Daniel saiu de Campo Grande para João Pessoa cursar Engenharia de Software. Artur passou no vestibular de Turismo na UEMS. Ângelo, hoje, trabalha numa concessionária e usa Excel no trabalho. Valentina superou desafios impensáveis e está construindo seu caminho. O que essas histórias têm em comum?
Elas representam a presença do CEAME/TEA na vida de cada uma. O Centro Estadual de Apoio Multidisciplinar ao Estudante com Transtorno do Espectro Autista completou dez anos de existência nesta quinta-feira, 18 de junho, com um evento no auditório da Escola Estadual Maria Constança de Barros Machado, em Campo Grande.
Uma década de propósitos
Quando o CEAME/TEA abriu as portas, em 2016, havia 174 estudantes autistas matriculados na rede estadual de ensino de Mato Grosso do Sul. Em 2025, esse número chegou a 2.459. Um crescimento de mais de 1.300% em menos de uma década.
A coordenadora de Educação Especial, professora Ana Paula Gava, projeta que o ritmo não vai desacelerar. “A proporção de estudantes na rede com autismo tem aumentado 50% a cada ano. Este ano, nós estamos com 2.400 estudantes e o ano que vem provavelmente ele será ampliado para ter 3.200.”
No mesmo período, o número de professores de apoio especializado saltou de 159 para 1.129 profissionais distribuídos por todo o estado. Para a professora Shirley Rodrigues, que atua diretamente com estudantes com TEA, esse crescimento tem rosto e resultado. “O Centro tem feito um trabalho extraordinário na formação dos professores. Hoje tem muitos professores comprometidos e esse trabalho só tende a crescer”, pontua a professora.
Os dados foram apresentados no lançamento do e-book ‘CEAME/TEA: 10 Anos de Inclusão, Aprendizado e Transformação’, publicação que sistematiza a trajetória do Centro desde sua criação, autorizada pela Lei Estadual nº 4.770 de 2015 e instituída pelo Decreto nº 14.480 de 24 de maio de 2016. A obra integra oficialmente as entregas do contrato de gestão da SED/MS no exercício de 2026.
Assessoramento que faz diferença na sala de aula
Na Escola Estadual São Francisco, a professora de apoio Emily Carvalho da Cruz acompanha Lucas Zanon Rossato, estudante com TEA nível 3 de suporte. No início, Emily chegou a procurar os técnicos do CEAME/TEA para solicitar seu próprio desligamento — estava insegura, sem saber como avançar.
A equipe do Centro ouviu, orientou e ficou ao lado dela. Hoje, Emily conduz um trabalho estruturado com Lucas, baseado em rotina flexível, recursos visuais e Plano Educacional Individualizado.
A história é uma das boas práticas registradas no e-book e ilustra o que o núcleo de assessoramento do Centro faz no cotidiano. Que é orientar professores, observar estudantes, propor estratégias e devolver às equipes escolares a confiança necessária para seguir em frente.
Para a professora Shirley, que acompanha a estudante Valentina, de nível 2 de suporte, o trabalho cotidiano tem muito de paciência e método. “É muito gratificante fazer parte desse do crescimento dela. Não é para qualquer um, tem que ter muito amor mesmo para fazer isso”, comenta a professora, emocionada.
Formação que alcança o interior
Entre 2016 e 2025, o CEAME/TEA realizou ações formativas voltadas a professores regentes, professores de apoio especializado e equipes gestoras. A partir de 2022, o volume cresceu expressivamente — chegando a 21 formações em 2022 e em 2024.
A formação continuada acontece no formato online e permite alcançar escolas nos municípios do interior do estado sem deslocar profissionais. Os conteúdos priorizaram ferramentas do Plano Educacional Individualizado, o Diário de Bordo e espaços de troca entre educadores.
O Centro também realizou formações no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul, no SENAC e no Departamento Estadual de Trânsito, levando orientações sobre o atendimento à pessoa com autismo para além das fronteiras da rede estadual.
Próximo passo: psicomotricidade
Como perspectiva de ampliação dos serviços, o CEAME/TEA está em fase de planejamento para implementar o Atendimento Educacional Especializado em Psicomotricidade voltado aos estudantes autistas. A intenção, segundo a coordenadora Ana Paula Gava, é que o serviço seja "ampliado para as 217 salas de recursos que nós temos nos 79 municípios e nas 352 escolas."
O evento que celebrou conquistas
A comemoração reuniu autoridades, profissionais, famílias e estudantes. A superintendente de Desenvolvimento da Educação Básica, professora Adriana Aparecida Buytendorp, esteve presente representando o secretário de Estado de Educação, Hélio Daher.
Com quase quatro décadas de trajetória na Educação Especial, ela resumiu o peso e a importância do momento. “Eu me sinto muito feliz em dizer que nós demos frutos, porque isso sempre foi o meu objetivo. Não consigo imaginar fazendo outra coisa da minha vida porque sempre soube que nós seríamos pessoas capazes de dar continuidade a esse sonho."
