As condições da infraestrutura são determinantes para acidentes em pontes e viadutos. A opinião é do especialista em infraestrutura de transporte da UnB (Universidade de Brasília), Dickran Berberian. “As pontes geralmente são mais estreitas que as rodovias, o que já representa riscos aos motoristas e passageiros. Quando não possuem acostamento, implicam grande perigo em momentos de ultrapassagem. A ausência de barreiras é outro problema porque, em caso de acidentes, elas servem para jogar o carro para dentro da pista, evitando que ele caia em rios ou precipícios”, ressaltou.
Segundo Berberian, a construção das obras de arte deve atender a normas estruturais e funcionais, com regras específicas sobre a existência de acostamentos e defensas. O especialista explica que as pontes e viadutos devem ser vistoriados a cada três anos e passar por análises mais detalhadas a cada seis anos. “Como essas vistorias não são realizadas com a frequência necessária, usualmente são detectados problemas por falta de manutenção, recalques nas fundações e corrosões causadas por enchentes”, explica.
Ele acredita que a manutenção é importante para identificar se as obras de arte possuem trincas e corrosões nas ferragens. Outro ponto observado são os afundamentos no solo devido ao mau dimensionamento ou excesso de carga. Por fim, ele sinaliza a importância de um planejamento de controle hidrogeológico para previsão de futuras enchentes. “Fica difícil dimensionar um problema se não sabemos o momento em que os rios vão encher”, lamenta o especialista. Ele cita que conhece mais de 50 casos em que ônibus caíram nos rios à noite porque estava chovendo e os motoristas não conseguiram perceber que as pontes não estavam com os trechos completos.
De acordo com a 21ª Pesquisa CNT de Rodovias, divulgada pela Confederação Nacional do Transporte, das 10.447 pontes ou viadutos pesquisados em todo o país, 58,6% não possuem acostamentos ou defensas e 7,6% não possuem nenhum dos dois mecanismos de segurança. Além disso, 1.429 estão localizados em cidades, por onde as rodovias avaliadas transitam em áreas comerciais ou residenciais. Dessas, 79,8% não possuem passagem de pedestre, dificultando a mobilidade local.
O estudo mostra que, 94,9% das obras de arte avaliadas são construídas em concreto e 56,6% possuem dimensão entre 10 e 50 metros de comprimento. As pontes são projetadas e construídas para sobrepor barreiras físicas, tais como cursos d’água. Já os viadutos sobrepõem outras vias ou desníveis topográficos.
A pesquisa da Confederação também revelou que os investimentos para manutenção e adequação das obras de arte, assim como para a construção de novas pontes e viadutos, caíram substancialmente entre 2016 e 2017. Enquanto naquele ano, foram investidos R$ 6,77 milhões para manutenção e adequação, até novembro do ano passado, foram somente R$ 330 mil. O valor também caiu sensivelmente na construção: R$ 304,13 milhões, em 2016, contra R$ 33,44 milhões, em 2017.
Conforme o órgão, “um dos agravantes relacionados aos acidentes em pontes e viadutos é o fato de que, nessas obras de arte, normalmente não há área de escape. Tal característica, somada à velocidade incompatível ou à falta de atenção, amplia o risco de queda e, consequentemente, de lesões graves ou mortes. É preciso trabalhar em dois pilares para coibir acidentes nesses pontos específicos: educação para o trânsito realizada em todas as Unidades da Federação – tanto junto aos motoristas quanto em escolas, empresas e comunidade – e fiscalização ostensiva com base em pontos críticos de ocorrências de acidentes de trânsito, com vistas a coibir comportamentos perigosos.
