“Caminhe com determinação e carregue um grande cajado; talvez ninguém perceba como você se sente pequeno”. A frase está no livro “Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens”, de James Hollis. Livro que minha terapeuta junguiana me emprestou e que hoje uso para fundamentar algumas reflexões sobre o tal feminicídio.
Minha mãe fica horrorizada com a escalada de crimes contra a mulher nos noticiários. Fico pensando se a impressão de que os casos estão aumentando não é reflexo do fato de que agora as estatísticas criminais e os registros jornalísticos estão dado um nome específico para a violência. Não é de agora que mulheres são mortas de modos excessivamente agressivos.
“Sob a sombra de Saturno” não fala de feminicídio. Trata de homens que não têm consciência de suas próprias fraquezas e, por isso, violentam as mulheres e também outros homens. Segundo o autor, o patriarcado se estabeleceu na sociedade para compensar fragilidades interiores. Saturno (Crono na versão grega) é um tirano que comia os próprios filhos. Cortou o falo do próprio pai e foi morto por seu filho Zeus, numa sequência de homens dominadores inseguros.
De outras leituras e reflexões, fiquei com a ideia de que em nossa sociedade patriarcal o que é ligado ao universo feminino acaba por ser diminuído e desprezado. Os afazeres do lar, as crianças e também os homossexuais. Sim, estes últimos são seres dotados do poder masculino e que, simbolicamente, abrem mão deste poder, tornando-se afeminados. Talvez, por isso, em alguns casos a agressividade contra a homossexualidade seja até mais intensa. Como alguém que tem o poder, abdica dele?
Que outra leitura podemos fazer da agressividade de alguns homens contra as mulheres e o feminino? Mulheres botam medo. Habitam nelas o mistério da vida, na maternidade. Habitam nelas os prazeres da carne, no sexo “faltante” que decide quem penetra ou não. É morada do sensível e da força, numa espécie de templo da ambiguidade. Por isso, é bruxa, é santa, é prostituta e é louca.
É alvo de uma sequência irracional de murros ou facadas, que não cessa. Só aumenta. Pois enquanto o agressor tiver medo de encarar seus próprios sentimentos, vai agredir para tentar eliminar aquela que escancara suas próprias fragilidades.
Voltando à obra “Sob a sombra de Saturno”, um caminho possível parece ser canalizar essa agressividade para alimentar as mudanças para a cura. Transformar a dor manifestada em ira. Tarefa difícil em um mundo infantilizado e de valores vazios. No entanto, só continuaremos sofrendo enquanto permanecermos inconscientes.
P.S. - E se eu estiver correndo como uma mulher negra, é que uma amiga me
emprestou a trilha sonora dela.