Cultura

Produção literária é destaque nos últimos 30 anos em Araçatuba

Somente neste ano, município contou com mais de dez lançamentos de livros de autores da cidade

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba 
02/12/19 às 11h00
Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras completou 20 anos e incentiva novos escritores (Foto: Manu Zambon)

Em 1995, Célio Pinheiro, escritor araçatubense falecido há pouco mais de dois anos, disse em um texto publicado na antiga revista Plural, da AAL (Academia Araçatubense de Letras), que Araçatuba contava, em 1989, com uma lista de 150 escritores, incluindo quem teve livro publicado ou não.

Trinta anos depois, a produção literária em Araçatuba continua sendo um dos pontos de grande destaque na cultura local. A afirmação é unânime entre profissionais que atuam diretamente na área.

Além do número expressivo de escritores que publicam textos em jornais, integram coletâneas e/ou lançam seus próprios livros, o município também conta com a tradicional AAL (Academia Araçatubense de Letras), GE (Grupo Experimental), Felita (Festival Literário de Araçatuba), que neste ano completou duas edições, entre outras iniciativas.

“Podemos dizer que há umas três décadas, mais ou menos, há um grupo forte de escritores que produzem com frequência, ora escrevendo em jornais, ora publicando livro. Na AAL, o primeiro livro de coletâneas de autores da cidade é de 1985. Há muito tempo há uma consolidação da literatura”, destaca o presidente da AAL, Arnon Gomes dos Santos.

 

Arnon Gomes dos Santos, atual presidente da AAL, já publicou seis livros (Foto: Arquivo Pessoal)

Publicações

Santos é jornalista e como escritor já tem seis livros publicados; Com véu de alegoria - cem anos de carnaval de Araçatuba ; Genilson Senche, homem de ideias e ação ; O jornalista mais premiado do Brasil, vida e histórias do repórter José Hamilton Ribeiro ; Tuco, Uma vida dedicada à educação ; Napo, o arquivo da Velha Senhora ; e Escrevendo nossa história , 40 anos do Sinbi .

Somente entre os escritores da AAL e do Grupo Experimental, foram cerca de dez lançamentos literários no município, como o Mundo Azul, assinado por Ana Ramos, em parceria com Gonçales, de Guararapes, ou A menina que conta histórias, da estudante Lorrani Cristina da Silva Pereira, que com apenas 10 anos é a integrante mais nova da história do Grupo Experimental. Isso para citar apenas alguns exemplos.

Incentivo

Em levantamento realizado pelo professor, escritor e jornalista Hélio Consolaro, a pedido do Hojemais Araçatuba, o município tem registro de mais de 70 autores com livros publicados. Nessa lista, estão inclusas pessoas que estão vivas e que já são falecidas. Mesmo sendo um número expressivo, Consolaro diz que está faltando um escritor expoente.

“Acredito que vamos dar o salto qualitativo. Nas últimas décadas, o trabalho da Academia Araçatubense de Letras foi muito importante. As pessoas da cidade têm também o livro como mídia quando querem fazer alguma comemoração”, diz Consolaro, que neste ano publicou sua sétima obra, Analógicos e Digitais: Crônicas de Cidadania


O dramaturgo e ator Heitor Gomes, morador de Araçatuba, lançou seu primeiro livro neste ano (Foto: Manu Zambon)

De acordo com o jornalista e escritor, alguns outros fatores também influenciam nessa questão da produção literária local, como o surgimento de blogs e editais da Secretaria Municipal de Cultura, que subsidiam publicações por meio do Programa de Fomento à Cultura.

Difusão

Para a coordenadora do Grupo Experimental da AAL, Fátima Florentino, Araçatuba é privilegiada pelo número de escritores locais. Fátima, assim como Consolaro, acredita que a internet acabou fortalecendo o movimento. Tanto é que ela, em conjunto com Wandyr Zafalon Júnior e Rita Lavoyer, criou o projeto Grupo Microcontos Fátima Florentino. Devido ao trabalho realizado, neste ano recebeu o prêmio Odette Costa na categoria literatura.

De acordo com Fátima, o Grupo Experimental incentiva a produção cultural por meio de reuniões mensais para trocar experiências entre os membros e como forma de buscar apoio para as produções. O grupo ainda faz a publicação anual da Experimentânea, que neste ano atingiu a edição número 13, além da Balada Literária, em parceria com o O Quintal Cultural. É por meio do GE que muitos escritores participam de uma publicação pela primeira vez.

Um dos papéis da AAL também é o de difundir a literatura local, conta o presidente. Em 2017, a academia ganhou sua própria editora, oficializada junto à FBN (Fundação Biblioteca Nacional). De acordo Santos, a criação da editora foi uma das principais ações da academia nos últimos anos, com o objetivo de incentivar a produção de escritores locais.


A menina que conta histórias é o primeiro livro da estudante Lorrani Cristina da Silva Pereira (Foto: Manu Zambon)

História

Santos ainda comenta sobre duas características da literatura araçatubense. No primeiro caso, ele explica que no município há exemplos que confirmam a máxima de que a literatura não é um fenômeno isolado da cultura e história, sendo que ajudou de certa forma a contar a história de Araçatuba. Nesse sentido, ele cita obras da Odette Costa e Célio Pinheiro.

Outro ponto que ele também ressalta é a posição de relevância na área de gestão cultural e educacional conquistada por militantes da literatura, como é o caso do próprio Consolaro, Marly Garcia, Tito Damazo e Antônio Luceni.

“A literatura fortalecida pode contribuir muito para o desenvolvimento do município, principalmente no aspecto educacional. Cultura quando se presta a ser uma ferramenta pedagógica, é de grande valor”, complementa Santos.

Vozes femininas

A publicitária Cintia Messias Brasileiro dos Santos, de Araçatuba, analisou as vozes femininas araçatubenses no artigo científico A Literatura Feminina Araçatubense: Entre o Lírico-Sentimental e o Amadurecimento da Consciência Crítica.

De acordo com Cintia, o trabalho realizado na pós-graduação em literatura e língua portuguesa, analisou as vozes femininas que construíram o cenário literário em Araçatuba de 1980 a 2016. Na pesquisa, Cintia levantou 71 obras literárias, no entanto, por conta da limitação das páginas do artigo, escolheu dez títulos para analisar, como O Alzheimer do vovô, de Rita Lavoyer; e A arca da bicharada Vol. 1, Larissa e as estrelas e Portaretrato, de Marilurdes Campezi, entre outros.

Estrutura

Nas obras analisadas, ela detectou a predominância de estrutura simples, direcionada à linhagem humanista, com a representação do feminino e um apelo maior à vida no interior. Nas escritas também permanece a voz da escritora na própria narração.

De forma geral, a tendência das escritoras em Araçatuba segue um padrão macro, ou seja, sempre pautada em assuntos relacionados à família e infância. Já quanto à evolução das obras, que historicamente eram colocadas numa posição inferior à produção masculina, Cintia percebeu mudança significativa na linha do tempo dessas publicações. 

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