O fenômeno que se observa nos dias de jogos das seleções de futebol é uma das expressões mais eloquentes da potência humana de produzir afetos e possíveis transformações coletivas. Milhões de pessoas, frequentemente divididas por diferenças socioeconômicas, religiosas, ideológicas e culturais, suspendem momentaneamente – nem se lembram delas - suas divergências para compartilhar uma mesma expectativa, tensão e esperança. Estádios fervilham de espectadores (mesmo com ingressos a preços estratosféricos!), ruas se enchem, praças se transformam em arquibancadas improvisadas, vizinhos se organizam coletivamente para enfeitar o bairro, desconhecidos se abraçam após um gol. Se podemos nos mobilizar emocionalmente em torno de uma partida de futebol, por que não conseguimos produzir a mesma intensidade de engajamento, com mais proeminência, para combater a fome, as guerras, as desigualdades sociais ou os perniciosos preconceitos que assolam o mundo?
A resposta talvez esteja na própria natureza das narrativas que nos atravessam cotidianamente. O futebol oferece personagens identificáveis, objetivos claros, duração definida e emoções intensas. Já as mazelas sociais aparecem comumente como estatísticas abstratas. Uma guerra é, muitas vezes, apresentada em números; já uma partida, com 22 jogadores atrás da bola, em relatos, situações e histórias. Portanto, a fome, para ilustrar, é descrita por índices, mas o futebol, por rostos e emoções. Como aponta Martha Craven Nussbaum, filósofa estadunidense, a imaginação narrativa desempenha, a rigor, papel decisivo na construção da empatia e do acolhimento. Nesse sentido, não raro, sentimos mais intensamente aquilo que conseguimos imaginar concretamente.
A reflexão decorrente dessa observação pode partir dos pressupostos de Baruch Espinosa (1632-1677), filósofo de origem judaico-portuguesa, no que se refere às afecções. De acordo como pensador, somos invariavelmente movidos pelos afetos. Em sua filosofia, os encontros podem aumentar ou diminuir nossa potência de agir, isto é, o nosso conatus . Quando um time entra em campo, por exemplo, ocorre algo semelhante ao que Espinosa chamaria de um encontro feliz, ou seja, o episódio esportivo produz alegria coletiva, pois muitos de nós nos sentimos parte de algo maior do que nós mesmos. Dessa forma, as seleções de futebol tornam-se um símbolo compartilhado consciente que conecta corpos, pertencimento, emoções e expectativas. A potência individual é amplificada pela multidão em prol de um objetivo comum.
Nesse sentido, e em relação às mazelas sociais contemporâneas, Paulo Freire (1921-1997), educador e filósofo brasileiro, destaca o processo de conscientização como instrumento para discernir criticamente as contradições do mundo e, ao mesmo tempo, o reconhecimento das potencialidades para transformá-lo. Certamente, a energia que mobiliza multidões em torno do futebol não precisaria ser eliminada ou substituída. No entanto, poderia ser educada, ampliada e redirecionada. O mesmo afeto que leva alguém a pintar o rosto de verde e amarelo poderia inspirar campanhas de solidariedade, movimentos contra a fome ou ações comunitárias de combate às desigualdades sociais.
Essa possibilidade encontra eco na filosofia africana do Ubuntu, popularizada por pensadores como Desmond Tutu (1931-2021), arcebispo da Igreja Anglicana que foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 1984. O conceito de Ubuntu “eu sou porque nós somos” parte da compreensão de que a humanidade constitui uma única rede de interdependência. Nessa perspectiva, uma pessoa só se torna plenamente humana por meio de suas relações com os outros, de modo que o bem-estar individual esteja intrinsecamente relacionado à vida digna da comunidade. Segundo Tutu, para além de ser um ideal filosófico, Ubuntu é um princípio prático voltado à reconciliação, à justiça restaurativa e à reconstrução de sociedades marcadas por conflitos. Em outras palavras, ninguém é completamente autossuficiente, posto que a humanidade de cada um de nós depende da humanidade do outro. “Minha humanidade está ligada à sua, pois só podemos ser humanos juntos", postulava Tutu.
Quando uma multidão vibra por um gol, essa interdependência é concretamente experienciada. O desafio ético consiste em expandir o círculo da identificação. Se ficamos tristes pela derrota de onze jogadores que nem ao menos conhecemos pessoalmente, por que não nos abalamos com igual intensidade diante da fome de milhões de crianças? Possivelmente, a grande lição filosófica dos jogos da Copa esteja relacionado ao fato de que humanidade não sofre por falta de mobilização afetiva. Ao contrário, demonstra continuamente possuir extraordinária potência para criar comunhão, pertencimento e entusiasmo. Não falta emoção, mas imaginação política mais concreta; tampouco paixão, mas direção ética mais robusta e, claro, conscientização.
Ruas e praças tomadas de torcedores revelam uma verdade frequentemente esquecida de que nós humanos desejamos pertencer, compartilhar e celebrar. A mesma força que ergue bandeiras, canta hinos e transforma estranhos em companheiros de festa poderia, ao menos em parte, ser mobilizada para construir sociedades mais justas. A questão não é se podemos nos unir, visto que os dias de jogo provam que somos gregários. A indagação é porque escolhemos fazê-lo tão raramente – ou discretamente - em defesa da própria humanidade.
Talvez o maior gol ainda não marcado seja precisamente transformar a potência dos encontros festivos em vigor de transformação social. Com base nas discussões de Espinosa, a Copa do Mundo evidencia que podemos produzir encontros felizes, isto é, experiências coletivas que ampliam nossa potência de agir, fortalecem os vínculos humanos e despertam afetos de alegria, esperança e pertencimento. O evento futebolístico de magnitude planetária, sediado pela primeira vez em 3 países, com participação inédita de 48 seleções, e estimativas de 6 milhões de pessoas mobilizadas, pode representar uma janela singular para disseminar esses afetos de forma a transcender o futebol. A mesma energia dos encontros felizes que sensibiliza multidões em torno de uma seleção poderia inspirar campanhas de combate à fome, ao racismo, às mudanças climáticas e às desigualdades sociais.
Conscientizar-se de que pertencemos a dimensões maiores que o nosso próprio mundinho egoísta e imaginar, mais concretamente, como as pessoas assoladas pelas mazelas sociais contemporâneas também poderiam experimentar encontros felizes, marcados pelo acolhimento, pela solidariedade e pelo reconhecimento de sua dignidade, possa ser o primeiro passo para compreender que os afetos também podem transformar realidades. Quando a alegria compartilhada deixa de ser apenas celebração esportiva e se converte em cuidado com o outro, a potência coletiva de agir se expande e faz da esperança uma prática concreta. Nesse dia, a celebração deixaria de durar noventa minutos a cada longínquos 4 anos, e passaria a habitar a própria história recorrentemente.
