A Revista Piauí, de circulação nacional e com sede no Rio de Janeiro, contratou um jornalista de Araçatuba (SP) investigado na Operação Raio-X, para auxiliar na produção de uma reportagem especial justamente contra o delegado de polícia Carlos Henrique Cotait, responsável por essa investigação, considerada a maior já realizada pela Polícia Civil de Araçatuba. A reportagem com o título:
“O hacker e o delegado - A Polícia Civil e o conluio com um criminoso para investigar Márcio França”
, foi publicada na edição de fevereiro de 2023, assinada pelo jornalista Allan de Abreu.
A informação foi revelada pela própria revista, que no último 28 de maio, fez uma nova publicação, divulgando que a Polícia Civil de Araçatuba, que questiona a veracidade dos fatos publicados anteriormente, instaurou um novo inquérito, este para investigar possível crime de obstrução de Justiça, por parte dos autores da reportagem especial e da revista.
Segundo o que foi apurado pela reportagem, a matéria publicada em fevereiro de 2023 foi utilizada por advogados de réus da Raio-X para tentar anular a investigação, com base nos relatos apresentados pelo hacker Patrick Cesar da Silva Brito, personagem da matéria, produzida pelo jornalista Allan de Abreu, em conjunto com o jornalista de Araçatuba, investigado pela Raio-X.
Os advogados do hacker também utilizaram a publicação como argumento para requerer a revogação da prisão dele, decretada pela Justiça de Araçatuba, em processo no qual ele é réu confesso por invasão de dispositivo e extorsão contra o ex-prefeito Dilador Borges e a ex-primeira-dama, Deomerce Damasceno. Esse pedido foi negado.
Na nova matéria da Piauí, que questiona o inquérito que investiga o crime de obstrução de Justiça, a publicação de fevereiro de 2023 é descrita como
“seis páginas que detalham como o hacker de Araçatuba, Patrick César da Silva Brito, investigou os alvos da Operação Raio X invadindo computadores, celulares e contas em redes sociais, tudo a mando do delegado e da equipe de onze policiais deles”
.
Polícia alertou
A revista informa que em dezembro de 2022, mês em que Patrick foi preso na Sérvia, onde permanece atualmente, outro delegado requereu à Justiça que proibisse a publicação da reportagem da Piauí, alegando que se tratava de
"fake news"
do hacker, mas o pedido foi negado.
Ainda segundo a publicação, dois meses depois da publicação da matéria contra o delegado, a Polícia Civil de Araçatuba passou a investigar a Piauí no âmbito do inquérito sobre o hacker. Nesse inquérito, ainda segundo a revista, há trechos da reportagem e a transcrição de oito e-mails e mensagens de WhatsApp, enviadas pelo repórter Allan de Abreu, pedindo a versão dos policiais envolvidos com o hacker.
De acordo com a revista, apenas o delegado alvo da reportagem respondeu, “parcialmente”. Consta ainda no inquérito, segundo a Piauí, que os investigadores escrevem: “
Em um dos contatos, o repórter chegou a ser advertido sobre o sigilo do procedimento no qual constam as informações que lhe foram passadas pelo investigado Patrick [refere-se ao hacker] e que se tratavam de informações inverídicas, que tão somente afetariam a imagem das pessoas mencionadas, bem como da instituição Polícia Civil, acaso sua veracidade não pudesse ser comprovada”
.
Revista informa que jornalista foi alvo de mandado de busca na Operação Raio-X (Imagem: Reprodução)
Repórter investigado
Também na matéria que questiona o novo inquérito da Polícia Civil de Araçatuba, a revista informa que o jornalista investigado pela Raio-X foi contratado como freelancer, para auxiliar Allan de Abreu na reportagem especial contra o delegado,
“atuando na obtenção de documentos e no agendamento de entrevistas com envolvidos na história”
. Cita ainda que esse jornalista teria pedido para não assiná-la junto com o coautor, para tentar evitar uma possível perseguição, que agora ele estaria sofrendo.
A Operação Raio-X é resultado de um inquérito que apurou o desvio milionário de dinheiro público da área da Saúde por meio de Organizações Sociais de Saúde. Essa investigação durou mais de um ano e resultou na denúncia e condenação de dezenas de réus em processos que tramitaram na Justiça de Birigui e de Penápolis. Um dos réus é o médico anestesista Cleudson Garcia Montali, de Birigui, cujas penas somadas superam os 200 anos de prisão.
