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Mulheres negras três-lagoenses contam sua trajetória de vida e luta contra as desigualdades

No dia da Mulher Negra, o Hojemais convidou duas mulheres para contarem sobre seus desafios em uma sociedade preconceituosa e machista

Thais Dias - Hojemais Três Lagoas
25/07/20 às 08h29
Maria Angelica e Giovanna Coelho contaram a importância da data em meio a sociedade (Foto: Arquivo Pessoal)

Por um longo período a história das mulheres negras foi contada apenas por registros orais, apesar de silenciadas pelo preconceito racial e o machismo a sede por mudança, e a esperança de um mundo melhor para as futuras gerações fez com que grandes mulheres travassem lutas históricas, e se tornassem símbolos de resistência.

Como Teresa de Benguela, uma das mulheres mais inspiradoras do Brasil. Nascida no século XVlll, liderou o Quilombo Quariterê, nas proximidades de Vila Bela da Santíssima Trindade, primeira capital de Mato Grosso.

Conhecida como “Rainha Teresa”, chefiou a comunidade entre 1750 e 1770, o quilombo era formado por cerca de cem pessoas, entre elas negros e índios.

Responsável pela estrutura administrativa, econômica e política da comunidade, a líder foi responsável pelo crescimento militar e econômico do grupo, após a morte de seu companheiro, José Piolho, que foi morto por bandeirantes.

Sobre a morte de Teresa, há divergência até os dias atuais – alguns historiadores falam que ela foi morta por soldados do governo local, outros defendem que ela se suicidou por rejeitar viver na escravidão.

O fato é que por todos os seus feitos, em 2 de junho de 2014, foi instituido por lei o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Teresa de Benguela e da Mulher Negra.

O PODER DA REPRESENTATIVIDADE

Maria Angelica é especialista em cabelos afro e trancista (Foto:Arquivo Pessoal)

A três-lagoense, Maria Angelica Gama, 34, cabeleireira especialista em cabelos afro, conta o poder da representatividade, “A data carrega consigo um peso histórico, pois Teresa lutou pelos seus direitos em uma época que era refugiada como escrava, e ajudava seus semelhantes a também terem força para lutar. Hoje vemos um avanço mesmo que engatinhado do que seria um ideal sonhado por nós, mulheres negras, temos mulheres dentro de cenários políticos, jurídico, jornalísticos, dentro dos poderes que a sociedade rege, porém dentro deste cenário temos muito o que melhorar.

Por mais que hoje vemos mulheres se empoderando, dentro de nossas vestimentas, enaltecendo nossas raízes, nossos cabelos, nas nossos posições ainda temos desigualdade social muito grande, visto que a maioria das mulheres negras são pobres, a taxa de feminicídio é maior para a mulheres retintas, ainda existe a invisibilidade da mulher negra no mercado de trabalho, onde em comparação com mulheres brancas ainda estamos em desvantagem.

O dia 25 de julho é tornar vivo o legado de Teresa de Benguela que lutou pelos seus iguais, como negra e como mulher, com sua garra, simplicidade e determinação. O que eu quero levar deste dia, e todos os outros, é que vivencie essa líder dentro de nós, para que as jovens negras tenham mais confiança, mais garra, mais determinação e acima de tudo ter orgulho de si mesma, porque muitas jovens negras tentam se encaixar em mulheres brancas.

É um marco histórico para nos lembrar de ser sempre guerreiras, e buscar cada vez mais esta determinação e garra para que em um futuro não muito distantes termos igualdade em salário, em representatividade e sermos finalmente nós mesmas”.

A IMPORTÂNCIA DA REDE DE APOIO

Giovanna Coelho contou como foi se descobrir negra (Foto: Arquivo Pessoal)

O sentimento de se ver em qualquer lugar ou posição dentro da sociedade através de outra pessoa, está ligado diretamente a representatividade. Uma pessoa se sente representada ao ver outra, com características ou pensamentos semelhantes aos seus, em uma posição que ela acha que não possa estar. 

Por meio deste pensamento a três-lagoense, Giovanna Coelho, 27, criou um perfil no instagram - @depoisquepari2 – onde conta seu dia a dia, com seus dois filhos, Maju e Martin.

Giovanna posta textos diariamente desconstruindo temas como: transição capilar, maternidade, amamentação, rotina de serviços de casa e etc.

A jovem conta que criou o perfil como um respiro da maternidade, “Tem sido incrível a experiência, conheci várias mulheres onde conversamos e trocarmos conhecimento”. contou

Giovanna contou a nossa reportagem como foi se descobrir negra, “Eu fui criada por uma mulher branca, cresci longe da família do meu pai que é preta.

Não vi racismo pois não sabia o que era, como eu disse, minha mãe é branca e ela me protegeu de tudo o que pode.

Fui entender a importância da representatividade e de amar quem eu sou depois que engravidei com 22 anos. Tive que passar pela transição e foi onde comecei a estudar racismo, aceitação, identidade.

Confesso que sei muito pouco sobre o assunto, mas sinto na pele (literalmente) como é ser mulher e preta.

Me vi como uma mulher preta sendo mãe de crianças brancas e enfrentando o racismo na rua quando me perguntaram se eu era a babá deles.

Mulheres pretas não eram/são vistas como algo usável, descartável. Importante comemorar o dia 25 pela nossa emancipação e importância na sociedade”, disse.

Por muitas décadas, como consequência da cultura racista brasileira, os cabelos crespos nunca foram associados a beleza, muito pelo contrário: por eras, ter cabelo crespo era sinônimo de ser sujo e desleixado. Nas novelas – principal mídia consumida pelos brasileiros – os negros de cabelo crespo eram os empregados, os “favelados” ou os bandidos.

Para entender os efeitos negativos desta associação, é só parar para pensar: como vai se sentir uma criança negra que só vê brancos com cabelos lisos nas propagandas? Ou consumindo filmes, desenhos, programas de TV, histórias em quadrinhos onde todos os mocinhos e mocinhas são brancos de cabelo liso?

Além disso, a representatividade também é responsável por fazer com que o público que se encaixe nessa descrição se sinta representado e consiga assumir o que é de verdade, sem a noção de que precisa passar por processos estéticos caros e que danificam o cabelo só para se encaixar um padrão inexistente e totalmente discrepante da realidade brasileira.

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