efetivos.

Nessa perspectiva, a proposta se inscreve na velha tarefa da seguridade social de enxergar quem o sistema costuma deixar à margem.

Essa leitura, porém, não dispensa a pergunta mais difícil, que é também a que decide o futuro imediato da norma. Toda extensão de benefício previdenciário precisa se sustentar dentro de um sistema que é de repartição e depende de equilíbrio financeiro e atuarial. É desse ponto que nasce a controvérsia que ainda não está resolvida.

O ponto central: por que a emenda ainda não está em vigor

Aqui convém uma precisão que muda tudo. A PEC 14/2021 não é uma lei comum. É uma proposta de emenda à Constituição, e o rito de aprovação e de entrada em vigor de uma emenda é diferente do de um projeto de lei.

Uma emenda constitucional só é aprovada quando obtém três quintos dos votos, em dois turnos, em cada uma das Casas do Congresso. Foi o que aconteceu. A Câmara dos Deputados aprovou o texto em 2025 e o Senado o confirmou em 14 de julho de 2026, também em dois turnos, sem alterações que exigissem devolução à Câmara. Com isso, a proposta está definitivamente aprovada pelo Congresso.

O passo seguinte é a promulgação. Diferente de um projeto de lei, uma emenda constitucional não vai à sanção do presidente da República e não está sujeita a veto. Ela é promulgada pelas Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, que lhe atribuem o número de ordem e a inserem no texto da Constituição. Depois disso, vem a publicação, e a emenda passa a produzir efeitos na data que o próprio texto estabelecer. No caso, o calendário de transição já indica as idades aplicáveis em cada período até 2041.

Ainda assim, promulgar a emenda não é o mesmo que ver todas as suas regras funcionando de imediato. Boa parte dos efeitos práticos depende de atos posteriores. A forma como a União custeará o aumento de despesa, o pagamento do benefício extraordinário aos segurados do Regime Geral e a efetivação dos agentes que hoje mantêm vínculo temporário, indireto ou precário são pontos que precisarão de regulamentação e de providências dos entes federativos. Para a regularização desses vínculos, inclusive, o texto fixou prazo aos municípios até o fim de 2028. Ou seja, o direito nasce com a emenda, mas a sua plena implementação se dará por etapas.

Há, por fim, um obstáculo que não é legislativo, e sim judicial. Durante a votação, o Ministério da Fazenda sinalizou que poderá levar a matéria ao Supremo Tribunal Federal caso não seja apontada uma fonte de compensação para o impacto, estimado por diferentes projeções do governo entre 27 e 30 bilhões de reais ao longo de dez anos.

O fundamento invocado é o artigo 195, parágrafo 5º, da Constituição, segundo o qual nenhum benefício da seguridade social pode ser criado, majorado ou estendido sem a correspondente fonte de custeio total. Esse é o contra-argumento mais forte contra a proposta, e ignorá-lo seria desonesto. Se prosperar uma eventual ação, a eficácia de dispositivos da emenda pode ser discutida perante o STF, ainda que a promulgação em si não fique impedida por essa via.

Conclusão

O desfecho no Congresso foi expressivo e traduz um reconhecimento real a uma categoria essencial ao SUS. Mas, do ponto de vista técnico, a conquista ainda não está inteiramente amarrada. O que separa a aprovação da vigência plena passa por dois trilhos. O primeiro é institucional e praticamente inevitável: a promulgação pelas Mesas das duas Casas, a publicação e a regulamentação que dará forma ao custeio e à efetivação dos agentes.

O segundo é incerto: a discussão sobre a fonte de custeio, que pode chegar ao Supremo e definir, na prática, quanto da emenda sobreviverá ao teste da sustentabilidade previdenciária. Para o agente que já conta os anos de contribuição, a leitura honesta é esta: o direito está mais perto do que nunca, porém o seu contorno definitivo depende do que vier depois da promulgação.

Foto: Manu Zambon

*Heloísa Helena Silva Pancotti é advogada, consultora jurídica, professora e autora da obra “Previdência Social e transgêneros”

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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