Na matéria publicada na última quarta-feira, a Revista Piauí informa que o jornalista de Araçatuba que auxiliou na produção da reportagem especial contra o delegado, foi alvo de mandado de busca e apreensão expedido pela Justiça no âmbito da Operação Raio-X. Esse mandado foi cumprido em 29 de setembro de 2020, junto com outras dezenas de ordens judiciais.
Patrick não era conhecido
Contextualizando, Patrick só passou a ser investigado pela Polícia Civil de Araçatuba a partir de janeiro de 2021, quando hackeou as redes sociais do então prefeito e da esposa dele, ou seja, depois dos cumprimentos de mandados de busca da Operação Raio-X.
A nova matéria informa ainda que o jornalista de Araçatuba teve um bom relacionamento com o delegado, que chegou a auxiliá-lo na produção de uma matéria em 2005, a qual lhe rendeu um Prêmio Esso de Jornalismo. Entretanto, afirma que essa relação teria
"ficado estremecida"
após o jornalista ter sido visto entrando na casa de um dos alvos da Operação Raio-X, em 2020.
Esse seria o motivo do mandado de busca na casa dele, segundo a publicação. Porém, a revista alega que o jornalista investigado não teria chegado a ser ouvido pela polícia nesse caso e nem teria sido indiciado.
Nova investigação
A Revista Piauí revela que a participação do jornalista de Araçatuba na produção da reportagem especial contra o delegado que o investigou foi descoberta após ele ter sido alvo de um novo mandado de busca, esse em setembro de 2024. A publicação informa que os policiais estiveram novamente na casa dele durante a Operação Ligações Perigosas.
Essa operação é resultado de inquérito que investiga a possível interferência do PCC (Primeiro Comando da Capital) na política em Araçatuba e teve início com a apreensão do celular de outro investigado, um homem apontado como suposto líder do tráfico de drogas no bairro São José, preso em maio do mesmo ano.
Na análise desse celular, a polícia encontrou conversas entre o suposto líder do tráfico e o jornalista de Araçatuba, tratando do fretamento do ônibus que levou pessoas da cidade para uma manifestação contra o fim da saída temporária de presos, realizada em Brasília (DF). Segundo a polícia, essa manifestação e a viagem foram organizadas pelo PCC. O objetivo da investigação é apurar quem financiou a locação do ônibus.
Conversou
Na matéria em que contesta o novo inquérito, a revista informa que o jornalista de Araçatuba confirma a conversa com o investigado por tráfico, alega que foi pressionado a bancar o aluguel do ônibus e mesmo assim, não bancou o fretamento. A revista afirma ainda que o diálogo encontrado no celular do suposto chefe do tráfico com o jornalista de Araçatuba
"não traz suspeita de nada"
.
Entretanto, esse inquérito segue tramitando, em conjunto com outro de autoria do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público, o qual já resultou nas primeiras condenações por tráfico de drogas.
Perseguição
Durante cumprimento de mandado de busca na Operação Ligações Perigosas, a Polícia Civil apreendeu o celular e o notebook do jornalista de Araçatuba. Na matéria em que contesta o inquérito para investigar o suposto crime de obstrução de Justiça, a Revista Piauí acusa o delegado de usar esse novo mandado de busca contra o jornalista, como pretexto para investigá-lo.
Ainda segundo a revista, ao analisar o celular do jornalista, a polícia encontrou conversas entre ele e o hacker, comentando a repercussão, na mídia regional, da reportagem da Piauí que acusa o delegado de conluio com Patrick. Mesmo não assinando a matéria publicada na Revista Piauí, o jornalista de Araçatuba publicou o conteúdo na íntegra, em um site de notícias da cidade em que ele é um dos responsáveis, mas a mesma foi retirada do ar.
A revista publicou trecho de uma das conversas entre o jornalista e Patrick:
- “A minha missão era levar esse caso pra piauí, entendeu?” (jornalista)
- “Sim, vc foi fundamental.” (responde o hacker).
A Piauí afirma que com base nessas conversas entre os dois, fica claro que o hacker foi uma das fontes do jornalista, assim, a polícia estaria ferindo o sigilo da fonte do jornalista, que é previsto na Constituição brasileira.
