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Ucrânia no meio do caminho entre ocidente e oriente

Os conflitos entre ucranianos e russos no território da atual Ucrânia têm uma história longeva, todavia a guerra atual não tem relação direta com um passado muito distante.

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05/03/22 às 06h36

* Vitor Wagner Neto de Oliveira [Professor e História da UFMS, Campus de Três Lagoas. Dr. Em História Social]

HJ - Qual a origem do conflito entre Rússia e Ucrânia e se essa relação entre os países sempre foi delicada?

Vitor Wagner - Os conflitos entre ucranianos e russos no território da atual Ucrânia têm uma história longeva, todavia a guerra atual não tem relação direta com um passado muito distante. O conflito atual se explica mais pelas disputas entre Rússia e OTAN/União Europeia, do que necessariamente pelas diferenças nacionais entre Ucrânia e Rússia.

Todavia, para entendermos porquê a Ucrânia se torna o centro desta disputa, devemos sim retornar à história do século XX quando se tem a definição das frágeis fronteiras nacionais dos estados do Leste europeu. Um marco dessa história foi a formação da federação das Repúblicas Socialistas Soviéticas na década de 1920, com centro na Rússia.

A Revolução Russa, em 1917, foi um acontecimento que impactou o mundo, e na Europa teve consequências diretas na redefinição de estados e governos. Diversos territórios passaram por revoluções semelhantes, no mesmo contexto, mas carregavam, além da bandeira do socialismo, as reivindicações de independência nacional. De início, a política dos revolucionários que assumiram o poder em Moscou era a de autodeterminação dos povos, o que significou para a Ucrânia a independência em relação à Rússia e a disputa com a Polônia por conquista de territórios.

Todavia, com a centralização burocrática do poder na União Soviética e a instalação da ditadura de Josef Stalin no final da década de 1920, mudou-se a política de autodeterminação e as nações passaram a compor o bloco soviético, muitas vezes forçadamente com a imposição pela guerra e não mais pela vontade popular.

Na Segunda Guerra a Ucrânia foi palco de importantes batalhas e perdas humanas. O fim do conflito, em 1945, e a divisão do mundo entre os blocos soviético e estadunidense não apagou as bandeiras nacionalistas, tanto para um lado (soviético), quanto para outro (estadunidense). Na década de 1980 eclodiram revoltas populares na Rússia que questionavam a ditadura herdada do stalinismo e reivindicavam mudanças políticas. Nas nações do Leste europeu que compunham o bloco soviético, esses levantes ergueram também as bandeiras da independência nacional. No desmonte do estado soviético a partir de 1985, comandado por Gorbatchov então secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, essas nações se abriram para o ocidente capitalista e as disputas nacionais, antes reprimidas pela ditadura stalinista, ganharam centralidade.

O presidente atual da Rússia, Vladimir Putin, foi formado como liderança política nesse ambiente de desmonte da União Soviética, mas segue herdeiro da ditadura anterior de Stalin. Sua escalada ao poder se deu pelas relações com os novos milionários russos que se apossaram das riquezas do Estado Soviético após a abertura para o capitalismo, pela perseguição aos opositores, com o apoio irrestrito das Forças Armadas e da Agência de Segurança Secreta da Rússia (de onde se origina Putin), agência que tem métodos nada ortodoxos de eliminação de opositores, além de ações paramilitares. Esta investida sobre a Ucrânia parece ser a de um projeto de retorno idealizado ao “império russo”, não na versão socialista mas mais como uma versão czarista, como uma nação capitalista em disputa com o ocidente. E a Ucrânia, mais uma vez é o centro desta disputa, pela localização estratégica entre a Rússia e a Europa, como se fosse um território tampão, uma barreira entre potências (oriente e ocidente).

As questões nacionais ucranianas têm sim determinação no conflito. Como também conta a expansão da OTAN para o leste, num movimento de uma nova versão da “guerra fria”. Não se trata aqui de uma guerra apenas de Putin. Todavia, a Rússia não é um Estado oposto ao ocidente, aos Estados Unidos ou a Europa. A Rússia é um estado capitalista, que comercializa com o mundo. A burguesia russa é globalizada. Extrema-direita e neonazistas existem de um lado e de outro da fronteira, não se trata de uma luta contra um estado fascista. Qual o perigo então da expansão do Mercado Comum Europeu e da própria OTAN para o leste, para a Ucrânia? Ainda estão muito nebulosos os motivos desta guerra, contudo muito se explica pela manutenção do regime de Putin na Rússia, pela permanência a longo prazo desta ditadura.

