* Jonir Pedro de Souza
Todos os dias Ele estava ali, na frente da Estação Ferroviária, junto à uma rotatória. Maltrapilho, sujo, quase semi nu, com um pequeno cacetete de madeira nas mãos, Ele fazia ordem unida, e girava, por vários minutos, em volta de si mesmo, no sentido horário, depois, girava também em sentido anti horário, sem nunca perder o equilíbrio. Por conta desses movimentos, a população o apelidou de PARAFUSO.
Dormia na seção de truque da NOB, e tomava conta do local como se Dele fosse. Para alguns, dizia chamar-se se Alarico, mas na verdade ninguém sabia seu nome, nem de onde Ele viera.
Uma vida tão marcante em Três Lagoas, que a poetisa Professora Flora Egídio Thomé, fez uma poesia em homenagem à Ele, no seu livro RETRATOS, que vai a seguir.
PARAFUSO
Na frente da Estação
Parafuso parafusa
num corpo adormecido,
sem rumor ou silêncio
uma aventura suspensa,
calejadas por desenganos,
desencontros/ou espasmos de solidão!
Vida enferrujada,
desparafusada,
que corrói-lhe as mãos e os pés,
a fome e o sono,
num transbordante roda peão!
Vida pálida
sem calor ou ressonâncias
tangendo-lhe o corpo semi nu!
E num movimento rítmico
feito de gemidos remoidos,
Roda e gira
Gira e roda
Tanto tanto
Sobre o abismo da vida,
Que fico tonta,
Só de vê-lo
(Des)parafusar.
Extraído do livro RETRATOS, de Flora Egídio Thomé, de 1993.