Campo Grande completa seus 127 anos nesta quarta-feira, 26 de agosto, celebrando uma história construída por diferentes gerações e marcada por transformações que fizeram da capital sul-mato-grossense uma das principais cidades do Centro-Oeste.
Mas, antes de conhecer essa potência metropolitana como jornalista, eu conheci a Cidade Morena como menino do interior.
Nascido e criado em Três Lagoas, minha primeira referência de uma cidade realmente grande veio justamente de Campo Grande. E ela chegou pelos trilhos da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em viagens que ficaram guardadas na memória e que hoje, tantos anos depois, ganham um significado ainda maior.
A primeira chegada: pelos trilhos
Era o começo dos anos 1990 - o trem saía de Três Lagoas durante a noite e, ao amanhecer, passava pela antiga estação Lagoa Rica, seguindo rumo à capital.
A chegada à antiga Estação Ferroviária de Campo Grande acontecia por volta das 7h30 e, para um menino do interior, aquela chegada era quase a descoberta de outro mundo.
As avenidas pareciam enormes. Havia muito mais carros, movimento, semáforos, comércio e gente. Tudo tinha uma dimensão diferente daquela que eu conhecia e até a chegada na estação, tinha suas histórias.
Meu pai, Sr. Edgard Corrêa - ferroviário experiente, costumava pedir que fechássemos as janelas quando o trem entrava na área urbana - segundo ele, naquela época, era comum que a molecada atirasse pedras contra os vagões e que algumas pessoas já haviam se machucado. Para mim, aquilo fazia parte da aventura de chegar àquela cidade grande que despertava tanta curiosidade.
A antiga estação era, portanto, muito mais do que um ponto de chegada, era a porta de entrada para um universo que parecia enorme aos olhos de uma criança.
Depois vieram os ônibus
Com o passar dos anos, Campo Grande passou a fazer parte da rotina de viagens também pelas estradas - em nosso caso, BR-262 e a chegada de ônibus tinha outro significado.
A antiga rodoviária era um mundo à parte: o movimento de passageiros, os restaurantes, as lanchonetes, os balcões, os sucos, o cheiro de comida e aquela sensação de que tudo acontecia ao mesmo tempo. Para quem vinha de Três Lagoas, desembarcar ali era novamente experimentar a sensação de estar em uma cidade grande.
A rodoviária era uma porta de entrada para o centro e para uma Campo Grande que parecia sempre ter alguma coisa nova para apresentar.
Uma cidade feita de lugares e lembranças
Com o tempo, alguns endereços passaram a fazer parte dessa memória afetiva - não apenas como pontos da cidade, mas como cenários de diferentes momentos da vida.
A Padaria Espanhola
E então existe uma lembrança que tem sabor. A saudosa Padaria Espanhola faz parte daquela Campo Grande que ficou registrada na memória não apenas pelas imagens, mas também pelos sabores. Café, bauru com presunto, queijo, tomate e orégano e uma Coca-Cola KS. É impressionante como determinados lugares permanecem vivos justamente por aquilo que nos fizeram sentir.
A Padaria Espanhola não é apenas uma lembrança de um estabelecimento comercial. É uma lembrança de família, de viagens e de momentos simples que, com o passar dos anos, ganham um valor enorme.
O centro e as antigas Lojas Americanas
O centro de Campo Grande também fazia parte desse encantamento. As ruas, o movimento, as vitrines e as antigas Lojas Americanas ajudavam a construir a imagem de uma cidade moderna e muito maior. Era um lugar para caminhar, observar e descobrir. E talvez seja essa uma das características mais bonitas das primeiras viagens: tudo parecia novidade.
Praça Ary Coelho
A Praça Ary Coelho também faz parte desse cenário da Campo Grande antiga. No coração da cidade, a praça atravessou diferentes períodos da história da capital e continua sendo uma das referências mais conhecidas do centro. Para quem chega hoje, ela pode parecer apenas uma praça tradicional. Para quem guarda lembranças de décadas passadas, ela representa uma cidade que mudou ao seu redor.
Galeria Dona Neta
Outro endereço que merece ser lembrado é a Galeria Dona Neta. Mais do que o nome de um espaço, Dona Neta remete a uma personagem da própria história de Campo Grande: Antônia de Moraes Ribeiro, conhecida como Dona Neta. A memória daquela mulher, de sua família e de seu casarão se incorporou à história urbana da capital. Hoje, o nome permanece associado a um endereço conhecido da cidade, carregando consigo uma história que atravessou gerações.
Cine Campo Grande
Para uma geração acostumada às grandes redes de cinema, lembrar do antigo Cine Campo Grande é voltar a uma época em que ir ao cinema era um programa especial. Localizado na Rua 15 de Novembro, o cinema foi inaugurado em 1980, com duas salas, e permaneceu durante décadas como parte da vida cultural da capital. O Cine Campo Grande encerrou suas atividades em dezembro de 2012.
Bar Tango
Outro nome que merece voltar à memória é o Bar Tango. Assim como tantos outros endereços que desapareceram fisicamente, o Tango permanece vivo nas lembranças de quem frequentou a cidade em outras épocas.
Pele Vermelha
E entre os lugares que ganharam fama própria na noite campo-grandense está a saudosa Pele Vermelha, criada pelo arquiteto e empresário Luiz Pedro Scalise. O espaço ficou conhecido por sua decoração temática e por uma proposta que fugia completamente do convencional. Scalise deixou sua marca na arquitetura, no entretenimento e na vida noturna de Campo Grande, e a Pele Vermelha se tornou um daqueles lugares que continuam sendo lembrados mesmo depois de fecharem as portas.
Referências/informações: Campo Grande News, Mídia Max, Prefeitura Campo Grande, G1.
