O casal de pastores que foi preso em Araçatuba (SP) na madrugada de quinta-feira (24) e que teve o filho preso nesta sexta-feira (25), teria histórico de agressão e exploração de jovens, que seriam obrigados a vender doces e outras mercadorias na rua para arrecadar dinheiro para eles.
Os três tiveram os mandados de prisão temporária por 30 dias expedidos pela Justiça de Sergipe por suspeita de participação na morte de Edjane de Jesus Silva, 35 anos, crime ocorrido em 3 de junho de 2020, na residência dos pastores, no bairro Santa Maria, em Aracaju.
Segundo o delegado da DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa) de Aracaju, Mario de Carvalho Leony, a irmã e a mãe da vítima frequentavam a igreja chamada Templo do Arrebatamento Divino, que tinha o casal como pastores, o que também a levou a frequentar o local.
Acolhida
Segundo a polícia, a vítima se apaixonou pelo filho do casal, que foi preso nesta sexta-feira, em Araçatuba, e teria sido acolhida pela família, apesar de este relacionamento amoroso não ser correspondido pelo investigado.
Porém, com o tempo Edjane passou a ser explorada, vivendo em condição análoga à de escrava, fazendo serviços para o casal. Ainda de acordo com o delegado, o mesmo acontecia com grupos de jovens que frequentavam a igreja, que seriam obrigados a vender doces nas ruas para arrecadar dinheiro para a igreja, mas que na verdade ficaria com o casal.
Esses jovens também seriam agredidos fisicamente e alguns deles, que já foram identificados pela polícia, têm cicatrizes, inclusive no rosto, causadas por objetos arremessados pela pastora, que seria uma pessoa muito violenta.
"Testemunhas relataram que os pastores alegavam que eles estavam possuídos e precisavam ser exorcizados, que precisavam ser disciplinados, por isso as agressões", conta.
Desaparecimento
Ainda de acordo com Leony, o caso passou a ser investigado pela polícia após a família registrar o boletim de ocorrência comunicando o desaparecimento de Edjane, que apesar da idade, era pessoa simples e ingênua.
A investigação teve início pela delegacia do bairro onde foi registrado o desaparecimento e o inquérito na DHPP foi instaurado em novembro do ano passado.
Segundo Leony, durante a investigação a irmã de Edjane contou que no dia em que ela morreu, ela foi chamada pelos pastores e chegou a vê-la agonizando no chão da residência, mas não denunciou o casal e nem chamou por socorro.
De acordo com relatos de testemunhas já ouvidas, a vítima tinha hematomas no corpo e até teria tido o órgão genital queimado. “Na verdade, todos sentiam que tinham uma dívida com os pastores por terem sidos acolhidos por eles por isso não fizeram nada para impedir”, conta o delegado.
Prisões
O caso começou a ser esclarecido após os pastores serem presos, na madrugada de quinta-feira (24), na rodovia Marechal Rondon (SP-300), em Araçatuba. Ele tem 44 anos, ela tem 43, e os dois moram no bairro Alto, em Birigui.
Eles estavam em um carro com placas de Aracaju (SE) e, devido ao veículo ser de outro Estado e pelo horário avançado, 3h, os policiais militares rodoviários resolveram consultar o emplacamento na base.
Segundo o que foi informado, apesar de o carro estar regular, o proprietário constou como procurado. Foi feita a abordagem e constado que proprietário do veículo era o condutor, que era o pastor investigado.
Em consulta ao site do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) foi constatado que a companheira dele, que estava no banco traseiro do veículo, também tinha contra ela um mandado de prisão temporária por 30 dias em aberto.
Ele foi expedido no dia 3 deste mês pelo TJ-SE (Tribunal de Justiça de Sergipe) e o local da ocorrência constava como Aracaju. O crime investigado era homicídio. Segundo a polícia, a pastora não apresentou o número de RG, que também não foi encontrado pelos sistemas policiais.
Os dois foram conduzidos ao plantão policial e o pastor da igreja que eles frequentam em Birigui esteve na delegacia, sendo comunicado da prisão de ambos. Um advogado também foi cientificado da captura dos procurados.
Filho
Com a prisão do casal a Deic (Divisão Especializada em Investigações Criminais) de Araçatuba iniciou o contato com a Polícia Civil de Sergipe e foi informada pela DHPP que também havia um mandado de prisão contra o filho do casal.
No início da manhã desta sexta-feira (25), equipe do GOE (Grupo de Operações Especiais) esteve em uma residência em Birigui, para dar cumprimento ao mandado de prisão, mas o jovem não foi encontrado. Na casa estava um irmão dele, que autorizou uma vistoria no imóvel e um celular foi apreendido.
Testemunha
Apesar de o investigado não ter sido localizado naquele momento, os policiais identificaram outro jovem que veio do Sergipe com a família de pastores para Birigui e que também teria presenciado a morte de Edjane.
Ele foi interrogado por videoconferência e, segundo o delegado da DHPP de Aracaju, só não admitiu que houve espancamento. Questionado sobre por que não acionou o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) quando viu a vítima morrendo, alegou que foi alertado pelos pastores devidos aos hematomas que ela tinha no corpo, de agressões anteriores.
“Na verdade, percebemos nessas vítimas algo como a síndrome de Estolcomo, pois elas se sentem em débito com o casal, por terem sido acolhidas”, comenta Leony. Ainda de acordo com ele, essa testemunha revelou que em Birigui continuava atuando como em Aracaju, vendendo objetos na rua para arrecadar dinheiro para os pastores investigados.
Após o depoimento dele as diligências pela equipe do GOE tiveram sequência e os policiais apuraram que o filho do pastor estaria em Araçatuba. Ele foi preso pouco antes das 15h, na residência de um pastor no bairro Casa Nova e levado ao plantão policial.
Próximos passos
Os três investigados devem ser enviados para Aracaju para andamento do inquérito. Segundo as testemunhas ouvidas até agora, os pastores teriam informado que o corpo de Edjane teria sido levado para o município de Teotônio Vilela, no Estado de Alagoas, terra natal dos pastores.
O delegado espera que com as prisões, os investigados leve a polícia até o local onde os restos mortais provavelmente estão enterrados para que possam ser resgatados e enterrados de forma digna pela família.
Ele fez questão de enaltecer o trabalho da Polícia Civil de Araçatuba, que se empenhou para conseguir encontrar o filho do casal, auxiliando na investigação. "O papel da polícia em Araçatuba foi muito importante, possibilitando que duas pessoas fossem ouvidas por videoconferência, contribuindo muito com a investigação" , declarou.
Sobre a exploração e agressões aos jovens que frequentariam a igreja, o delegado informa que já há um procedimento em andamento no DAGV (Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis) de Aracaju, que é composto por quatro delegacias que atendem mulheres; crianças e adolescentes; idosos e deficientes; LGBT, negros e vítimas de intolerância religiosa.
