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A estrada de ferro Noroeste do Brasil é uma das maiores lembranças para os habitantes mais antigos de Três Lagoas, as grandes máquinas que atravessavam o município eram vistas como algo fantasmagórico para a população, já que na década de 30 era um dos principais meios de locomoção.
Com o crescimento populacional, a linha ferroviária comandada na época pela empresa ALL (América Latina Logística) tornou-se um dos maiores problemas de mobilidade urbana, em meados de 2000, a preocupação já era grande e a busca por soluções tornou-se palco de diversos debates.
As manobras realizadas em horários de pico, paravam o centro da cidade, causando filas de carros e muito estresse para moradores da região.
Marta Rodrigues Martins, que reside em Três Lagoas a 20 anos, relembra o caos vivenciado, quando ainda era moradora do bairro Flamboyant, onde presenciou diversas situações de riscos e até mesmo de óbitos, causados pela passagem do trem.
“Na época quem morava do outro lado da linha e tinha que ir trabalhar ou deixar os filhos na escola, muitas vezes chegava atrasado devido a manobra do trem mas outras pessoas arriscavam a vida passando no meio dos vagões além dos acidentes graves envolvendo óbitos” – relembrou a moradora.
Quando a linha ainda era ativa, o cruzamento das Avenidas Filinto Muller e Clodoaldo Garcia era um dos locais mais afetados, devido os trilhos cortarem ambas as faixas, sendo um dos pontos para realização das manobras que duravam cerca de 15 minutos, causando o congestionamento nas duas vias circulatórias.
Domingos João
“Dependendo da movimentação dos vagões, tinha dia que você ficava quase meia hora ali, então você tinha que retornar e procurar outra passagem para fazer a travessia e não ficar muito tempo parado...O serviço de emergência como o SAMU tinha que fazer o mesmo... Mas com desativação ficou mais fácil porque não tem mais nada que impede, e estão com a promessa de fazer uma avenida de fora a fora, saindo lá darodovia de Campo Grande, pelo menos isso é o que ouvimos nos jornais” – contou Domingos João, morador há 14 anos de Três Lagoas.
Além de todos os problemas envolvendo o congestionamento, muitos moradores ainda se lembram dos perigos e cenas chocantes de óbitos e amputações de membros, já que muitos pedestres e ciclista motivados pela impaciência colocavam a vida em jogo. Willian Batista se recorda de um caso que ocorreu na Rua João Dantas Figueiras, quando um ciclista se desequilibrou, caiu nos trilhos e não conseguiu se levantar a tempo, sendo atropelado pelo trem e tendo a amputação de uma das pernas.
Para grande parte da população, a desativação da linha que atravessava a cidade, foi algo muito positivo, mas o Diretor da Cultura de Três Lagoas, Rodrigo Fernandes alega que ainda há problemas sérios, devido o não planejamento para tal anulação.
“Hoje, cinco anos após a inutilização da estação, muitos pontos permanecem em estado de abandono, assim como a própria estação, que se tornou ponto de encontro para usuários de drogas e pedintes, quando na verdade poderia ter outra serventia... além de ser um possível foco de doenças epidemiológicas, porque em alguns trechos da linha ainda existe muito mato, contribuindo para proliferação de mosquito transmissor da dengue. Em meados de 2012, tivemos até um caso de estupro de uma criança de 12 anos em um dos trechos, e ninguém viu nada, pois era um local abandonado, ninguém passa ali” – relatou.
De acordo com Fernandes, uma boa parte desses problemas sociais poderão ser sanados até o fim de 2019, já que existe um projeto para a ocupação da estação, que deverá ser o novo endereço da diretoria.
“A proposta é de revitalização do espaço, criando uma urbanização. Recentemente a gestão pública tratou diretamente com o DNIT a municipalização do entorno ferroviário e de alguns outros prédios, porque se nós ocupamos de maneira humanizada isso nos traz bons frutos e os problemas são sanados” – finalizou o diretor.