Cultura

O Festara é necessário?

"Há pessoas que nunca conheceram o teatro. Não morreram. Não por este motivo. Porém, algo morreu. O quê?"

Heitor Gomes* - Especial para o Hojemais Araçatuba
04/10/20 às 15h00
A Procissão, com o ator Gero Camilo (Foto: João F. Tavares Kawasaki/Divulgação)

Dois mil e vinte tem seu lugar na história mundial, sendo vãos os esforços para tentar esquecê-lo. As reviravoltas trazidas por ele, dignas de dramas sofisticados, colocaram em pauta o caráter essencial das atividades humanas.

Afinal, o que pode e o que não pode durante a pandemia? As consequências são sentidas em vários níveis da sociedade, isso é notório. Agravam-se, todavia, quando o assunto é cultura. O primeiro setor a parar e, evidentemente, o último a se reestruturar.

Avanço nas digressões e dou foco ao teatro, uma das artes presenciais impactadas pelo distanciamento social. Gostaria de ser esperançoso a ponto de escrever “impactada positivamente”, porém, forçaria a barra! Tranquilizem-se; não me ocuparei com reflexões do tipo: teatro on-line é teatro? Não temos sanidade mental nem distanciamento no espaço-tempo que nos permita olhar criticamente para as produções deste momento. Outras referências deverão surgir para isso. Deixemos, pois, essa tarefa às gerações futuras, as quais terão o encargo de pôr sentido nesse enredo non sense, ao qual submergimos.

A nós, artistas que somos, compete criar com os recursos possíveis. Criar para quem e para quê? Qual o teatro possível em meio à falência das estruturas nas quais a criação se apoiava?  O teatro é, ainda, necessário? Algum dia ele já o foi?

O teatrólogo Denis Guénoun debate a questão no livro O Teatro é necessário?. Aponta para crises que o teatro enfrenta: a falta de plateia; escassez de subsídios públicos; a obsolência diante das novas tecnologias de entretenimento - como vencer o cinema 3D e as plataformas de streaming?; a ameaça de extinção.

Enquanto o teatro se esforça por conseguir plateia, contraditoriamente, cresce o número de pessoas desejosas por estudar teatro, muitas vezes sem ter assistido a peças antes. Embora o contexto seja francês, em nada difere da realidade do teatro araçatubense.

Guénoun reflete ainda sobre o conceito de necessidade: necessário é aquilo cuja ausência implica em risco de morte. Ou seja, se falta água para beber, o corpo irá sofrer com a iminente desidratação; poderá ter as funções vitais comprometidas e morrer. Caso beba água, o corpo recobrará a vitalidade. Não morrerá; mas poderia.

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Há pessoas que nunca conheceram o teatro. Não morreram. Não por este motivo. Porém, algo morreu. O quê? Da mesma forma, quando se quer ver teatro e não há peça, ninguém morre. Substitui-se o desejo. Porém, algo morre. O quê? Como vive uma cidade sem teatro?

O Festara (Festival de Teatro de Araçatuba), em seus 15 anos, busca responder a essas perguntas para fomentar a fruição de bens-culturais e fortalecer as plateias locais, afetando-as, positivamente, pelas criações artísticas. Reinventa-se, em 2020, de modo on-line, garantindo a sua continuidade. É o desejo de manter vivo aquele algo; de injetar vitalidade nas veias da cidade. O teatro local não pode ser mais uma vítima da pandemia.

O Festara é necessário? Esta pergunta deve sempre pairar. Para quem e para quê?

(Foto: João F. Tavares Kawasaki)

*Heitor Gomes é ator formado pela Escola de Arte Dramática - EAD/ECA/USP diretor e dramaturgo. Está docente no curso Técnico em Teatro do SENAC Araçatuba, graduando em Pedagogia. Em 2019, publicou seu primeiro livro "COTOVELO e outras dores", pela Giostri Editora.  

**Este artigo é o primeiro de série de textos sobre o Festara (Festival de Teatro de Araçatuba), produzidos por artistas e profissionais da cultura, que serão publicados aos domingos durante o mês de outubro. 

*** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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