Cobrança para passar de ano, tensão pré-vestibular, bullying, sexualidade, relacionamentos conturbados em casa, ou até paixões não correspondidas podem se transformar em grandes problemas na vida de adolescentes. Quando surge a sensação de fracasso, vem o sentimento de culpa e a necessidade de autopunição. As dores emocionais são marcadas com agressões ao próprio corpo e as cicatrizes escondidas com roupas longas, fechadas ou atitudes de introspecção, como o isolamento.
A automutilação tem crescido entre os jovens de escolas públicas de Três Lagoas. De acordo com Vilma Portela - professora e presidente do Conselho Municipal de Saúde - os casos ainda são pouco divulgados; porém, estão presentes em pelo menos 90% das escolas públicas do município. Nesta semana, Vilma participou de uma reunião em escola pública e foi notificada de que os casos de automutilação ganham força e preocupam, cada vez mais, alunos e educadores.
“Isso é muito preocupante; somente na reunião em que participei, com cinco pais de alunos, pelo menos seis dos filhos desses responsáveis se automutilaram. Em um dos casos, inclusive, a jovem que se automutilava disse à sua mãe que cometeria um suicídio após sair da escola” - disse.
Na opinião de Vilma, apesar de casos de automutilação não estarem diretamente relacionados com suicídios, é preciso implantar políticas dentro das escolas capazes de combater essas ações. Entre as medidas preventivas estaria o suporte imediato de psicólogos nas unidades escolares, bem como encaminhamento para uma equipe multidisciplinar, que pode identificar os motivos dessas práticas entre os jovens.
COMPORTAMENTO
O comportamento de jovens que se automutilam é bem parecido: eles usam blusas de manga comprida, ainda que em dias muito quentes; são retraídos e não trocam de roupa perto de outras pessoas.
Conforme Vilma, essa não é uma regra; porém, é preciso acender o sinal de alerta se o adolescente mudar seu comportamento e apresentar essas características. “Para isso, é fundamental que seja firmado um elo entre pais e educadores; pois, juntos, eles conseguem descobrir o problema e buscar soluções” - pontuou.
Para Davis Martinelli - vereador de Três Lagoas e que já atuou por sete anos no Conselho Tutelar - a automutilação é uma forma da criança ou adolescente chamar a atenção dos familiares. Em muitos casos, esse comportamento revela problemas sérios - entre eles, os abusos sexuais.
Na época em que foi conselheiro, Martinelli lembra que casos de automutilação apareciam em terceiro lugar da lista de demandas da unidade e a maioria relatava que se cortava por conta de desconfortos ou problemas psicológicos. “As meninas eram as que mais faziam esse tipo de coisa. Chegavam entre 20 e 30 casos dessa natureza por mês no Conselho” - destacou.
Conforme o vereador - é preciso implantar ações preventivas nas escolas, pois, são desses locais que a maioria dos casos se torna público.