Em junho de 2019 o Supremo Tribunal Federal aprovou a criminalização da homofobia e da transfobia no Brasil. Apesar da decisão preconizar que atos preconceituosos contra homossexuais e transexuais podem ser passíveis de pena que vão de um a três anos de reclusão, ainda é preciso falar (e muito) sobre o assunto.
O Brasil ainda é o país que mais mata representantes da população LGBTQIA+. Uma morte acontece em solo nacional a cada 23 horas. Só em 2019, 124 transexuais morreram por aqui. Em 2020 o assunto foi pauta do Jornal Nacional, na rede Globo. De acordo com um levantamento feito pela programa da emissora, há uma subnotificação de casos, o que dificulta a aplicação da lei e os números exatos de morte ou agressão aos LGBTQIA+.
Mesmo assim, na próxima segunda-feira, 17 de maio, é uma data que não pode passar em branco. Neste dia, em 1990, o termo “homossexualismo” foi retirado, pela Organização Mundial de Saúde, da lista de distúrbios mentais no Código Internacional de Doenças. A própria nomenclatura foi modificada, uma vez que o sufixo “ismo” remetia à patologia. Desde então passou-se a falar em homossexualidade.
FORA DO ARMÁRIO
Para aqueles que escolhem assumir a sua orientação sexual, até mesmo publicamente, o caminho, até hoje, ainda é complicado. A psicóloga e editora da revista emPODERe de Campo Grande, Cristiane Duarte, de 46 anos, conta que, se manteve “dentro do armário” por conta da família evangélica. “Namorei alguns garotos da igreja, noivei, casei, tive um filho e decidi me separar para ser realmente quem eu sempre fui. Foi muito dolorido para minha família, mas optei pela minha saúde mental e emocional.” Hoje, além de ter assumido sua orientação publicamente nas redes sociais, ela é também militante dos direitos das pessoas LGBTQIA+ e pelos direitos humanos.
A estudante de Direito Vitória Pardo Borges Freitas, de 22 anos, chegou a acreditar que a atração que sentia por mulheres seria somente uma fase ou ainda uma curiosidade. “Por muito tempo eu não me permiti gostar de mulheres. Só depois que entrei na faculdade eu senti que estava mais segura para ser eu mesma”.
Ela lembra ainda que sempre houve uma imposição social dizendo que aquilo que ela sentia era errado, por isso a decisão de se reprimir. “Hoje eu sei que isso faz parte de um discurso de heteronormatividade”.
Com Roberto da Silva* a história foi mais ou menos a mesma, exceto pelo fato de que não foi ele quem percebeu a sua própria sexualidade inicialmente, ele foi “avisado” por colegas de escola, parentes e professores. “Por exemplo, quando eu tinha uns 11 anos, uma mãe de um colega da escola onde eu estudava foi avisar a minha mãe que os colegas da sala me chamavam de ‘bicha’. Era tudo muito agressivo, o que me fazia interpretar que eu estava errado e que precisaria mudar para ser aceito”.
Silva conta que, na adolescência acabou se relacionando só com garotas, apesar de já sentir atração por meninos também. Porém só com 33 anos foi que ele passou encarar com naturalidade o fato de dois homens se relacionarem afetivamente. “Passei a me questionar e ler sobre o assunto na internet. Descobri que havia muitas pessoas que sentiam o mesmo que eu e foi então que concluí que não havia nada de errado em mim. Tive o meu primeiro contato com outro homem aos 39 anos. Hoje penso que eu não deveria ter esperado tanto tempo, mas fiz o melhor que eu pude à época e fui fiel às minhas convicções, ainda que elas estivessem ingenuamente equivocadas”.