Intimidação
Consta ainda na matéria que o delegado foi ouvido em 7 de abril no inquérito que investiga o suposto crime de obstrução de Justiça e, em depoimento, teria qualificado o repórter Allan de Abreu como
“descuidado, mas não desavisado”
,
“sensacionalista”
,
"irresponsável”
e
"inconsequente”
.
O delegado teria relatado ainda que depois de um
“encontro inesperado de provas”
, tratando-se das conversas encontradas no celular do jornalista de Araçatuba, entre ele e Patrick, se descobriu que
“a construção mentirosa da matéria publicada na revista Piauí foi realizada, do início ao fim, pelo jornalista de Araçatuba”
.
Segundo a Piauí, no mesmo dia 7 de abril o repórter Allan de Abreu teria sido alvo de uma tentativa de intimidação do trabalho jornalístico, ao receber uma intimação policial para prestar depoimento nesse novo inquérito.
A revista informa que o advogado Luís Francisco Carvalho Filho, que defende a Piauí, definiu esse inquérito como
“um flagrante e inusitado ataque à liberdade de informação jornalística”
. E acrescenta que para ele,
“A portaria [que formalmente inicia a investigação policial] não descreve um efetivo delito de obstrução de justiça. É tentativa bisonha de criminalizar a atividade jornalística e de obstruir a liberdade de informação”
.
Outro lado
A matéria cita ainda que o delegado não se manifestou sobre o novo inquérito ao ser procurado pela revista, enquanto a SSP (Secretaria de Segurança Pública) de São Paulo, informou em nota que
“todas as diligências [do inquérito] foram conduzidas com respaldo legal e sob supervisão do Poder Judiciário e do Ministério Público”
.
Porém, a Pasta citou que
“não compactua com qualquer forma de abuso de autoridade e reafirma seu compromisso com a liberdade de imprensa, os direitos constitucionais – incluindo o sigilo de fonte – e a transparência dos procedimentos legais”
.
Questionamentos
A reportagem do Hojemais Araçatuba encaminhou e-mail para a Revista Piauí questionando se ao contratar o jornalista de Araçatuba como freelancer para produção de uma matéria contra um delegado, o veículo de comunicação tinha conhecimento de que ele era investigado pelo próprio delegado.
Também questionou se esse jornalista foi contratado pela revista ou pelo repórter que assina a matéria, mas nenhuma das perguntas foram respondidas.
Em 29 de agosto de 2024, a SSP publicou no Diário Oficial do Estado, a transferência do delegado citado na matéria da Piauí do cargo de Delegado Divisionário da Deic (Divisão Especializada de Investigações Criminais) de Araçatuba, em função das declarações feitas por Patrick.
No mesmo dia, o secretário de Segurança Pública do Estado, Guilherme Derrite, concedeu entrevista e informou que o delegado realizaria outra função, enquanto durasse uma apuração preliminar na Corregedoria da Polícia Civil da Capital, a qual seria acompanhada pessoalmente por ele. O secretário disse ainda que o hacker seria convidado para prestar depoimento.
Um dia antes, Patrick havia concedido entrevista a uma rádio de Bauru, afirmando também, que em 2018, teria sido contratado pelo ex-ministro Gilberto Kassab para "fazer um levantamento" da vida do então candidato a presidente Jair Bolsonaro e de Adelio Bispo, que no mesmo ano o esfaqueou. Por enquanto não há informações sobre a tramitação dessa investigação preliminar da corregedoria.
Resultado da reportagem especial
A própria revista cita em matéria que questiona a instauração de inquérito que investiga suposto crime de obstrução de Justiça, que o afastamento do delegado do caso ocorreu em consequência da repercussão da reportagem especial contra ele, publicada em fevereiro de 2023.
O assunto voltou à tona no final daquele ano, após Patrick sair da prisão e ser ouvido em uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Câmara de Bauru. Na ocasião, o hacker confessou ter invadido dispositivos de uma vereadora e de um jornalista da cidade, alegando que teria feito o serviço a mando da prefeita. A revista cita que
"a CPI acabou em pizza".
Porém,
Patrick segue sendo investigado pelos crimes que confessou ter praticado.
