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O enfrentamento à violência doméstica em Três Lagoas passa também por um caminho ainda pouco conhecido: o trabalho direto com os autores da agressão. O Programa
Dialogando Igualdades
propõe a reflexão e a mudança de comportamento de homens envolvidos em casos de violência, atuando na prevenção e na redução da reincidência.
Programa leva autores de violência à reflexão sobre comportamento
Criado inicialmente em Campo Grande, em 2017, o Dialogando Igualdades foi expandido para diversas comarcas de Mato Grosso do Sul como uma política do Tribunal de Justiça, fundamentada na
Lei Maria da Penha
e em diretrizes do Conselho Nacional de Justiça.
A iniciativa tem como principal objetivo promover a chamada psicoeducação dos participantes, um processo que busca conscientizar sobre o que é a violência doméstica e desconstruir padrões culturais ligados ao machismo e à masculinidade tóxica.
Em Três Lagoas, os participantes são encaminhados pela Justiça, principalmente por meio da Vara de Violência Doméstica, em situações que envolvem medidas protetivas, penas alternativas ou medidas cautelares.
Grupos reflexivos estimulam mudança de atitude
O trabalho acontece em grupos reflexivos conduzidos por facilitadores capacitados. Ao todo, são 16 encontros, com duração média de duas horas, nos quais são discutidos temas como papéis de gênero, relações de poder, tipos de violência e impactos sociais do comportamento agressivo.
A metodologia adotada não é impositiva. O foco está na construção do entendimento a partir da reflexão dos próprios participantes.
“A ideia é estimular que essa transformação parta deles, a partir das discussões e das experiências compartilhadas”,
explicam os facilitadores Graciely Menez e Giuliano Rezende.
Apesar de não haver garantia absoluta de mudança, os dados do programa no estado apontam resultados positivos. Mais de 80% dos participantes não voltam a cometer violência doméstica após passarem pelos grupos.
Segundo os facilitadores, relatos dos próprios homens que participaram do projeto indicam impactos significativos, como o controle de impulsos agressivos e mudanças de comportamento em situações de conflito. Além disso, há um efeito multiplicador: participantes levam o aprendizado para dentro de casa e para outros espaços da sociedade.
Combater a violência também passa por quem a pratica
Os profissionais envolvidos no projeto destacam que o enfrentamento da violência doméstica precisa ir além do atendimento às vítimas e alcançar também os autores.
“O homem é protagonista na maioria dos casos, então é fundamental trabalhar diretamente com ele para interromper esse ciclo e evitar que novas violências aconteçam”,
afirma a coordenadora do projeto, Juliana Siqueira.
A proposta é provocar reflexão sobre padrões culturais que ainda reforçam relações de poder e controle sobre a mulher. Apesar da relevância, o projeto ainda é pouco conhecido pela população, o que limita seu alcance e compreensão social.
Os profissionais também apontam a necessidade de ampliar ações preventivas em escolas, empresas e comunidades, para que o debate sobre violência doméstica aconteça antes mesmo que os casos cheguem ao sistema de justiça.
Para os envolvidos, discutir violência doméstica de forma contínua é essencial para transformar a realidade e reduzir os índices de violência. A proposta é fortalecer espaços de diálogo e reflexão, promovendo mudanças culturais a longo prazo.