Deveríamos aqui, retomar o princípio da autodeterminação dos povos. Na breve história de independência da Ucrânia, desde 1991, ocorreram poucas eleições e nessas foram eleitos governos pró-Moscou ou pró-Ocidente/Europa. O governo atual, Zelenski, foi eleito em uma conjuntura de muitas lutas da classe trabalhadora e da juventude ucraniana. Em 2004, a “revolução laranja”, derrotou o projeto de Putin para manter o controle do país via presidente fantoche. Podemos não concordar com Zelenski, um governo pró-Ocidente. Todavia, a melhor defesa da Ucrânia parece ser a defesa da autodeterminação, de uma saída construída na luta interna da população ucraniana.

 

HJ - Quais são os impactos deste conflito no mundo ?


Vitor Wagner - O perigo de uma expansão da guerra para além das fronteiras ucranianas e russas é muito difícil acontecer. Com isso, uma guerra total/mundial, uma guerra nuclear ou algo do tipo, penso que está descartada. Os interesses econômicos em jogo, inclusive da China, falam muito mais alto do que um projeto nacional russo. E se tiver que sacrificar a Ucrânia, Biden e os europeus farão sem dor na consciência.

As consequências maiores, como sempre, têm sido e serão para a sociedade civil, as mulheres, crianças e homens da Ucrânia. A crise humanitária com a migração forçada é o impacto mais aparente. Mas outros tantos, como a perda humana e econômica, além da crise nos países  fronteiriços à Ucrânia, que recebem os imigrantes, são questões ainda que se agravarão, inclusive com a possibilidade de surgimento do xenofobismo. Na Europa, como em outros continentes, as crises econômicas e falta de oportunidades de trabalho quase sempre levam a reações de grupos xenófobos, contrários a imigrantes. E isso já temos visto com a seleção que autoridades na frente de recepção de refugiados têm feito na Polônia, excluindo ou colocando no final da fila habitantes da Ucrânia originários do continente africano ou do Oriente Médio.

A depender do resultado desta guerra, do desgaste ou não de Putin, e do papel da China nas relações internacionais neste assunto, poderemos ter algum movimento na definição dos centros de poder internacional. Mas, provavelmente, não serão grandes mudanças.

O impacto maior poderá ser mesmo o econômico. E quanto mais demorar a solução para o conflito, maior será a profundidade da crise e maior a lenha na fogueira da crise econômica mundial da qual não saímos ainda desde 2008. Por isso também as grandes potências não economizarão para solucionar logo o conflito. Não que a Rússia seja uma potência industrial, pois, semelhante ao Brasil, é exportadora de produtos primários. É que a arma do ocidente, neste caso, é a sangria financeira. Tendo em vista que a economia é globalizada, o bloqueio aos negócios de uma nação é uma ação transnacional, que atinge a economia não só dos russos.


HJ - Como a invasão da Rússia à Ucrânia pode impactar a economia no Brasil? 


Vitor Wagner - Para países como o Brasil a extensão da guerra pode significar aprofundamento da crise econômica e social. O Brasil é bastante dependente de produtos importados, especialmente produtos industrializados, mas também primários como é o caso dos fertilizantes e mesmo do petróleo. 

Desde a década de 1990, os governos do Brasil, como também da Rússia e de outros países pobres, implementaram projetos de desmonte da indústria nacional e apostaram na produção de produtos primários, das commodities. Ocorreu, e ainda ocorre, uma desindustrialização nos países periféricos. Por outro lado, intensificou-se a concentração de terras e o monocultivo para exportação, o que limitou a autossuficiência alimentar. Há uma relação de profunda dependência dos países centrais, tanto na exportação quanto na importação de produtos.

Nesse ambiente, uma guerra que atinja o centro da economia mundial (Europa, Estados Unidos e China), será muito mais sentida nos países pobres e dependentes. O governo brasileiro, como disse a ministra da Agricultura, pensa que este conflito será rápido e que temos estoques para aguentar um tempo. Mas esta é uma aposta arriscada e que demonstra a fragilidade da economia brasileira, extremamente dependente dos movimentos internacionais.

Exemplo disso em Três Lagoas é a UFN-3. A unidade que poderia ajudar na independência do país no consumo de fertilizantes foi paralisada no governo anterior e não retomada neste. As duas tentativas de privatização, de venda, foram paralisadas em vista de acontecimentos externos. Primeiro tinha a negociação com um grupo boliviano, que foi interrompida em 2019 com as conturbações políticas no país vizinho. Agora estava em negociação com os russos, novamente interrompida em vista da guerra. Sem projeto de desenvolvimento nacional, ficaremos a mercê desses acontecimentos.

 

 

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