A gerente pedagógica do CEAME/TEA, professora Maria José dos Santos, que apresentou oficialmente o e-book, dedicou a publicação à equipe do Centro e aos estudantes. “Essa trajetória só pode ser contada porque nela está presente o elemento mais importante de todos, os estudantes. É por eles e para eles que o nosso trabalho acontece diariamente”.
A professora e os educadores presentes foram aplaudidos de pé por mais de 2 minutos em um momento que emocionou o auditório lotado da Escola Estadual Maria Constânca de Barros Machado, local escolhido para a realização do evento.
A programação incluiu apresentação da Banda Ritmo Sem Barreiras, formada por estudantes do AEE (Atendimento Educacional Especializado) do CEESPI (Centro de Estadual de Educação Especial e Inclusiva), sob regência dos professores musicistas Carlos Antônio da Rocha e Luís Fernandes da Silva Lima, e orientação da professora do AEE Andréia Antônia Vieira Peixoto.
Integraram o grupo Jorge Luiz Weise e Rityellen da Silva nos vocais, Renatha Ferreira também nos vocais, Maria Fernanda de Almeida no carrilhão, Mariana Gomes Aguiar no agogô, Pedro do Carmo no pandeiro e meia-lua, Elias Arruda no bongô, Misael Bastos Leal no bloco sonoro, Danilo Ribeiro na bateria e Gabriel de Araújo no pandeiro e meia-lua.
A programação também incluiu depoimento do egresso Daniel Rubim Torres, aprovado em Engenharia de Software e hoje em João Pessoa e o canto da estudante Valentina Alicia Faravelli, da EE Sebastião Santana de Oliveira.
Ao deixar uma mensagem para outros estudantes com autismo, Daniel foi preciso. “Graças a esse trabalho todo, hoje estou fazendo na faculdade o curso de engenharia e a mensagem que eu deixo é que acreditem em vocês."
A avó de Valentina, ressaltou o quanto a neta era fechada, não conseguia fazer amizade, e o CEAME mudou isso.
“Ela não conseguia interagir com ninguém. Depois que ela começou a participar do Centro, a vida dela mudou bastante. O que eu queria era que ela fosse mais participativa, mais incluída no meio social e ela conseguiu”.
Para Naina Dibo, presidente da Associação Prodetea (Associação de Pais Responsáveis Organizados pelas Pessoas com Deficiência e Transtorno do Espectro Autista) — que atende mais de 33 municípios e aproximadamente 24 mil famílias em Mato Grosso do Sul e é mãe de um jovem autista de 17 anos que estuda na rede estadual, a avaliação é direta.
“Quem tem cumprido à risca, com professores capacitados, é o Estado. O CEAME/TEA é especializado nisso e tem um atendimento de excelência”, resumiu Naina.
Representando o Ministério Público, o promotor de justiça Paulo Ishikawa, coordenador do programa MPTEA, conectou o trabalho do CEAME/TEA a uma pergunta que a rede estadual já começa a responder na prática. O que acontece depois da escola?
"Esses alunos irão para o mercado de trabalho, esses alunos irão para os órgãos públicos, vão se tornar servidores públicos ou profissionais na iniciativa privada. Precisamos, enquanto Estado, olhar para o futuro, pensar como que eles estarão na fase adulta, onde eles estarão no mercado de trabalho, qual será a garantia de sustentação que eles poderiam ter”, destacou o promotor Ishikawa.
Estiveram presentes ainda o deputado estadual Rinaldo Modesto; o presidente do Fórum de Diretores e Gestores da Rede Estadual de MS, Márcio Wagner de Souza; o presidente regional de inclusão e gerente do projeto PRF Amigos dos Autistas, Alexandre de Araújo; a diretora de Inclusão e Desenvolvimento Estudantil da UFMS, Eliane Matos Miranda; a procuradora de justiça e coordenadora do Núcleo de Educação do Ministério Público Estadual, Vera Aparecida Bogalho; o coordenador do CAED (Centro de Apoio Educacional), Nicolas Maldonado; diretor da EE Maria Constança de Barros Machado, Rinaldo Schmidt e Ildario Santos, diretor adjunto da mesma unidade escolar, que sediou o evento.
Também marcaram presença os gerentes pedagógicos dos Centros Estaduais de atendimento ao público da Educação Especial, a professora Ângela Maria Dias da Silva, do CEESPI; o professor Bruno Ribeiro da Cruz, do CEADA; a professora Daniela Silva da Costa, do CAS; a professora Rosemary Nantes Ferreira Martins, do CEAM/AHS; e o professor Erick Douglas Costa Montenegro, do CAP/DV-MS.
A publicação do e-book está vinculada à Coordenadoria de Educação Especial da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul.
