Há uma cena comum na vida de muita gente. A pessoa aceita mais uma tarefa que não queria fazer, concorda com um programa para evitar conflitos ou trabalha além do horário por medo de decepcionar alguém. Parece gentileza. Muitas vezes, porém, é dificuldade de estabelecer limites.
Vivemos em uma cultura que valoriza quem está sempre disponível. Quem diz "não" costuma ser visto como egoísta ou pouco colaborativo. O resultado é um número crescente de pessoas emocionalmente exaustas.
Em 2025, mais de 530 mil trabalhadores brasileiros foram afastados por transtornos mentais, segundo o INSS. Em apenas dois anos, esse número cresceu 134%. Ansiedade, depressão e estresse lideram os diagnósticos. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de um bilhão de pessoas convivam com algum transtorno mental no mundo.
Limites não são egoísmo
Nenhum transtorno mental tem uma causa única. Questões biológicas, sociais e econômicas também pesam. Mas a dificuldade em colocar limites aparece com frequência na clínica psicológica.
O médico austríaco Sigmund Freud, fundador da psicanálise, escreveu em "O Mal-Estar na Civilização" que viver em sociedade exige abrir mão de alguns desejos. O problema começa quando essa renúncia deixa de ser uma escolha e passa a ser um modo permanente de viver para atender às expectativas dos outros.
O pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott, autor de "O Brincar e a Realidade" , descreveu o chamado "falso self": pessoas que escondem sentimentos e necessidades para agradar aos outros. Funcionam bem por fora, mas, por dentro, sentem um vazio crescente.
Nos relacionamentos amorosos, isso costuma aparecer como dependência emocional. O medo de perder o parceiro faz com que a pessoa aceite situações que a machucam, evitando qualquer conflito.
Já o psiquiatra americano Murray Bowen, criador da Teoria dos Sistemas Familiares, defendia em Family Therapy in Clinical Practice, que maturidade emocional significa manter a própria identidade sem deixar de construir vínculos. Em outras palavras, amar alguém não significa desaparecer dentro da relação.
Também vale no trabalho
No ambiente profissional, muitas pessoas confundem comprometimento com submissão. Aceitam sobrecarga, não conseguem recusar novas demandas e permanecem disponíveis o tempo todo.
Esse comportamento pode até parecer valorizado no curto prazo, mas frequentemente leva ao esgotamento. Limites claros favorecem relações de trabalho mais respeitosas e ajudam a preservar a saúde mental.
A pesquisadora americana Brené Brown, professora da Universidade de Houston e autora de "A Coragem de Ser Imperfeito" , resume essa ideia em uma frase conhecida: estabelecer limites é uma forma de respeito consigo mesmo, mesmo quando isso pode decepcionar outras pessoas.
A culpa de dizer "não"
Talvez o maior obstáculo não seja colocar limites, mas lidar com a culpa que vem depois.
A psicóloga americana Harriet Lerner, autora de "A Dança da Raiva" , afirma que toda mudança importante em um relacionamento provoca reações. Quando alguém aprende a dizer "não", quem estava acostumado ao "sim" permanente pode estranhar. Isso não significa que o limite esteja errado.
Pelo contrário. Relações saudáveis suportam diferenças, respeitam escolhas e não dependem da anulação de ninguém.
No fim, vale uma reflexão: quem nunca aprende a dizer "não" aos outros, muitas vezes passa a vida inteira dizendo "não" para si mesmo.
