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HOMOFOBIA: porque é tão importante falar sobre isso

O Brasil ainda é o país que mais mata representantes da população LGBTQIA+

Daniela Galli - Hojemais Três Lagoas
15/05/21 às 07h45
“Você nunca está preparado para vivenciar o preconceito”, Vitória Freitas, estudante (arquivo pessoal)

Em junho de 2019 o Supremo Tribunal Federal aprovou a criminalização da homofobia e da transfobia no Brasil. Apesar da decisão preconizar que atos preconceituosos contra homossexuais e transexuais podem ser passíveis de pena que vão de um a três anos de reclusão, ainda é preciso falar (e muito) sobre o assunto. 

O Brasil ainda é o país que mais mata representantes da população LGBTQIA+. Uma morte acontece em solo nacional a cada 23 horas. Só em 2019, 124 transexuais morreram por aqui. Em 2020 o assunto foi pauta do Jornal Nacional, na rede Globo. De acordo com um levantamento feito pela programa da emissora, há uma subnotificação de casos, o que dificulta a aplicação da lei e os números exatos de morte ou agressão aos LGBTQIA+.

Mesmo assim, na próxima segunda-feira, 17 de maio, é uma data que não pode passar em branco. Neste dia, em 1990, o termo “homossexualismo” foi retirado, pela Organização Mundial de Saúde, da lista de distúrbios mentais no Código Internacional de Doenças. A própria nomenclatura foi modificada, uma vez que o sufixo “ismo” remetia à patologia. Desde então passou-se a falar em homossexualidade.

FORA DO ARMÁRIO

Para aqueles que escolhem assumir a sua orientação sexual, até mesmo publicamente, o caminho, até hoje, ainda é complicado. A psicóloga e editora da revista emPODERe de Campo Grande, Cristiane Duarte, de 46 anos, conta que, se manteve “dentro do armário” por conta da família evangélica. “Namorei alguns garotos da igreja, noivei, casei, tive um filho e decidi me separar para ser realmente quem eu sempre fui. Foi muito dolorido para minha família, mas optei pela minha saúde mental e emocional.” Hoje, além de ter assumido sua orientação publicamente nas redes sociais, ela é também militante dos direitos das pessoas LGBTQIA+ e pelos direitos humanos. 

A estudante de Direito Vitória Pardo Borges Freitas, de 22 anos, chegou a acreditar que a atração que sentia por mulheres seria somente uma fase ou ainda uma curiosidade. “Por muito tempo eu não me permiti gostar de mulheres. Só depois que entrei na faculdade eu senti que estava mais segura para ser eu mesma”.

Ela lembra ainda que sempre houve uma imposição social dizendo que aquilo que ela sentia era errado, por isso a decisão de se reprimir. “Hoje eu sei que isso faz parte de um discurso de heteronormatividade”.

Com Roberto da Silva* a história foi mais ou menos a mesma, exceto pelo fato de que não foi ele quem percebeu a sua própria sexualidade inicialmente, ele foi “avisado” por colegas de escola, parentes e professores. “Por exemplo, quando eu tinha uns 11 anos, uma mãe de um colega da escola onde eu estudava foi avisar a minha mãe que os colegas da sala me chamavam de ‘bicha’. Era tudo muito agressivo, o que me fazia interpretar que eu estava errado e que precisaria mudar para ser aceito”.

Silva conta que, na adolescência acabou se relacionando só com garotas, apesar de já sentir atração por meninos também. Porém só com 33 anos foi que ele passou encarar com naturalidade o fato de dois homens se relacionarem afetivamente. “Passei a me questionar e ler sobre o assunto na internet. Descobri que havia muitas pessoas que sentiam o mesmo que eu e foi então que concluí que não havia nada de errado em mim. Tive o meu primeiro contato com outro homem aos 39 anos. Hoje penso que eu não deveria ter esperado tanto tempo, mas fiz o melhor que eu pude à época e fui fiel às minhas convicções, ainda que elas estivessem ingenuamente equivocadas”.

 

“Optei pela minha saúde mental e emocional ao me assumir”, Cristiane Duarte, psicóloga (arquivo pessoal)

REPRESENTATIVIDADE IMPORTA?

O entrevistado lembra também que, nas décadas de 80 e 90, os homossexuais eram apresentados pelos meios de comunicação somente de forma estereotipada: os gays sempre muito afeminados e as lésbicas muito masculinas. “Era como se qualquer gay ou lésbica tivesse que ser daquele jeito que a mídia os apresentava”.

