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Cotidiano

Mais uma forma de soletrar: FAMÍLIA

A adoção começa quando o coração resolver dar à luz

Daniela Galli - Hojemais Três Lagoas
22/05/21 às 07h12
Viviane e Ricardo (arquivo pessoal) “Nosso amor não podia mais esperar”

25 de maio foi escolhido como a dia oficial para celebrar nacionalmente a adoção. A data homenageia o 1º Encontro Nacional de Associações de Grupos de Apoio à Adoção, que foi realizado no mesmo dia em 1996.

A partir desta data, várias ações e campanhas passaram a ser desenvolvidas com o objetivo de desmistificar e incentivar a adoção. 

Apesar disso, desde o ano passado quando a pandemia começou, pouquíssimas crianças foram adotadas em Mato Grosso do Sul. Até o mês de abril, foram somente cinco. Em 2019, antes da chegada do coronavirus, 154 crianças saíram do abrigo e ganharam uma nova família. Ano passado foram somente 77. 

Mesmo assim ainda é possível encontrar casais dispostos a adotar. Como é o caso da Fiscal de Caixa Viviane Caldato Ferreira de Souza e de seu marido Ricardo Irineu Muniz de Souza, motorista. Eles frequentam as reuniões de do GRAATA (Grupo de Apoio à Adoção Ato de Amor) de Três lagoas. 

Ela conta que sempre quis ser mãe, amar, ensinar e dar amor para outra pessoa. Quando conheceu o marido viu que era o parceiro ideal, porque era o desejo dele também. “Depois de alguns anos de tentativas e visitas ao médico, chegamos à conclusão de que o nosso amor era tão grande que nós não podíamos esperar mais. A adoção foi o caminho que escolhermos porque sabíamos que Deus queria desta forma”.

Depois de, enfim, darem início ao processo, apesar de um pouco assustados, se aprofundaram nos assuntos que eram debatidos no GRAATA. “Aprendemos e crescemos como pessoas, aumentamos a confiança em nós mesmos e reforçamos o nosso desejo”. Atualmente eles já estão habilitados e com tudo pronto para o grande dia: “a chamada telefônica que vai nos levar para conhecer o novo pedacinho da nossa família”.

Viviane diz ainda que, quando comentaram o assunto com os demais membros da família, todos ficaram temerosos. “Nenhum de nós tinha experiência em adoção e nem muita informação. Com o tempo transmitimos conhecimento para eles e com muito amor e paciência tudo se ajeitou. Hoje todos estão unidos, ansiosos e nos apoiam”.

Até agora a Fiscal de Caixa diz que tudo tem sido uma aventura. “Fizemos a nossa parte, estamos confiantes que tudo vai dar certo. A ansiedade é a palavra que mais usamos ultimamente, mas sem perder a fé o amor”.

 

Letícia e Pedro (arquivo pessoal) “Família é aquela com quem criamos laços e temos afinidade”

“NÃO HÁ DIFERENÇA”

“Família é aquela com quem criamos laços e temos afinidade”, esta é a opinião da engenheira química Letícia Fukao. Ela é mãe do Pedro que hoje tem três anos e cinco meses.

A ideia de adotar uma criança existia desde quando ela era mais jovem, porém no caso dela, as coisas não aconteceram como a sociedade dita: ela não se casou. “A vontade de ser mãe ainda estava lá. Até cogitei a possibilidade de recorrer a uma clínica de reprodução humana, mas não tive muito entusiasmo”.

Foi então que ela passou a ter contato com pessoas que já tinha adotado e outras que estavam no processo de adoção. “Comecei a amadurecer a ideia, pesei prós e contras. Pensei em todas as dificuldades que teria se passasse por uma gestação morando sozinha, a idade não ia ajudar muito [ela tem 38], os sintomas, a conciliação com o trabalho e vi que a adoção era a melhor opção”.

Decisão tomada: era hora de buscar a rede de apoio, que seria necessária mesmo se ela tivesse optado por ter um filho biológico. Havia a preocupação de com quem iria deixar o filho quando ela fosse trabalhar. “Conversei com a minha mãe que me deu total apoio e ainda me incentivou”.

Letícia também começou a frequentar as reuniões do GRAATA em maio de 2017. No mesmo mês ela deu entrada no processo de habilitação para adoção. Além disso ela teve ainda que fazer um curso preparatório, passar por entrevistas com assistente social e psicóloga. Até pais dela foram entrevistados. “Acredito que por eu ser solteira”.

Ela estava com o pé quebrado, andando de muletas, quando ligaram para ela perguntando se ela queria conhecer uma criança. Mesmo assim ela foi. “Se eu tivesse grávida não poderia dizer para esperar o meu pé melhorar”.

Letícia diz que Pedro chorava muito e que não se encantou com ela no primeiro encontro. “Mas eu já sabia que ele era meu filho”. Ai começou a correria: uma semana para comprar mamadeira, banheira, roupas. “Não foi como eu planejei porque dependia de alguém para me levar aos lugares”. Aí a rede de apoio entrou em campo para ajudar: mãe, pai, a irmã e os amigos).


