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“A parte mais pesada da cadeia é a saudade da família”, dizem presos

Na Penitenciária ou “faculdade do crime” como é chamada por muitos, há quem faz doutorado na criminalidade, mas, por outro lado, existem aqueles que pensam em ter outro destino.

Danielle Brito - Hojemais Três Lagoas
10/01/20 às 20h02
A história de Amaral foi retratada nas páginas de um livro ( Albecyr Pedro)

O crime deixa marcas para sempre em encarcerados. Uma delas é ter que provar a todo o tempo a vontade de refazerem suas histórias após deixarem para trás a vida entre as grades. 

Na Penitenciária ou “faculdade do crime” como é chamada por muitos, há quem faz doutorado na criminalidade, mas, por outro lado, existem aqueles que pensam em ter outro destino. 

A vida na prisão é um mistério e gera, de certa forma, curiosidade para quem está do lado de fora de muros vigiados 24 horas por dia. O Hojemais teve a oportunidade de passar uma tarde na Penitenciária de Segurança Média de Três Lagoas, e entrevistar dois detentos que foram condenados pelo crime de homicídio (Art. 121 do Código Penal). 

Lá dentro, em silêncio e em meio a olhares desconfiados, fomos recebidos pelo diretor Raul Augusto Sá Ramalho, que nos mostrou as reformas e adequações que foram feitas no estabelecimento penal. Na entrada o que mais chamou a atenção foram quadros pintados pelos próprios detentos. Com cores fortes e traços marcantes, as pinturas deixavam o ambiente mais agradável e alegre. 

Depois de passarmos por grades, tivemos acesso à horta, ao projeto de piscicultura e também ao trabalho realizado por detentos dentro do presídio. Na pausa para o café, conhecemos o detento Jeferson Cordeiro do Amaral de 37 anos, condenado a 20 anos de reclusão. Preso há oito anos e 10 meses, Amaral contou sua trajetória de vida, e anseios para o futuro. 

“Eu nasci na cidade de Itapejara no estado do Paraná, mas fui criado em Brasilândia. Eu sempre trabalhei desde muito novo, até o dia que eu conhecia as drogas e a bebida. Foi um caminho sem volta, com a cabeça cheia de álcool e entorpecente eu tirei a vida de uma pessoa. Hoje eu estou aqui longe das minhas filhas, pagando pelo meu erro e tentando me ressocializar. Quando o cara cai aqui dentro a forma de pensar, agir e sentir muda. Vou falar uma coisa para vocês, a parte mais pesada da cadeia não é a falta de liberdade, e sim, a saudade da família que corrói a gente por dentro”, disse Amaral. 

Ao ser questionado sobre arrependimentos, o detento respondeu rapidamente e ainda deu um conselho: “Eu me arrependo muito de ter feito aquela família sofrer, mas infelizmente não é possível entrar no túnel do tempo e voltar atrás. Se fosse possível, minha história teria sido totalmente diferente. A nossa vida é muito preciosa e ninguém tem o direito de tirá-la. Fui fraco e não consegui evitar tamanha fatalidade. Hoje estou pagando um preço muito alto”, contou. 

De cabeça baixa, Amaral, explicou que apesar de estar preso, ainda acredita em seus sonhos. 

“Nós não devemos perder a esperança na vida, não é fácil ultrapassar obstáculos, mas a vida vale a pena ser vivida de forma leve, e isso acontece principalmente quando nos dedicamos a Deus e as nossas famílias”, falou. 

Por alguns minutos o detento saiu de perto da nossa equipe e quando voltou estava com um livro e um elástico de cabelo nas mãos. 

“Dona aqui eu aprendi bastante coisa, voltei a estudar e participei da 1ª Antologia Autobiográfica “Quando a boca cala, a palavra fala”, projeto idealizado pelas professoras Maria Luiza Castelari e Michela Vanessa Martins. Quando cheguei neste lugar fui aprender um pouco de tudo, além de ocupar o tempo e a mente, também conquistamos a remissão de pena. Hoje eu faço laço em crochê para o cabelo, e estou aprendendo a costurar. Quando cheguei aqui eu só tinha a 5ª série, na cadeia eu tive a oportunidade de voltar a estudar, e pretendo terminar os estudos para o dia que ganhar a liberdade fazer faculdade de Zootecnia. Antes eu não tinha profissão, hoje posso dizer com muito orgulho que graças ao trabalho feito na penitenciária de Três Lagoas, eu tenho um ofício. Quero passar por aquele portão levando todo o aprendizado e as coisas boas que aprendi durante este tempo recluso, uma delas é ter paciência e um tempo para Deus”, concluiu Amaral .

Candor compõe para ocupar a mente dentro do presídio (Albecyr Pedro)

Antes de ir embora encontramos com o senhor Francisco Xavier Candor, 59 anos, preso há cinco anos por homicídio, e tem a mesma opinião de Amaral. Sorridente e com um violão nas mãos, Candor revelou a dificuldade que tem para lidar com a saudade da família. 

“Eu fui julgado e condenado a 15 anos, estou a 5 anos aqui e ainda não aprendi a driblar a saudade. Eu procuro trabalhar e ocupar meu tempo para amenizar a minha dor de estar longe de casa. Minha família, quando pode vem me visitar, mas nem sempre isso é possível. E nas minhas horas de folga eu gosto de tocar meu violão e compor músicas. Recentemente escrevi uma música em homenagem aos 50 anos do Jornal Nacional, e a moda ficou boa demais”, disse 

Durante nossa conversa, Candor recordou do dia que chegou ao presídio. 

 “Minha forma de pensar mudou muito desde que eu cheguei aqui. Esse tempo de reclusão mudou bastante o minha postura diante das dificuldades. Aqui eu tenho uma ocupação, um trabalho, e também aprendemos uns com os outros aqui dentro”, declarou.

Candor finalizou a conversa cantando uma música de sua própria autoria. 

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