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Psicanalista traça o perfil de autores de feminicídio e possíveis motivações no assassinato de Halley Coimbra

O Hojemais conversou com Dr. Antônio João, para entender mais sobre os traços comportamentais e psíquicos destes criminosos

Hojemais Três LagoasColaboração: Aurora Villalba - Bruna Taiski
15/01/18 às 15h17
(Aurora Villalba)

A morte de Halley Coimbra Ribeiro Junqueira, morta a tiros pelo ex-marido, Renato Bastos Ottoni, comoveu Três Lagoas no último domingo (14) e levantou diversas questões sobre o crime de feminicídio. Uma delas relacionadas ao que poderia ter motivado Ottoni, ex-gerente de uma fábrica de celulose, a cometer tal ato estarrecedor. 

Para tentar entender um pouco mais sobre os traços comportamentais e psíquicos destes criminosos, assim como das vítimas, o Hojemais ouviu o psicanalista Dr. Antônio João Campos de Carvalho.

A compreensão das relações de gênero perpassa por várias conceituações e estudos, desde a construção de papéis masculinos e femininos, do aprendizado destes que formam a identidade dos sujeitos; até as questões que conseguem relacionar gênero e poder.

De acordo com o doutor Antônio João, os autores de feminicídios são, geralmente, homens dominadores, que não aceitam o fim do relacionamento ‘domínio e posse’ e ficam agressivos quando percebem que não controlam mais determinada situação.

“As coisas parecem tranquilas enquanto estão sob o domínio do autor, enquanto ele tem a posse ‘é meu e eu defendo’. Para ele se esse domínio está causando algum desequilíbrio ele tem que resolvê-lo, ele não consegue conviver a não ser no mando e para que seja do jeito dele, ele vai precisar exercer a posse e exercer a posse é tirar do outro o direito”, explica.

De forma cultural e genérica geralmente nessas relações abusivas, de domínio e posse a mulher absorve o papel de obedecer e o homem de mandar. O psicanalista explica que quando ela deixa de obedecer ocorre um desequilíbrio em relação ao dominante e isso será cobrado de alguma forma.

(Facebook)

“Imagine que quem tem posse e domínio sofre uma perda, a relação da perda para ele se torna um desastre. Então ele aparta essa dor de perder eliminando-a. Nós temos que nos preparar para perda e não estamos preparados para perder e sim para ganhar”, afirma.

Na hora fatídica de tomar uma decisão, muitos fatores estão presentes para dificultar a libertação da mulher agredida ou sob ameaça.

Os efeitos da violência psicológica são obstáculos muito duros; para uma mulher que escuta o tempo inteiro que não tem valor, que é xingada, que tem sua aparência física debochada e suas capacidades intelectuais menosprezadas, pode ser muito difícil compreender que a situação da violência não é parte da vida e não deve ser aceita. Muitas vítimas acabam acreditando que devem suportar as agressões, pois – como o seu agressor lhes diz – nenhuma outra pessoa atribuirá a elas qualquer valor.

“Quando é pela chantagem e pela compra 'Veja a qualidade de vida que eu lhe dou e você vai perder tudo isso, você não dá conta de viver assim' quer dizer que ele mantém o vínculo através do ‘dar alguma coisa’ e satisfaz momentaneamente e para se ter aquilo ela abre mão de alguma coisa, da gentileza, do afeto, do carinho.  Mas quando tudo isso não basta mais, ela rompe e essa ruptura no relacionamento, é algo muito forte no outro é a ruptura da posse e domínio, aí os atos virão”, diz.

Doença

No caso de Renato Ottoni, a psicopatia social não é o principal motivo para o assassinato de Halley Coimbra. O doutor Antônio afirma que a sociopatia é uma doença, quando o cidadão não consegue viver em sociedade, não só no seio familiar, mas em todas as relações humanas.

“A psicopatia social não é esse perfil do casal que parece perfeito, da família bem sucedida financeiramente e profissionalmente. Nem sempre é doença, é conflito. O sociopata vive mal em qualquer sociedade, ele quer explorar essa sociedade de alguma forma. Não é o caso do diretor de uma empresa. Não detenho o convívio dessa família, mas ao que me parece que nós vimos é que eram pessoas que no meio social eram chamadas de equilibradas, que tem uma relação de felicidade e tristezas, mas nada que fosse tão agudo e demonstrasse uma sociopatia”, esclarece.

Vítima

Nem sempre é tão fácil para a vítima romper os laços com o agressor. Os motivos são os mais diversos - desde a preocupação com a criação dos filhos, até a dependência afetiva, criada dentro de um ambiente de constantes ameaças.

“A mulher ainda neste conceito machista é treinada e construída para ser submissa, então ela obedece já por conceito, por cultura, na sua formação, depois associado ao dia a dia.

Mulheres que, por exemplo, não se qualificaram para vida, não criaram nenhuma habilitação e não sabem como disputar o mercado de trabalho que qualidade de vida social e econômica elas terão?

Que qualidade de vida elas darão para os seus filhos? E isso faz com que ela se submeta a tratamentos nem sempre condizentes à condição humana e muito menos a uma esposa, noiva, namorada, qualquer vínculo afetivo, mas elas acabam ficando enraizadas nisso. Pela sua formação que se traduz em comportamento e também vinculados à situação de vivência”, finaliza.

O que é feminicídio?

O feminicídio é uma qualificadora de homicídio que foi incluída no Código Penal pela Lei n° 13.104, de 9 março de 2015. É aplicada em casos de assassinato praticados contra mulheres em razão do gênero, seja por discriminação à condição de mulher ou por violência doméstica e familiar. A pena é de reclusão de 12 a 30 anos.

*Colaborou Aurora Villalba.

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