Fabiana, Valéria e Jorge (arquivo pessoal) “Maternidade e paternidade não tem a ver com sangue e genética”

“JORGE SEMPRE FOI NOSSO FILHO”

Foi essa a sensação que tiveram a psicóloga Valéria Melki Busin e a historiadora Fabiana Cavalcante Lopes. “O universo fez uma traquinagem, nos separou por alguns anos e depois nos juntou”. Hoje elas são mães de Jorge Mariano Lopes Melki Busin, que tem 18 anos e estuda Gastronomia. 

O processo de adoção dele começou na decisão do casal pela maternidade: Valéria já sabia o que queria, porém Fabiana demorou um pouco mais para embarcar na ideia. Juntas desde 2004, foi só em 2015 que elas deram início ao processo. 

No final deste mesmo ano as duas começaram a ouvir falar sobre Jorge, um menino de 12 anos dos quais muitos foram vividos em um orfanato. A história dele é semelhante a de muitas outras crianças que chegam até o sistema de adoção. Órfão, pai desconhecido, tentou morar com uma família que não desenvolveu nem vínculo e afeto, sofreu maus tratos e violência. Foram também esgotadas todas as chances de ele permanecer junto de alguém com quem tivesse laços consanguíneos, até que, finalmente, ele foi colocado para a adoção. 

“Ele passou muito tempo invisível no sistema. O Estado errou demais com ele. Só em maio de 2016 é que o processo estava começando a se desenrolar”.
O perfil de criança que Valéria e Fabiana queria independia do sexo, porém, inicialmente elas pensaram em alguém com quatro ou cinco anos, que poderia ser estendido para até oito. A única exigência era de que fosse uma criança negra. 

Mesmo sabendo que Jorge tinha 12, ambas ficaram comovidas com a vida dele e quiseram conhecê-lo. Depois de passar por muita burocracia, Valéria pediu para que as etapas fossem agilizadas, para que tivesse logo com o filho. “Nós tínhamos tempo, mas ele, depois de ter passado por tanta coisa, não tinha mais”.

A psicóloga explica que, quando foram conhecer Jorge no abrigo, ele estava com cara de poucos amigos e depois confessou às mães que jamais imaginava que elas estariam lá por causa dele, uma vez que os casais sempre preferem os bebês ou as crianças menores. 

Depois de mais algumas etapas cansativas do procedimento burocrátivo, a audiência final aconteceu em outubro de 2016 e elas ganharam a guarda provisória dele. 

AINDA FALTA MUITA INFORMAÇÃO

Tanto Letícia quanto Valéria concordam que ainda falta muita informação para desmistificar o significado da adoção. “As pessoas ainda acreditam que haja pré-disposição genética ruim, ou seja, se os pais biológicos foram bandidos a criança também será”, diz a engenheira química. 

Como psicóloga e não como mãe, Valéria explica que até os pais biológicos precisam, de certa forma, adotar os seus filhos. “Conhecemos muitos casos de casais que tiveram filhos da forma tradicional e que não conseguiram ter amor por eles. Maternidade e paternidade não têm a ver com sangue e genética. O amor precisa ser construído”.

Para Letícia esse preconceito pode dificultar ainda mais que as crianças abrigadas encontrem uma família. “Eu mesma tinha receio, mas por acompanhar e conviver com casais que adotaram, enxerguei a adoção com naturalidade. Os desafios sempre vão existir seja o filho biológico ou não”.

“Temos muitos casais de amigos que passam por procedimentos violentos de inseminação, tomam doses altas de hormônio por que acreditam que um filho biológico é melhor do que qualquer outro. É preciso que haja ainda muitas campanhas para reverter essa crença”.

NÃO EXISTE FILHO ADOTIVO, EXISTE FILHO

Do ponto de vista dos pais, a frase é verdadeira, porém, na ótica daqueles que foram adotados tardiamente, como o Jorge, por exemplo, existe o filho adotado e isso faz diferença. “Quando você fala ‘filho adotivo’ parece que ele é de segunda mão e que nunca vai chegar a ser um filho. Eu não gosto desta expressão e é por isso que falo de ‘filho adotado’, porque depois de todo o processo é que ele passou a se sentir como filho. É um ponto de vista da criança que não pode ser deixado de lado”.

Viviane e o marido, que ainda aguardam a chegada do filho, dizem que não há razão para amar. “Seremos eternamente gratos, não importa como começou, desde que haja carinho, respeito e união como um todo”.

“Pedro é meu filho e ponto. Ninguém fala ‘esse é meu filho biológico’ ou ‘esse é meu filho de proveta’. Tem uma frase que para mim define isso: ‘O filho por natureza se ama porque é filho. O filho por adoção é filho porque se ama’. Acho que é isso, na adoção as almas se encontram”.


Tatuagem que Jorge fez em homenagem às mães

HOMENAGEM

Em outubro de 2021  Jorge completa cinco anos em seu novo lar e é o ano em que ele faz também 18 anos. Há muito tempo ele sabia qual seria o presente: uma tatuagem.

Entretanto, depois de devidamente autorizado pelas mães, ele decidiu acrescentar mais dois nomes: ‘Valéria e Fabiana’ agora estão para sempre com ele, na vida, no corpo e no coração.


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