Silva explica ainda que, quando uma criança que já se entende como homossexual ou como transexual não se vê representada em nenhum desenho da Disney, por exemplo, aquilo é um recado implícito de que elas não são aceitas pela sociedade. “Quem são suas referências gays positivas dos anos 80? Sinceramente não me lembro de nenhuma. Todas, apesar de honrosas e corajosas, eram subjugadas ou criticadas pela sociedade”.

É por este motivo que todos eles concordam que sim: é importante que não haja estereótipos que, por si só, já reproduzem padrões e preconceitos. “É possível criarmos e reivindicarmos que programas de televisão, novelas, filmes reproduzam a realidade das nossas diversidades. É importante que a mídia e a cultura, de forma geral, consigam nos representar com responsabilidade”, explica Vitória. A estudante diz ainda que o debate ultrapassa a questão de estereótipos e atinge outros modelos impostos pela sociedade, como no caso dos padrões de beleza. 

Cristiane acredita que avançamos muito em relação aos estereótipos, porque não existe um único jeito de ser LGBTQIA+, assim como os heterossexuais também são diversos. “Precisamos ser livres para sermos quem somos e como somos. A sociedade patriarcal, machista e homofóbica é quem deseja ditar regras porque não suportam a liberdade. Querem sempre nos prender novamente no armário”.

O PRECONCEITO NOSSO DE CADA DIA

Viver na pele a homofobia é algo que quase todo representante da população LGBTQIA+. Sabe como é.  A estudante explica que nunca estará preparada para lidar com situações de preconceito. “A frustração e a tristeza no momento é tão grande que me tira a capacidade de falar, pensar e agir. Eu costumo me confortar com meus colegas que também já passaram por situações parecidas, faço acompanhamento psicológico e procuro me aproximar de conteúdos culturais que me aliviam”.

As demonstrações de homofobia são tantas e tão comuns que Cristiane revela que as únicas pessoas da comunidade LGBTQIA+ que não passaram por isso são aquelas que ainda não se assumiram. “Sofri e ainda sofro em casa, na família, no trabalho, na política e por aí vai. Eu ainda sou uma mãe da diversidade, mais uma possibilidade de preconceito”.

A melhor forma de lidar com isso, segundo a psicóloga, é com educação e informação. “Tento informar a todos sempre que tenho oportunidade. Acredito que só isso transforma o mundo e liberta as pessoas”.

“Já fui agredido fisicamente e xingado quando criança; atualmente certas pessoas me disseram que eu nunca seria feliz com a minha ‘escolha’; há pessoas que demonstram que eu não sou bem-vindo em determinados locais ou ambientes”, disse Silva.

Ele falou ainda que é combativo e que não aceita desrespeito. “Mas eu não desperdiço meu tempo com o agressor. Apesar de não haver nada de errado com quem possui uma sexualidade diferente do padrão, é ele que precisa do meu apoio. Consegui abstrair a necessidade de aceitação, mas não abro mão do respeito”.

COMO TRANSFORMAR A SOCIEDADE?

Para Cristiane, a transformação do pensamento e das atitudes deve começar na infância, a partir do acesso a uma educação inclusiva, com linguagem específica para cada faixa etária. “É preciso que haja ainda uma legislação forte para responsabilizar quem pratica homofobia, capacitação para os operadores do Direito, campanha publicitárias e políticas públicas para a comunidade LGBTQIA+.

Vitória ratifica o que disse a psicóloga. “Conhecimento e informação podem contribuir para a construção de uma sociedade livre da LGBTfobia e praticar empatia para entender a importância de não usar termos como ‘gay’ e ‘sapatão’ de forma pejorativa, não associar sexualidade com uma fase, não ligar bissexualidade com promiscuidade. É preciso ainda aprender a reivindicar atitudes no país que mais mata transexuais no mundo”.

Silva corrobora o que foi dito pelas duas e diz que é preciso conversar mais sobre isso através de políticas públicas, das escolas e da mídia. “Na minha opinião, a vida é muito curta para não ser vivida em sua plenitude. Deixe-me te mostrar que eu não sou tão diferente de você e você não é tão diferente de mim”.

*nome fictício. O entrevistado preferiu não ser identificado

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