Convite
A reportagem especial que acusa o delegado de Araçatuba de conluio com o hacker, cita que Patrick teria sido ouvido por videoconferência, seis semanas antes de ser preso na Sérvia. Ele foi capturado em 23 de dezembro de 2022. Nessa entrevista, o hacker teria descrito um suposto encontro pessoal com o delegado, que teria proposto devolver os passaportes e R$ 10 mil encontrados com ele, em troca de ajuda para
“prender pessoas”
.
Segundo a revista, o hacker disse que prestou esses serviços para o delegado e recebia dinheiro dele e da equipe dele, mas que os pagamentos seriam feitos em dinheiro, para não deixar rastro. Uma das
“missões
” dadas a Patrick pelo delegado, de acordo com o que foi publicado pela revista, seria hackear os dispositivos de um médico morador em Iguape, na Baixada Santista, também investigado pela Raio-X.
O celular desse médico foi apreendido em 29 de setembro de 2020, para ser analisado posteriormente, junto com as centenas de materias apreendidos dos demais investigados. Portanto, a polícia já estava de posse das informações referentes a ele, as quais resultaram em novos mandados de busca em nova fase da Operação Raio-X.
Foto que ilustra nova matéria é printada de audiência sobre investigação que afastou policial civil (Imagem: Reprodução)
Fotos de celular
Segundo a publicação, em 14 de julho de 2021 o hacker recebeu fotos da tela de um celular com as senhas dos e-mails, das redes sociais e das contas bancárias, que seriam do médico. A missão, segundo o que foi publicado, seria investigar o ex-governador Márcio França (PSB), que teria ligações com esse médico.
Porém, outro inquérito instaurado pela Polícia Civil apurou que essas fotos da tela do celular com as senhas, foram feitas de uma sala restrita na delegacia. A investigação apontou ainda, que um dos policiais civis que fazia parte da equipe do delegado foi quem teria feito tais fotos e as encaminhado para Patrick.
De posse das informações, o hacker teria pedido um cartão bancário em nome do médico e o utilizado indevidamente, causando prejuízo de aproximadamente R$ 6 mil. A polícia chegou a cumprir um mandado de busca para apreender esse cartão, que teria sido enviado pelo Correio, mas ele não foi encontrado.
Afastado
Esse policial foi transferido de função pelo delegado no início da investigação que ele comandou, para tentar identificar possível invasão dos dispositivos eletrônicos do médico, já que ainda não se sabia como Patrick havia tido acesso a tais informações sigilosas. Com a conclusão da investigação, o caso foi encaminhado à Corregedoria.
No início de maio deste ano, o policial civil investigado foi afastado preventivamente do cargo por 180 dias, pelo Delegado-Geral de Polícia do Estado de São Paulo, Artur Dian. A foto do delegado Cotait, usada para ilustrar a nova matéria da Piauí, é da participação dele na audiência do processo administrativo que resultou no afastamento do policial civil investigado. O afastamento não é citado pela revista.
Indiciados
Com a conclusão do procedimento instaurado pela Corregedoria Auxiliar de Araçatuba, por determinação judicial, tanto o policial civil investigado como Patrick, foram indiciados pelos crimes que o hacker acusou o delegado de tê-los cometido.
Segundo o que foi apurado pela reportagem, o caso foi encaminhado para a Justiça Federal de Santos, por entendimento de que o suposto crime contra o médico teria sido cometido pelo hacker, quando ele já estava em solo internacional. Ainda não foi apresentada possível denúncia contra os investigados.
A Justiça de Araçatuba havia acatado outra denúncia do Ministério Público contra Patrick, no final de abril deste ano, referente a inquérito que investigou os crime de coação no curso do processo, ameaça, calúnia e injúria contra o delegado citado pela reportagem especial da Piauí e mais seis pessoas, sendo um segundo delegado e outros cinco policiais civis.
Mensagens
Segundo o que foi apurado pela reportagem, estando na Sérvia, o hacker foi informado sobre o mandado de prisão expedido contra ele no processo contra o prefeito, no mesmo dia em que ele foi expedido pela Justiça, apesar do sigilo. Imediatamente na madrugada seguinte, o hacker teria passado a enviar mensagens para os policiais civis responsáveis pela investigação em tom de ameaça.
Além disso, passou a divulgar mensagens e vídeos acusando o delegado responsável pelo mandado de prisão dele, de tê-lo contratado para hackear possíveis alvos de investigação, principalmente da Operação Raio-X. Patrick segue na Sérvia, aguardando julgamento de recurso contra decisão que negou asilo a ele.